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Fernanda d'Avila

Publicado em 15/07/2021

Revisado em 15/07/2021

Médicos debatem alternativas para atenção à Saúde do Homem no SUS e para a incorporação de tecnologias no sistema público

Médicos debatem alternativas para atenção à Saúde do Homem no SUS e para a incorporação de tecnologias no sistema público

 

Discussões ocorreram durante o XII Congresso Internacional de Uro-Oncologia

“Ninguém estimula o homem a ir ao médico. Todos os estereótipos masculinos típicos em relação à Saúde do Homem devem ser quebrados. E é necessário conscientizar a população sobre os dados: o câncer de próstata mata igual ao câncer de mama. Não se trata de culpar ou vitimizar os homens. É uma questão de informação”. Com esta observação, o urologista Aguinaldo Nardi, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), abriu os debates do painel “Quais são as estratégias para melhorar a saúde do homem no SUS”, no XII Congresso Internacional de Uro-Oncologia, realizado no início do mês de julho.

“Quando o homem não vai ao médico, há um alto impacto sobre todo o sistema de saúde. Os estudos que questionam o rastreamento para o câncer de próstata valem apenas para países em que há uma cultura de prevenção”, ressaltou o oncologista Fernando Maluf, cofundador do Instituto Vencer o Câncer (IVOC) e coordenador do evento.

Aguinaldo Nardi comentou sobre uma pesquisa da SBU-SP, divulgada em 2014, que mostrou que 30% dos homens que se tratavam no SUS chegavam ao diagnóstico com tumores de próstata em estágio avançado. “Em 2008, o Ministério da Saúde organizou um evento para debater a Política Nacional de Atenção Integrada do Homem. A proposta ia ao encontro da ideia da criação de uma Secretaria Especial do Homem. O projeto, no entanto, não progrediu”, relatou.

O urologista William Nahas, Professor Titular de Urologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, também participou das discussões. Para ele, o problema de saúde é crítico e pouco visitado pelos gestores brasileiros. “Só em São Paulo, temos de três a quatro mil pacientes oncológicos em espera por atendimento. Isso inclui indivíduos que fugiram da visita médica periódica e não foram diagnosticados precocemente. Precisamos de prevenção, conscientização dos problemas do câncer de próstata. Infelizmente, em nosso país, faltam orientações”, opinou o médico.

O chefe do grupo de Uro-oncologia da Faculdade de Medicina do ABC, Fernando Korke, apresentou dados de um levantamento realizado pela instituição sobre os impactos da pandemia sobre os diagnósticos. “Normalmente, a cada ano, são reportados no SUS cerca de 6 milhões de exames de PSA. Em 2020, foram 4 milhões apenas. Precisamos simplificar a informação e orientar: quando o homem faz 40 anos, tem de manter uma rotina de consultas”.

 

Acolhimento e acesso para uma linha de cuidados à Saúde do Homem no SUS

O urologista Aguinaldo Nardi reafirmou que os brasileiros não têm a cultura de ir ao médico para prevenir doenças, mas admite que o sistema não facilita o acesso. “Não há dentro do SUS um espaço de acolhimento do homem, de maneira integral. Precisamos aumentar esse fluxo em todas as áreas da Medicina”, defendeu o ex-presidente da SBU. “É necessário estruturar os serviços para atender os pacientes desde a base. Talvez devêssemos promover uma reorganização, a partir de regras e dados confiáveis. Em 2012, a Sociedade Brasileira de Urologia propôs uma linha de cuidados para o homem, que não foi adotada. Para o câncer de próstata, seria necessário um projeto assim”.

O oncologista Fernando Maluf concordou: “É preciso estabelecer uma melhor definição da jornada do paciente com câncer de próstata, desde a suspeita até o seguimento, nas distintas regiões do país. Vemos a necessidade de um desenho de políticas que possam melhorar o fluxo de atendimento” destacou o fundador do IVOC.

