Dia a Dia do Paciente / Dia a Dia do Paciente

Caio Henrique Vianna Baptista

Publicado em 20/04/2022

Revisado em 28/04/2022

A cura do câncer “sobe à cabeça?”: reflexões sobre as emoções após a recuperação

A cura do câncer “sobe à cabeça?”: reflexões sobre as emoções

A cura da doença oncológica é almejada por médicos, equipe de saúde, família, mas, principalmente, pelo paciente!

Viver o câncer é algo sobremaneira difícil, pois ele traz consigo diversas cargas do ponto de vista físico, psicológico e social. Essas cargas dizem respeito às reações ocasionadas pelo tratamento, à pausa nos planos de vida, aos medos que surgem desde o momento do impacto do diagnóstico até o último dia de quimioterapia.

Esses assuntos costumam ser pauta de palestras de médicos, enfermeiros, psicólogos e até de pacientes após o tratamento. No entanto, é interessante observar como esses últimos e – consequentemente – seus dilemas são colocados no passado após a cura…

O que isso quer dizer?! Quer dizer que a cura da doença oncológica sempre foi algo relacionado ao status do corpo após o tratamento e seu suposto sucesso! A cura é aclamada, a quimioterapia tem seu fim e acabam as sessões de radioterapia…, mas e o psiquismo do paciente? Como fica?

A cura do ponto de vista da oncologia pode se dar a partir de diversos momentos distintos como, por exemplo, a remissão da doença vista em exames como o PET-CT, determinadas taxas observadas em hemogramas ou após o fato da doença não ter retornado depois de cinco anos (famosos e desejados cinco anos) …

Porém, a cura não é algo que se restringe aos exames médicos de rotina e tão pouco aos cinco anos de remissão. A cura também é algo emocional e subjetivo! Estar curado de uma doença oncológica do ponto de vista emocional envolve muito mais do que um exame médico!

O indivíduo que vivencia uma doença oncológica passa por diversas etapas emocionais que o condicionam como “paciente”. Fazer a transformação emocional – de pessoa ativa, com sonhos, planos e desejos, para paciente oncológico – não é tarefa fácil, tendo em vista que aceitar o diagnóstico e o tratamento envolve um trabalho psíquico intenso. Trabalho, este, que requer muita resiliência, compreensão e um determinado “desligamento” de alguns projetos de vida.

Tratar de uma doença oncológica afeta o corpo e a maneira como a pessoa se percebe e se identifica com o mundo à sua volta. Diante disso, é possível imaginar o árduo trabalho que dá se tornar um paciente oncológico? Então, por que seria diferente o trabalho emocional no sentido contrário?! Estar curado é tarefa fácil?!

Pensando nessa última questão, não é incomum percebermos pacientes com questionamentos constantes acerca da possibilidade de retorno da doença, sintomas de ansiedade “pré-exames” de rotina ou, até mesmo, abandono dos serviços ou médicos que os acompanham.

A cada ano que passa, a cada resultado de um novo exame após a remissão ou a cada pequeno sintoma que se assemelhe aos que tinha na época do diagnóstico, o mundo emocional pode ser invadido por pensamentos negativos, medos, estresse e, até mesmo, a depressão!

Tal fato pode parecer uma grande contradição, no entanto, essas reações emocionais são mais comuns do que imaginamos. Por esse motivo, algumas dicas podem ser preciosas para enfrentar melhor esses receios e para ajudar no processo de interiorização emocional da cura:

Para os familiares do paciente curado

  • Diante de reações relacionadas ao medo, insegurança, pensamentos negativos e estresse frente aos exames de rotina; acolha e se mostre compreensivo! O paciente precisa de suporte e compreensão de quem o ama… Esses medos existem e são reais no mundo emocional do paciente, pois muitas situações podem ser “revividas” frente à espera por resultados de exames.

Para o paciente

  • A cura é sua, se aproprie dela! Afinal, não foi fácil alcançá-la!
  • Entenda seus pensamentos e reações! Tente perceber e separar os dados de realidade daquilo que pode ser fantasioso. É comum para pessoas que viveram o tratamento, analisarem as situações e circunstâncias a partir de um olhar mais relacionado a possíveis notícias negativas.
  • Apoie-se em amigos e/ou familiares. A companhia de pessoas queridas é fundamental para o reestabelecimento da saúde emocional e no entendimento e aceitação da cura.
  • Para pacientes que contam com um suporte religioso e/ou que lançam mão de práticas relacionadas à espiritualidade, entrar em contato com tais práticas também pode ajudar na compreensão da cura e, principalmente, auxiliar nos momentos de ansiedade pré-exames médicos de rotina.
  • Não cobre felicidade de si mesmo! Sim, muitos pacientes podem se cobrar (ou serem cobrados pelas pessoas que o cercam) de estarem felizes e gratos pela cura! No entanto, em alguns momentos, é comum se sentirem mais ansiosos ou deprimidos por conta dos medos pré-exames médicos de acompanhamento. É importante se respeitar e entender que graus leves de ansiedade são comuns durante a espera desses exames de rotina ou dos resultados deles.
  • O momento da cura é particular, pois cada um vivenciou o tratamento de maneira diferente e, por este motivo, podem ter reações emocionais diversas depois da cura revelada pelo médico. Alguns pacientes também podem desenvolver o chamado TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático) após o tratamento, tendo, dessa forma, maiores dificuldades em lidar com a cura, medo exacerbado do retorno da doença, reações psicossomáticas, depressão e graus elevados de ansiedade.

Procure por um profissional de psicologia especializado (o psico-oncologista)!

 

Caio Henrique Vianna Baptista – @CV.PSI
Mestre em Ciências – Faculdade de Medicina da USP (FMUSP)
Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da FMUSP
Especialista em Saúde do Idoso pela UNIFESP
Presidente – SBPO-SP (Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia)
Psicólogo do Hospital São Luiz – Jabaquara – Rede D’Or – Núcleo Pró-Creare