Câncer / Notícias

Publicado em 10/07/2020

Revisado em 28/07/2020

Câncer de Cabeça e Pescoço: um dos tumores mais frequentes no Brasil, seus principais fatores de risco são evitáveis

Julho Verde alerta para prevenção e atenção aos menores sinais, para diagnosticar precocemente

Câncer de Cabeça e Pescoço Evitáveis

 

Um tumor bastante frequente no Brasil, cujas principais causas são evitáveis: essas são as principais características do câncer de cabeça e pescoço – em homens é o terceiro mais comum no país -, que está muito associado ao hábito de fumar e ingestão de álcool. Por essas peculiaridades, a campanha Julho Verde tem como foco a prevenção à doença, que deve registrar mais de 40 mil novos casos neste ano no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer – INCA

O oncologista William William, membro do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer (IVOC) e diretor da Oncologia Clínica e Hematológica da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, destaca outro fator de risco relevante: a infecção por HPV. “O ponto importante é que tanto o cigarro e o álcool quanto as infecções pelo papilomavírus humano são causas evitáveis”, ressalta, lembrando a vacinação contra o HPV.

“Antigamente não tinha vacina”, comenta Antonio Celso Pelissari, 60 anos, que foi diagnosticado em fevereiro de 2019 com câncer de amígdala que teve resultado positivo para HPV. Com essa indicação, os médicos acreditam que a infecção pelo vírus pode ter sido a causa, mas não descartam também a ingestão de álcool ou mesmo o tabagismo, já que ele foi fumante por oito anos antes de parar, há três anos.

Pelissari descobriu o tumor quando sentiu um pequeno carocinho na lateral do pescoço. Morador de Itararé, no interior de São Paulo, fez o exame de coleta em uma cidade vizinha, Itapeva. O material foi enviado a São Paulo para análise e por duas vezes o resultado voltou sem definição, pois o conteúdo foi considerado insuficiente. Como estava demorando para saber o diagnóstico, foi então fazer o exame na capital, onde recebeu a informação de que o problema pode ter sido o uso de anestesia nas coletas anteriores.

“Quando saiu o resultado, o médico ligou para meu filho e avisou que deu HPV positivo, graças a Deus, porque é menos agressivo”, diz o paciente. O tratamento envolveu cirurgia, duas sessões de quimioterapia e 30 radioterapias, finalizando em setembro do ano passado. Agora, segue em acompanhamento por cinco anos. “O tratamento judia, mas superei bem. Fiquei com a voz um pouco afetada, por uma cavidade no lugar onde foi retirado o tumor, mas o médico disse que pode fazer preenchimento. Eu já me alimento bem e sinto o sabor das coisas”, comemora.

Aos jovens, aconselha prevenção para evitar esses tipos de cânceres: evitar fumar e tomar a vacina. E também a fazer como ele fez: “Eu foquei em Deus e nos médicos. Acho importante no tratamento, porque essa segurança influencia muito na recuperação”.

 

Fatores evitáveis

O oncologista William William comenta que o Brasil teve sucesso em diminuir o número de tabagistas, com políticas públicas e aumento de impostos sobre o cigarro, junto com a restrição de fumar em ambientes públicos fechados. “Ainda assim, um porcentual razoável da população fuma e está em risco de desenvolver câncer de cabeça e pescoço”, avisa o médico. “Quando junto com o tabagismo há ingestão de álcool, este potencializa o efeito do cigarro. Não é que soma o efeito do álcool com o do cigarro, mas multiplica. O efeito do álcool por si só é relativamente pequeno para esse tumor; uma pessoa que não fuma e apenas bebe, tem risco um pouco maior. Mas quem fuma e bebe tem o risco bastante aumentado. A chance de desenvolver câncer quando há uso de bebida e tabaco é bem maior”.

