Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 27/04/2022

Revisado em 28/04/2022

Centro de Pesquisa em Manaus pode melhorar a igualdade no tratamento do câncer de Norte a Sul do país

Centro de Pesquisa em Manaus

Amazonas tem grande incidência de câncer de colo de útero e câncer de fígado.

Conviver com a desigualdade social, que na saúde se faz presente principalmente na dificuldade de acesso às melhores opções de tratamento, é um dos principais desafios para os profissionais que atuam na área. Por isso, para Poliana Albuquerque Signorini, oncologista clínica que atua tanto no serviço público quanto no privado, a oportunidade de desenvolver o CINPAM – Centro Integrado de Pesquisa da Amazônia é também uma chance de diminuir um pouco a distância que existe entre os pacientes do setor privado e público, e entre a população do Norte do país e outras regiões com mais centros de tratamento. “Manaus tem o único centro de oncologia público do Amazonas, não existe outro em nenhum lugar do estado. Por isso, o centro de pesquisa vai beneficiar não apenas a cidade, mas toda a região”, explica a oncologista.

Ela destaca a dificuldade de acesso a tratamentos e para encaminhar pacientes para os grandes centros de referência. “Conseguimos encaminhar pacientes que são do setor privado, por exemplo, para o INCA – Instituto Nacional de Câncer e para o Hospital Sírio-Libanês de Brasília. Alguns têm familiares em outras cidades e condições de se deslocar. Mas com os pacientes do SUS, vemos que a desigualdade social os impede até de ter acesso a um centro de pesquisa. Muitos vêm do interior e como não há estradas no Amazonas, a maioria chega de barco. Por essas dificuldades, é muito importante ter um centro para assistir essa população”. Diminuir as diferenças e promover acesso a mais pessoas foram os objetivos que motivaram Poliana e mais três oncologistas clínicos a montar um centro de pesquisa na capital amazonense.

O CINPAM foi uma das seis unidades selecionadas pelo projeto Amor à Pesquisa Contra o Câncer, desenvolvido pelo Instituto Vencer o Câncer em parceria com o LACOG (Latin American Cooperative Oncology Group), com o objetivo de apoiar a estruturação de novos centros especialmente em regiões onde há escassez destas estruturas.

Poliana, que é pesquisadora do CINPAM e médica responsável pelo centro no projeto Amor à Pesquisa contra o Câncer, conta que sua percepção da importância do desenvolvimento de pesquisas ficou mais evidente quando fez residência no Inca; por isso, se uniu a outros oncologistas para criar o centro. Em 2020, quando conseguiram uma clínica para fazer o centro de infusão e também parceria com equipes de imagem e laboratório e com clínica de oncologia, abriram o CINPAM. Com a chegada da pandemia, a comunicação e interação com a indústria farmacêutica ficou mais difícil. “Quando surgiu o edital do Instituto Vencer o Câncer, vimos uma oportunidade para mostrar que temos boa intenção e boa vontade para virar um dos centros de pesquisa de referência do Norte do país”.

A unidade já tem em sua estrutura salas para desenvolver os trabalhos, centro de infusão, farmácia de oncologia, clínica de imagem e equipe treinada. “Como o centro funciona dentro do Hospital Beneficente Português do Amazonas, compartilha da estrutura, inclusive da urgência e emergência e laboratórios”, diz. “Conseguimos participar de estudo epidemiológico do LACOG de câncer de mama e também de acesso expandido. Temos um volume grande de pacientes para conseguir fazer o n (população envolvida na pesquisa, quantidade de pessoas necessárias para desenvolver o estudo) da pesquisa; pegamos pacientes do SUS e conseguimos dar acesso à medicação. Aos poucos estamos mostrando que temos pacientes e competência, só falta ganhar experiência. Estamos nos atualizando nas boas práticas clínicas, revisando estudos, deixando tudo pronto para quando houver uma oportunidade”.

 

Mudar a realidade

Um dos pontos que chama atenção nos números de oncologia no Amazonas é a incidência e mortalidade do câncer de colo de útero.  “Infelizmente temos um n de colo de útero que o restante do Brasil não tem. Em 2020 fomos aprovados para dois estudos desse tipo de tumor, mas ambos tiveram que ser interrompidos. Com esse diferencial teremos oportunidade de completar a população que as medicações precisam para realizar os estudos”, avalia a oncologista. “Muitas vezes o câncer de colo de útero até ultrapassa o de mama nas nossas estatísticas”.

Ela chama atenção para outra característica da região, com grande incidência de hepatocarcinoma, pelo fato de ter áreas endêmicas de hepatite B e hepatite delta. “Temos uma população muito grande com cirrose e hepatocarcinoma em estágios bem avançados. É um diferencial do resto do país e pode ser uma população importante para recrutamento”.

Diante dos cenários de maior dificuldade da região, Poliana considera o centro uma grande esperança. “No dia a dia com pacientes vemos a necessidade de acesso à inovação. Às vezes, mesmo pacientes com planos de saúde encontram dificuldades para conseguir o melhor tratamento; o paciente do SUS, então, nem tem o que dizer. Por isso considero a oportunidade de participar de um estudo um fator que diminui bastante a desigualdade social, oferecendo tratamentos que nem eram imagináveis. Queremos fazer um Brasil mais uniforme. Não temos no Norte as novas tecnologias que existem em outros lugares do país”, lamenta, acrescentando otimista: “Por enquanto!”.