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Juliana Conte

Publicado em 23/02/2017

Revisado em 22/05/2019

Técnica utiliza esferas radioativas para tratar tumores hepáticos

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O hepatocarcinoma é a forma mais comum de tumor maligno primário do fígado e responde por 80 a 90% dos casos da doença. Já os tumores secundários ou metastáticos (maioria dos tumores de fígado) são ramificações de tumores localizados em outra região do corpo, como nos intestinos, pulmões, estômago ou mamas. Isso ocorre quando células tumorais se deslocam desses órgãos e atingem o fígado viajando pela corrente sanguínea e pelos vasos linfáticos.

A escolha do tratamento mais adequado para cada caso leva em conta vários fatores, como o estágio e evolução da doença, a idade do paciente, suas condições clínicas e a função hepática. Cirurgia, quimioterapia e até transplante são procedimentos utilizados para se tratar um tumor, seja ele metastático ou não. (Saiba mais sobre as formas de tratamento clicando aqui).

Entretanto, por motivos ainda não esclarecidos, há pacientes que não respondem às chamadas terapias tradicionais. Embora ainda não esteja disponível um estudo de sobrevida global (período entre o diagnóstico e o óbito) dos pacientes, uma possibilidade de tratamento minimamente invasivo vem se mostrando eficaz: é a Radioterapia Interna Seletiva (SIRT, sigla em inglês).

Os doutores Felipe Nasser, Rodrigo Gobbo e Antonio Luiz Macedo, todos do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, são considerados especialistas e referência mundial nesse procedimento clínico. Durante um workshop para jornalistas, que ocorreu no dia 31/01/2017, Nasser explicou que o novo tratamento, denominado radioembolização, é realizado com microesferas radioativas aplicadas diretamente sobre o tumor. O procedimento retarda o avanço da doença, já que as esferas têm uma dose de radiação interna até 40 vezes maior que a radioterapia convencional e contam com a vantagem de não afetar o tecido saudável.

“É um procedimento rápido, com cerca de 2 horas de duração. Após a anestesia, nós introduzimos um cateter na virilha do paciente e esse dispositivo navega até a artéria que irriga o fígado. Chegando lá, as microesferas são lançadas sobre a região e a radiação destrói completamente as células cancerígenas. O paciente, normalmente, tem alta no dia seguinte após a cirurgia”, explica Nasser.

O médico explica que antes é feito um trabalho para calcular a quantidade exata de esferas que devem ser lançadas no organismo do paciente, para que elas não migrem para outros órgãos. Vale lembrar que esse tipo de procedimento, por ora, só se mostra eficaz em tumores hepáticos por conta da capacidade do órgão de resistir a esse tipo de radiação. O hospital já tratou 44 pacientes com esse procedimento.

Em relação aos efeitos colaterais, os mais comuns são: náuseas, dor abdominal, além do cansaço. “Esse cansaço acomete a grande maioria e é normal o paciente se sentir indisposto, querendo ficar deitado. Essa condição costuma durar por 20 dias”, afirma.

As microesferas contêm o isótopo radioativo Y‑90, que leva a radiação beta até o tumor. Segundo o médico, estudos com pacientes com metástases no fígado originárias de tumor colorretal e que não responderam à quimioterapia tiveram como resultado uma sobrevida média de livre progressão da doença de 10,5 a 13 meses, em comparação com 3,5 meses para pacientes que não receberam o tratamento. É importante enfatizar que os pacientes não são curados, mas há melhora significativa da qualidade de vida.

Como toda tecnologia nova, ela é um tipo de tratamento bem caro para os padrões brasileiros. Como é necessário importar as esferas, ao todo o custo desse tipo de tratamento sairia por cerca de R$ 180 mil. Os planos de saúde ainda não cobrem, nem o SUS oferece esse tratamento na rede.