Prevenção do câncer de ovário

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Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.

Sumário

A prevenção do câncer de ovário é um tema cercado de dúvidas, principalmente porque esse tipo de tumor ainda costuma ser descoberto tardiamente e não conta com um exame preventivo simples e eficaz para toda a população, como acontece com o papanicolau no câncer do colo do útero.

No Brasil, o INCA estima cerca de 8.020 novos casos de câncer de ovário para cada ano do triênio de 2026 a 2028, com um risco estimado de 7,33 casos novos a cada 100 mil mulheres e, segundo a FEBRASGO, cerca de 65% das pacientes recebem o diagnóstico em estágio avançado.

Isso não significa que nada possa ser feito. Ao longo deste artigo, você vai entender o que realmente entra na prevenção do câncer de ovário, quais hábitos podem ajudar a reduzir o risco, por que não existe rastreamento populacional eficaz, quando ultrassom e CA-125 podem ser úteis e o que muda para mulheres com histórico familiar ou mutações como aquelas em BRCA1 e BRCA2.

Pontos importantes

  • Não é possível garantir a prevenção total do câncer de ovário, mas é possível reduzir o risco e melhorar as chances de identificar alterações mais cedo.
  • Não existe exame preventivo de rotina eficaz para todas as mulheres, o que diferencia esse câncer de outros tumores femininos.
  • Idade, histórico familiar e mutações hereditárias, como em BRCA1 e BRCA2, estão entre os principais fatores de risco.
  • Há medidas associadas à redução de risco, como acompanhamento ginecológico, controle do peso, atividade física, não fumar e, em alguns casos, uso de anticoncepcional oral.
  • Mulheres com alto risco genético podem precisar de teste genético, aconselhamento genético e até cirurgia redutora de risco em situações selecionadas.

Prevenção do câncer de ovário: o que realmente é possível fazer?

Quando se fala em prevenção do câncer de ovário, é importante separar três ideias diferentes: prevenção, redução de risco e diagnóstico precoce. Na prática, esse é um câncer em que a prevenção absoluta raramente é possível.

Isso acontece porque muitos casos não apresentam sintomas no início, e os sinais iniciais costumam ser vagos, como distensão abdominal, saciedade precoce, dor pélvica ou alteração intestinal. Além disso, não há um rastreamento populacional comprovadamente eficaz para mulheres sem fatores de alto risco.

É possível prevenir totalmente?

Não. Hoje, a medicina não consegue prometer prevenção total do câncer de ovário.

O que pode ser feito é reduzir fatores modificáveis, reconhecer situações de maior risco e individualizar o acompanhamento. Em mulheres com alto risco hereditário, algumas estratégias preventivas são mais intensas, incluindo cirurgia redutora de risco.

Prevenção, redução de risco e detecção precoce: qual a diferença?

A prevenção do câncer de ovário, no sentido mais amplo, envolve medidas para diminuir a chance de a doença surgir. Já a redução de risco significa adotar estratégias que podem baixar a probabilidade de a doença se desenvolver. A detecção precoce, por sua vez, busca identificar sinais suspeitos o quanto antes. Isso é especialmente importante porque, segundo informação divulgada pelo Ministério da Saúde, apenas 20% dos diagnósticos acontecem precocemente.

Por que o câncer de ovário costuma ser descoberto tardiamente?

O principal motivo é que o câncer de ovário pode crescer de forma silenciosa. Quando há sintomas, eles frequentemente se confundem com problemas comuns do dia a dia.

Entre os sinais que merecem atenção, especialmente se persistirem por algumas semanas, estão:

  • inchaço ou distensão abdominal
  • dor pélvica ou abdominal persistente
  • sensação de estômago cheio muito rápido
  • aumento do volume abdominal
  • urgência urinária ou maior frequência para urinar
  • alteração do hábito intestinal sem explicação clara

Outro ponto importante é que muitos tumores classificados como câncer de ovário, especialmente os mais agressivos, podem ter origem nas trompas. Isso ajuda a explicar por que a doença pode já estar mais espalhada no momento do diagnóstico.

Quais hábitos e medidas podem ajudar a reduzir o risco?

Embora não exista fórmula garantida, algumas medidas fazem parte de uma estratégia mais ampla de prevenção do câncer de ovário e de saúde feminina.

Acompanhamento ginecológico regular

A consulta ginecológica periódica não funciona como um exame preventivo específico para câncer de ovário, mas continua sendo importante. Ela ajuda a revisar histórico familiar, sintomas persistentes, alterações menstruais, menopausa, uso de hormônios e achados em exames anteriores.

