Câncer / Notícias

Sergio Azman

Publicado em 08/09/2014

Revisado em 22/05/2019

Andar com fé

Em 2011, o ator Reynaldo Gianecchini dividiu com o país sua luta contra o câncer e ao lado dos cuidados de um renomado centro de oncologia também buscou a fé, em uma cirurgia espiritual que se tornou notícia no Brasil inteiro. A história protagonizada por Gianecchini não é incomum. Ao contrário, é diante da experiência de adoecimento que muita gente busca o contato com o divino e com a espiritualidade, como um complemento ao tratamento médico convencional.

“Na minha luta contra o câncer, a fé e muita oração foram elementos fundamentais para aguentar tudo o que aguentei”, declarou na mídia a apresentadora Ana Maria Braga, também ela ex-paciente de câncer. “A fé veio com uma imensa vontade de vencer a doença”, resumiu.

Drogas-alvo, sequenciamento genético, imunoterapia. A medicina vive um período de grandes progressos tecnológicos e científicos. Mas mesmo com tantos avanços, sobram exemplos para mostrar que a fé continua a desempenhar papel importante no tratamento do câncer, como um poderoso aliado para enfrentar a doença. “É como se o paciente se sentisse mais fortalecido”, explica a psico-oncologista Cristina Haas Tarabay, do AC Camargo Cancer Center.

Buscar forças em um momento de fragilidade é uma reação natural. Diante do diagnóstico, o paciente ultrapassa a crença na medicina e também busca amparo em um universo de considerações religiosas e metafísicas. Para a especialista, cultivar a espiritualidade é também uma tentativa de recuperar o bem-estar, a autoconfiança e a autoestima. “O bem estar espiritual nada mais é do que se sentir em paz. Dentro de um tratamento oncológico, é saber que você está fazendo tudo o que precisa ser feito, com tranquilidade e confiança, tanto no corpo clínico como em si mesmo”, diz.

Para a antropóloga Maria Cecília Minayo, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, não há conflito algum entre a medicina e a fé. A pesquisadora ensina que a ideia de uma aparente polaridade vem da perspectiva de uma medicina cada vez mais associada à tecnologia, como a própria síntese da ciência moderna, enquanto a fé é comumente associada a crenças primitivas. Na realidade prática, no entanto, não são visões contrárias, mas que mostram uma concepção plural diante da experiência com o adoecimento.

Fé contribui para adesão no tratamento

Confiança e fé, em alguns casos, funcionam mesmo como sinônimos. Afinal, é preciso acreditar, confiar.  O paciente precisa encontrar muita força para enfrentar um tratamento oncológico, que muitas vezes envolve um desgaste físico e emocional. Ter a fé como companhia melhora até a aderência ao tratamento”, garante Cristina.

E apesar de ser reconfortante para o paciente saber que existem opções de tratamento, saber que a ciência evoluiu a ponto de possibilitar prognósticos melhores e, em alguns casos, até a cura ou remissão da doença, o paciente se apega mesmo é na fé. “Quando falamos que se ele tomar o remédio vai melhorar, o que o paciente responde? Se Deus quiser, doutor. O que ele está dizendo? Que tem fé”, exemplifica o geriatra Fábio Nasri.

Diálogo possível

Hoje em dia, questões de fé e ligadas à espiritualidade também chegam ao consultório e à rotina dos profissionais de saúde. “Nós temos que saber conversar sobre isso, discutir de uma forma aberta o que o paciente está trazendo e perceber que essa espiritualidade é importante para ajudá-lo a se manter estável psicologicamente e enfrentar o tratamento de maneira mais tranquila. Isso fortalece o vínculo na relação médico-paciente, o que é essencial, principalmente no tratamento do câncer”, explica Cristina.

Por essas e outras, é importante que o paciente encontre um espaço de diálogo e de aproximação. Assim, a questão da espiritualidade pode ter lugar dentro de uma consulta médica, como um momento de reflexão conjunta. Para Nasri, não só os pacientes, mas muitos médicos também gostariam de conversar sobre espiritualidade e fé. O American College of Clinicians (ACC) propõe quatro perguntas que o médico deve fazer ao seu paciente: 1 – se a fé é importante para você nessa doença; 2 – se a fé tem sido importante para você; 3 – se você conversa com alguém sobre esse tipo de assunto; e 4- se gostaria de tratar sobre esse assunto com alguém. “Perceba que ninguém falou sobre religião, se é católico, judeu, etc. O que queremos saber do paciente é como a espiritualidade pode ser um parceiro no tratamento”, diz.

Espiritualidade x Religiosidade

Religiosidade e espiritualidade são conceitos distintos. A religiosidade é a busca do divino, do sagrado, do transcendente, através de um conjunto organizado de práticas, que é a religião. Já a espiritualidade é um conceito universal. É a busca do transcendente sem depender necessariamente de um conjunto de crenças. É uma busca individual, uma motivação pessoal. Não existe uma prática necessariamente, um culto, independe da religião.

Para Nasri, espiritualidade é alimentar o espírito. “Você pode, por exemplo, meditar. Escutar uma música que te faz bem. Andar descalço, olhar a natureza, contemplar o sol, fazer bem ao outro. Tudo isso é espiritualidade”, diz. Cristina acrescenta ainda a reflexão como uma forma de exercitar a espiritualidade, a fé tão necessária nesse momento. “É pensar um pouco na vida. Acho que no silêncio encontramos muitas respostas. Às vezes, as respostas de algumas perguntas não estão no outro, estão dentro da gente. E acho que isso é espiritualidade”, finaliza.