Fernando Korkes defendeu que os médicos debatam sobre a saúde pública e pensem na realidade de grande parte da população. “Precisamos elaborar protocolos voltados ao contexto brasileiro. Observamos isso na FMABC, em que havia um volume de mortes elevado entre os pacientes com câncer de bexiga. Isso ocorria quando seguíamos os guidelines internacionais. Adaptamos ao cenário nacional e a taxa de mortalidade caiu”, relatou. “O SUS é sensacional, mas precisa ser aperfeiçoado constantemente, olhar pacientes diferentes de uma forma diferenciada. Neste sentido, ganha destaque o papel dos centros de referência. Apesar de o SUS ser descentralizado, é preciso pensar numa centralização, com fluxos bem estabelecidos e mais inteligentes”, concluiu o urologista.

William Nahas admitiu a falta objetividade na organização e orientação dos serviços. “Acredito que deveria ser feito um mutirão para a proposta de protocolos regionalizados. Falta clareza para nossos gestores e sociedades de especialistas”, disse o professor da USP. Ele demonstrou preocupação sobre a adoção de políticas gerais de rastreio. “Rastreamento, infelizmente, é difícil e complexo de ser feito. Vai haver uma avalanche de doentes e, antes, precisamos treinar muito bem os profissionais que vão receber estes pacientes. Existe um descompasso entre diagnóstico e tratamento no Brasil”, afirmou Nahas. Para ele, ainda há uma carência de instrução e esclarecimento da população sobre o câncer de próstata, bem como de uma atenção maior ao atendimento, que mereceria uma abordagem especializada.

 

Os gargalos da incorporação de novas tecnologias na Saúde Pública

Outro painel do XII Congresso Internacional de Uro-Oncologia trouxe discussões sobre políticas públicas em Saúde e debateu a incorporação de tecnologias no SUS. O ex-Secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, admitiu a existência de um gargalo de avaliação de tecnologia em saúde no Brasil. “Isso se dá pelo modelo de processo, tanto no SUS, quanto na saúde complementar. Na Oncologia, o padrão de financiamento leva a uma inequidade no acesso”. Para Vianna, a proposta da adoção da APAC (Autorização de Procedimento de Alta Complexidade) foi estabelecida numa época em que as tecnologias eram outras.

O oncologista Fernando Maluf concordou e ressaltou que “a APAC cria uma diferença regional no país. É necessário olhar a jornada integral dos pacientes, não só com foco no rastreamento, por exemplo, mas também na prevenção e no tratamento”.

Diretor de Assuntos Corporativos da Novartis, o economista Leandro Fonseca defendeu que a aceleração das incorporações possa ocorrer com uma precificação mais eficiente. “Existe uma regulação que está defasada para terapias avançadas. É preciso pensar em como dar mais segurança jurídica para que as inovações tenham o Brasil como destino”, explicou. Para isso, poderia ocorrer uma aproximação maior do público e do privado, para que as avaliações fossem feitas sem duplicidade. “O modelo ideal poderia ter como exemplo o Canadá. Usando as melhores práticas, a agência canadense faz recomendações e o setor público decide a partir da sua lógica, através dos modelos de financiamento”, exemplificou.

O economista acrescentou que o Estado brasileiro vive uma crise fiscal sem precedentes. “O que o governo federal gastou no combate à pandemia é mais do que se esperava economizar com a Reforma da Previdência. Acredito que exista um espaço natural para que o setor produtivo contribua para otimizar o uso do orçamento, que está restrito”. Fonseca sustentou a possibilidade de formas de relacionamento diferentes e inovadoras, em que o setor privado de saúde teria muito a contribuir, entregando soluções na linha de cuidados.

Já na opinião de Denizar Vianna existe, neste momento, uma maior abertura para novos desenhos de políticas públicas de saúde. “Com o impacto da pandemia, a sociedade em geral reconhece a importância do investimento em saúde. Para ser eficiente no setor público, é necessário um choque de gestão. O SUS é muito amarrado no seu processo de aquisição de tecnologia. Existem instrumentos e modalidades para avançarmos no arcabouço jurídico para garantir a eficiência do Estado neste contexto, com transparência. O modelo é muito legalista e impede inovações na gestão, como o compartilhamento de risco, por exemplo.

Para o oncologista Fernando Maluf, um volume maior de dados sobre saúde poderia auxiliar a gestão e a tomada de decisões para investimento do SUS, com benefícios para o cuidado de todos os pacientes.