Em outras palavras, o check-up ginecológico não substitui investigação adequada, mas pode ser o momento em que sinais de alerta são identificados. Isso vale ainda mais para mulheres após os 50 anos ou na pós-menopausa, faixa em que o risco tende a ser maior.

Alimentação, atividade física e controle do peso

Manter um estilo de vida saudável não elimina o risco, mas contribui para a prevenção do câncer de ovário e de vários outros tumores. O INCA reforça a importância de alimentação equilibrada, atividade física regular e controle do peso corporal.

O excesso de peso é um fator associado a maior risco de câncer em geral. Por isso, hábitos como estes são recomendados:

  • priorizar alimentos in natura e minimamente processados
  • reduzir ultraprocessados
  • praticar atividade física regularmente
  • evitar sedentarismo
  • manter peso adequado ao longo da vida

Tabagismo e outros fatores de estilo de vida

Não fumar é uma medida importante para reduzir o risco de vários cânceres. Além disso, evitar álcool e manter uma rotina saudável ajuda no cuidado global da saúde.

Segundo dados divulgados pela ONU com base em OMS e IARC, uma parcela relevante dos casos de câncer no mundo está associada a causas preveníveis. Isso não significa que todo câncer de ovário seja evitável, mas reforça o valor dos fatores modificáveis.

Anticoncepcional oral: quando pode ter efeito protetor?

O uso de anticoncepcional oral aparece em diferentes referências como um possível fator protetor para câncer de ovário. A explicação mais aceita é que ele reduz o número de ovulações ao longo da vida, o que pode diminuir o risco em algumas mulheres.

Mas esse tema não deve ser tratado como recomendação geral por conta própria. Anticoncepcional tem benefícios, riscos, contraindicações e precisa ser avaliado individualmente com o ginecologista, considerando idade, histórico de trombose, tabagismo, enxaqueca, desejo reprodutivo e outros fatores.

Gestação, amamentação e retirada das tubas uterinas como fatores protetores

Alguns fatores reprodutivos estão associados à redução de risco, como gestação e amamentação. A retirada das tubas uterinas também é relacionada a menor risco de câncer de ovário.

Esses fatores, porém, não devem ser vistos como estratégias isoladas de prevenção do câncer de ovário. Eles fazem parte de um contexto biológico mais amplo e não justificam decisões reprodutivas apenas com esse objetivo.

Existe exame preventivo para câncer de ovário?

Essa é uma das dúvidas mais comuns. E a resposta curta é: não existe, hoje, um exame preventivo eficaz para rastrear câncer de ovário em toda a população feminina.

Por que não existe rastreamento populacional eficaz?

Para um exame de rastreamento funcionar bem, ele precisa encontrar a doença cedo, reduzir mortes e causar mais benefícios do que danos. No câncer de ovário, isso ainda não foi demonstrado de forma consistente para mulheres de risco habitual.

Por isso, diferentemente da mamografia ou do papanicolau, não há recomendação de rastreamento populacional com ultrassom transvaginal ou CA-125 para todas as mulheres. Essa é uma informação importante para evitar uma falsa sensação de segurança.

Ultrassonografia transvaginal e CA-125: quando podem ser usados?

A ultrassonografia transvaginal pode ajudar a avaliar ovários, massas anexiais e cistos. Já o CA-125 é um marcador sanguíneo que pode estar elevado em alguns casos de câncer de ovário.

O problema é que ambos têm limitações importantes:

ExameO que pode fazerLimitações
Ultrassonografia transvaginalAvaliar cistos, massas e alterações anatômicasNão serve como exame de rastreamento confiável para toda mulher
CA-125Pode auxiliar na investigação e no acompanhamentoPode subir por causas benignas e pode estar normal em alguns cânceres

Ou seja, ultrassom e CA-125 podem ser úteis em contextos específicos, mas não funcionam como rastreamento universal. Um ultrassom normal não exclui totalmente a doença, e um CA-125 alterado não significa necessariamente câncer.

Quem pode precisar de acompanhamento individualizado?

Mulheres com risco aumentado merecem avaliação mais personalizada. Isso inclui, por exemplo:

  • histórico familiar forte de câncer de ovário
  • casos de câncer de mama na família, especialmente em idade jovem
  • mutações conhecidas em BRCA1 ou BRCA2
  • suspeita de síndrome de Lynch
  • achados clínicos ou de imagem que mereçam investigação

Nesses casos, o ginecologista pode indicar seguimento mais próximo e encaminhar para oncogenética.

Prevenção em mulheres com alto risco genético ou familiar

A prevenção do câncer de ovário muda bastante quando existe suspeita de síndrome hereditária. Nessa situação, o foco deixa de ser apenas estilo de vida e passa a incluir avaliação genética e, em alguns casos, cirurgia preventiva.

