Dia a Dia do Paciente / Efeitos Colaterais

Valéria Hartt

Publicado em 11/06/2014

Revisado em 08/03/2017

Congresso elabora recomendações para cuidados após o câncer

A ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica) publicou três guias com recomendações médicas para lidar com alguns dos problemas mais comuns enfrentados pelo paciente de câncer, durante e depois do tratamento: neuropatia periférica, fadiga, depressão e ansiedade são os temas que inauguram a série de dez guias voltados à prevenção e gestão de sintomas que afetam os sobreviventes de câncer. As recomendações reforçam a importância de cuidar das necessidades físicas, sem deixar de lado os aspectos emocionais dos chamados “survivors”, que nos Estados Unidos saltaram de 3 milhões de pessoas em 1971 para cerca de 13,7 milhões hoje.

O cenário mostra que a evolução do tratamento do câncer contribui para ampliar as taxas de cura e de sobrevida, mas impõe desafios importantes a longo prazo. Ex-pacientes de câncer são mais suscetíveis a outros problemas de saúde e muitas vezes ainda enfrentam os efeitos colaterais do próprio tratamento. Assim, a transição de uma rotina ativa para uma rotina de cuidados pós-tratamento é fundamental para a saúde a longo prazo. “É um cuidado coordenado, com ênfase na qualidade de vida”, diz o oncologista Ricardo Caponero, membro da Sociedade Brasileira de Cuidados Paliativos.

A neuropatia periférica causa sintomas que variam de dormência e formigamento até dor aguda nos braços e pernas. Nos casos mais graves, o paciente pode precisar reduzir a dose ou mesmo mudar o tipo de tratamento. Tal condição induzida por quimioterapia é mais presente em pacientes que tomam medicamentos à base de certas substâncias, como platina, alcaloides de vinca, bortezomibe e/ou taxanos. Estima-se que de 30% a 40% dos pacientes tratados com quimioterapia vão enfrentar o problema. Comunicar o médico assim que surgirem os primeiros sintomas é sempre a melhor opção.

A diretriz da ASCO, publicada na edição de 14 de abril do Journal of Clinical Oncology, um dos mais prestigiados periódicos científicos, explica que os profissionais não podem prever quem irá desenvolver a neuropatia periférica, a gravidade dos sintomas nem sua duração. A recomendação destaca que é importante monitorar o curso do tratamento, uma vez que os sintomas e os riscos de danos permanentes ao nervo podem ser diminuídos com outras abordagens, como a escolha de agentes quimioterápicos que não tenham a neuropatia periférica como um efeito colateral, sempre que possível. Os médicos são aconselhados a falar com seus pacientes sobre o risco antes de iniciar o tratamento e a orientar sobre os sintomas que podem ajudar a identificar o problema.

Para compor o guia sobre neuropatia periférica induzida por quimioterapia, a ASCO revisou 48 estudos clínicos, o que significa que a recomendação é a apoiada em muitas evidências científicas.

Qualidade de vida

De acordo com as diretrizes da ASCO, todo paciente de câncer deve ser avaliado quanto à fadiga após a conclusão do tratamento, prática clínica que tem total amparo de oncologistas brasileiros. “A fadiga é um sintoma muito comum em pessoas com câncer”, explica Caponero. A maior parte dos pacientes experimenta algum nível de fadiga no percurso da doença e aproximadamente um terço sofre de fadiga persistente anos depois de completar o tratamento do câncer. O problema pode estar associado a diferentes fatores e avaliar a fadiga para prover a abordagem adequada é uma das boas práticas que devem ser incorporadas no cuidado do paciente oncológico. “É possível reunir estratégias para ajudar na prevenção e gestão dos sintomas e com isso melhorar a qualidade de vida”, afirma o especialista.

Ansiedade e depressão

Sintomas depressivos e de ansiedade também são comuns e podem persistir após o tratamento do câncer. A boa notícia é que existem intervenções bem estabelecidas para enfrentar o problema. O guia de condutas clínicas lançado pela ASCO enfoca este tema sensível e enfatiza que os profissionais de saúde têm papel central para mitigar os efeitos emocionais e comportamentais que afetam o paciente de câncer.

Renata Koury Ferreira, 35, foi diagnosticada com adenocarcinoma no intestino grosso em novembro de 2013 e sofreu muito para enfrentar a quimioterapia. “No primeiro dia, chorei o tempo todo. E até hoje, a ansiedade existe a todo momento. Toda vez que vou lá, o médico me pergunta se estou bem, confiante, animada. Ele enfatiza que o pensamento positivo, a confiança no tratamento e a certeza da cura são fundamentais para o processo pelo qual estou passando. A ansiedade faz mal pra gente, e pras pessoas que estão do nosso lado. Por isso, quando a tristeza tenta me pegar, eu vejo pelo lado positivo das coisas.”

A diretriz da ASCO observa que todas as pessoas que tenham sido tratadas de câncer ou estejam em tratamento devem ser avaliadas para sintomas de depressão e ansiedade, para intervenções apropriadas quando necessário. A reavaliação deve ser realizada periodicamente. Entre as recomendações para a prática médica estão estratégias de redução de estresse no contexto do câncer e de sinais e sintomas de angústia, muitas vezes desconsiderados na rotina clínica, mas que certamente interferem na qualidade de vida do paciente.

Um guideline, que em bom português é uma linha de conduta, sempre atrai a atenção dos médicos. “É uma síntese do conhecimento”, explica Caponero. Os profissionais, entretanto, não precisam e não devem seguir as orientações cegamente. A ressalva do especialista fica por conta da qualidade desigual das três diretrizes. “O que o médico espera de uma linha de conduta é uma recomendação clara do que fazer diante da queixa do paciente e nesse aspecto acho que o guia de neuropatia periférica deixa a desejar. O de fadiga, ao contrário, está muito bom, com recomendações que realmente ajudam com um novo modelo de cuidados”, diz o oncologista. Por isso, vale a pena conversar com seu médico para chegar à melhor forma de conduta.