Quanto ao HPV, fator que o oncologista considera ser pouco conhecido pela população, é o mesmo responsável por grande parte dos tumores de colo de útero. William explica que esse vírus pode causar câncer de orofaringe, na garganta, na amígdala, na base da língua, sendo o principal fator de risco entre os pacientes que não fumam, também afetando fumantes. “Nos países desenvolvidos, esse tipo de câncer relacionado ao HPV tem aumentado bastante, e no Brasil começamos a ver isso também. Em nosso país constatamos uma certa diferença: entre a população que tem menor poder aquisitivo, a chance de fumar é maior, os cuidados com prevenção e higiene são menores, resultando em muitos tumores relacionados ao tabagismo; na população de maior poder aquisitivo, nos centros urbanos, há menos tumor relacionado ao cigarro e mais ao HPV, que é bastante comum”.

O médico faz um lembrete essencial, de que temos no Brasil a vacinação gratuita para meninos e meninas contra o HPV, na rede pública.

 

Diagnóstico tardio é problema

Um dos desafios para o tratamento dos tumores de cabeça e pescoço são os diagnósticos tardios. William conta que esses tumores, em geral, são diagnosticados em estágio já bem avançado, o que diminui a chance de cura e aumenta a de sequelas nos tratamentos. “Há casos em que o paciente perde a capacidade de falar, de deglutir, tem deformidades na região da cabeça e pescoço, por conta da cirurgia e de outros tratamentos agressivos que podem ser necessários, especialmente quando a doença se apresenta em estágios mais avançados. É um problema de saúde pública bastante importante, tanto por causa da frequência quanto das sequelas a longo prazo”.

O diagnóstico tardio, cita, está relacionado ao acesso à saúde – por isso é mais frequente na população de baixa renda; pessoas com lesão na língua ou dor na garganta persistente, por exemplo, sintomas comuns desses tumores, mas não têm acesso ou não procuram um médico precocemente. Com isso, o tumor vai crescendo e ficando avançado.

 

Tratamento multidisciplinar

William esclarece que o tratamento para os tumores de cabeça e pescoço deve ser feito de maneira multidisciplinar, com uma equipe que envolve diversos profissionais de saúde: oncologista, cirurgião, radioterapeuta, radiologista, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, enfermeiro, nutricionista, dentista, entre outras especialidades. Tudo isso porque é um câncer complexo de tratar, por estar em uma região muito delicada, que exige cuidado extremo para deixar o mínimo de sequela possível, para não afetar a qualidade de vida do paciente.

Outro aspecto dessa doença é ter várias formas de tratamento, cada uma apropriada a cada caso. “Em algumas situações a cirurgia será a melhor maneira de tratar, em outras a radioterapia, outras a quimioterapia e em muitas uma combinação de tudo isso”.

O oncologista afirma que quando é localizado, há maneiras de fazer um tratamento curativo, como cirurgia seguida de radioterapia ou quimioterapia com radioterapia. Entretanto, ele avisa que há vários estudos sendo realizados pelo mundo para determinar maneiras eficazes de tratar com menos sequelas, e comenta os principais trabalhos da área apresentados na edição de 2020 do Encontro Anual da American Society of Clinical Oncology, o maior evento de Oncologia do mundo, realizado no fim de maio. 

“O problema dessas modalidades são as sequelas. As novidades apresentadas no encontro da ASCO foram estratégias para um tratamento menos agressivo, com menos sequela, mantendo a taxa de cura relativamente alta. No âmbito da cirurgia, aprendemos uma técnica chamada linfonodo sentinela, já usada para câncer de mama – com ela conseguimos retirar menos gânglios do pescoço, uma cirurgia menos extensa, mas que mantém as chances de cura”.

Outras estratégias com bons resultados, afirma, é diminuir a dose da radioterapia pós-cirúrgica e redução da dose da quimioterapia ou aplicação semanal mais branda em vez de doses altas a cada três semanas.

“Essas opções não são aplicáveis para todos; têm pacientes que precisam de um tratamento ainda bastante agressivo, infelizmente, com maior chance de sequela. William cita também as combinações dos tratamentos que podem passar a incluir imunoterapia. “Começamos a ter caminhos para trilhar e melhorar o tratamento”, comemora.