Quando suspeitar de risco hereditário?

Nem toda mulher com câncer na família tem síndrome hereditária, mas alguns sinais pedem atenção:

  • vários casos de câncer de ovário na família
  • câncer de mama e ovário em parentes próximos
  • câncer de mama em idade jovem
  • câncer de pâncreas ou próstata em alguns padrões familiares
  • histórico de câncer colorretal e endométrio, sugerindo síndrome de Lynch

A síndrome de Lynch é uma condição hereditária mais conhecida pela relação com câncer colorretal e de endométrio, mas também pode aumentar o risco de câncer de ovário.

Quando o teste genético pode ser indicado?

O teste genético não é recomendado para toda a população. Ele é indicado para toda paciente com câncer epitelial de ovário, com exceção dos tumores mucinosos. Também é recomendada a avaliação genética de pacientes com histórico familiar de câncer de mama, ovário, pâncreas ou próstata.

Os genes mais lembrados são o BRCA1 e BRCA2, mas não são os únicos. O ideal é que a indicação seja feita de forma orientada, porque o resultado pode impactar não só a paciente, mas também familiares.

O que é aconselhamento genético?

Aconselhamento genético é a consulta especializada que ajuda a entender:

  • se existe suspeita real de síndrome hereditária
  • qual teste faz sentido pedir
  • o que um resultado positivo, negativo ou inconclusivo significa
  • quais medidas de prevenção e acompanhamento podem ser adotadas

Esse processo evita interpretações erradas e ajuda na tomada de decisão. Em muitas situações, o melhor caminho é passar primeiro por um oncogeneticista ou equipe com experiência em oncogenética.

Cirurgia redutora de risco: quando considerar?

Para mulheres com mutações de alto risco, a cirurgia redutora de risco pode ser uma das estratégias mais eficazes. A decisão, porém, é complexa e precisa considerar idade, desejo de ter filhos, menopausa e impacto emocional.

Salpingo-ooforectomia bilateral

A cirurgia mais conhecida nesse contexto é a salpingo-ooforectomia bilateral, que consiste na retirada das trompas e dos ovários. Ela pode reduzir de forma importante o risco, mas não zera completamente a possibilidade de câncer na região abdominal.

Esse ponto é importante: mesmo a cirurgia profilática não oferece risco zero.

Idade sugerida para BRCA1 e BRCA2 mutados

Em linhas gerais, materiais especializados costumam considerar a cirurgia após o planejamento reprodutivo, com faixas etárias frequentemente discutidas em torno de:

  • 35 a 40 anos para portadoras de BRCA1 mutado
  • 40 a 45 anos para portadoras de BRCA2 mutado

Essas idades não substituem a avaliação médica individual. A decisão depende do histórico familiar, do tipo de mutação, da fertilidade e de outros fatores clínicos.

Impactos sobre fertilidade, menopausa e qualidade de vida

Esse é um dos pontos mais sensíveis da prevenção do câncer de ovário em mulheres de alto risco. Retirar ovários e trompas antes da menopausa pode levar à menopausa cirúrgica, com efeitos sobre fertilidade, libido, sono, ossos, humor e saúde cardiovascular.

Por isso, a conversa deve incluir:

  • desejo reprodutivo atual e futuro
  • possibilidade de preservação de fertilidade
  • sintomas da menopausa precoce
  • suporte psicológico
  • estratégias para qualidade de vida após a cirurgia

Quem tem risco habitual e quem tem alto risco?

A tabela abaixo ajuda a entender essa diferença de forma prática.

PerfilCaracterísticas comunsConduta geral
Risco habitualSem histórico familiar forte, sem mutação conhecida, sem sinais suspeitosConsulta ginecológica regular, atenção a sintomas persistentes, estilo de vida saudável
Risco aumentadoHistórico familiar relevante, parentes com câncer de ovário ou mama, suspeita hereditáriaAvaliação individualizada, possível encaminhamento para oncogenética
Alto risco genéticoMutação em BRCA1/BRCA2 ou síndrome de Lynch confirmada, por exemploAconselhamento genético, vigilância especializada e discussão sobre cirurgia redutora de risco

O que não funciona como prevenção do câncer de ovário?

Também faz parte da boa informação esclarecer mitos. Em geral, não se deve confiar em:

  • fazer ultrassom isolado sem indicação e acreditar que isso “previne” a doença
  • dosar CA-125 por conta própria como check-up
  • ignorar sintomas persistentes porque exames antigos estavam normais
  • achar que todo cisto no ovário é câncer
  • acreditar que a ausência de histórico familiar elimina totalmente o risco

Vale lembrar que nem todo cisto ovariano é câncer. Muitos são benignos. O que define a necessidade de investigação é o conjunto de fatores: idade, sintomas, características da imagem, tamanho, presença de áreas sólidas e contexto clínico.

Quando procurar avaliação médica sem esperar

A prevenção do câncer de ovário também passa por não normalizar sintomas que persistem. Procure avaliação se houver, por mais de algumas semanas:

  • distensão abdominal frequente
  • dor pélvica persistente
  • saciedade precoce
  • aumento inexplicado do abdômen
  • perda de apetite
  • alteração urinária ou intestinal nova e contínua
  • sensação de pressão na pelve

Em geral, o primeiro profissional é o ginecologista. Se houver histórico familiar importante ou suspeita de síndrome hereditária, pode ser necessário encaminhamento para oncologista ou oncogeneticista.

Perguntas frequentes sobre prevenção do câncer de ovário

É possível prevenir câncer de ovário?

Não é possível prevenir totalmente em todos os casos. O mais correto é falar em redução de risco, reconhecimento precoce de sinais e estratégias específicas para mulheres com alto risco genético.

Existe exame preventivo para câncer de ovário?

Não existe exame preventivo de rotina eficaz para toda a população. Ultrassom transvaginal e CA-125 podem ser usados em situações específicas, mas não funcionam como rastreamento populacional confiável.

Anticoncepcional previne câncer de ovário?

O anticoncepcional oral pode estar associado à redução do risco em algumas mulheres. Mesmo assim, ele não deve ser usado com esse objetivo sem avaliação médica individual.

Ultrassom transvaginal detecta câncer de ovário?

O ultrassom pode identificar cistos, massas e alterações suspeitas, ajudando na investigação. Mas ele não é um exame preventivo capaz de garantir diagnóstico precoce em todas as mulheres.

CA-125 serve como exame preventivo para câncer de ovário?

Não. O CA-125 tem utilidade limitada fora de contextos específicos, porque pode estar alto em doenças benignas e normal em alguns casos de câncer de ovário.

Quem tem histórico familiar deve fazer quais exames?

Depende do padrão familiar. Em vez de pedir exames por conta própria, o ideal é passar por ginecologista e, quando indicado, por aconselhamento genético para definir se há necessidade de teste genético e acompanhamento diferenciado.

Quem tem BRCA1 ou BRCA2 mutado precisa retirar os ovários?

Nem sempre de forma imediata, mas essa possibilidade costuma ser discutida. A decisão depende da mutação, da idade, do desejo de engravidar e da avaliação com equipe especializada.

Cisto no ovário pode virar câncer?

A maioria dos cistos ovarianos é benigna e não vira câncer. O que exige atenção são características suspeitas no exame, sintomas persistentes e o contexto clínico da paciente.

Quais sintomas do câncer de ovário devem ser investigados?

Distensão abdominal, dor pélvica, saciedade precoce, aumento do abdômen, alterações urinárias e intestinais persistentes merecem avaliação. O ponto principal é a persistência e a repetição dos sintomas.

Quando procurar um ginecologista ou oncogeneticista?

O ginecologista deve ser procurado diante de sintomas persistentes ou para revisão de risco individual. Já o oncogeneticista é especialmente importante quando há vários casos de câncer na família ou suspeita de mutação hereditária.

Foto de Dr. Antonio Carlos Buzaid

Dr. Antonio Carlos Buzaid

Destacado oncologista clínico, graduado pela Universidade de São Paulo, com experiência internacional nos EUA, onde foi diretor de centros especializados em melanoma e câncer de pulmão, além de professor na Universidade de Yale. No Brasil, foi membro do comitê gestor do Centro de Oncologia do Einstein e dirigiu centros de oncologia nos hospitais Sírio Libanês e BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Atualmente é Diretor Médico Geral do Centro de Oncologia dos Hospitais Nove de Julho e Samaritano Higienópolis. CRM 45.405

Foto de Dr. Fernando Cotait Maluf

Dr. Fernando Cotait Maluf

Renomado oncologista clínico, graduado pela Santa Casa de São Paulo, com doutorado em Urologia pela FMUSP. Ele foi chefe do Programa de Residência Médica em Oncologia Clínica do Hospital Sírio Libanês e atualmente é diretor associado do Centro de Oncologia do hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, além de membro do Comitê Gestor do Hospital Israelita Albert Einstein e professor livre-docente na Santa Casa de São Paulo. CRM: 81.930

Publicação: 21/04/2025 | Atualização: 14/07/2026

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