Relatos da jornada – “As pessoas ficam falando que cabelo cresce, não entendem que para nós é uma coisa muito dolorida”.

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Caroline Okumura, 39 anos, descobriu o câncer de mama em 2021, aos 35 anos, no autoexame. Seu bebê estava com um pouco mais de um ano. Por conta do filho ser tão pequeno, teve medo de morrer e deixá-lo. “Ainda vivíamos o isolamento por conta do Covid, com muitas restrições. Foi mais um desafio com tudo que estávamos passando”.

Os exames diagnósticos apontaram que o tumor era do tipo triplo negativo. O tratamento começou com quimioterapia, que provocou uma queda de imunidade. Ela teve muita febre, ficou quase dez dias internada, totalmente isolada por conta da pandemia. “As pessoas iam me visitar toda paramentadas. Foi uma época bem complicada e nesse momento eu achei que não ia voltar para casa. Quando você tem um bebezinho, o temor é por você e pelo futuro do seu filho”.

O marido e a família a apoiavam, o que deixou tudo mais leve. 

Com a alta do hospital ela pôde voltar para a quimioterapia, fez cirurgia para retirada das duas mamas e logo colocou prótese. Depois fez radioterapia, e foi quando os problemas começaram, porque teve muitos sintomas. 

“Na metade da minha terapia meu pai foi diagnosticado com câncer de intestino. Foi outra luta, ele não resistiu. Quando eu estava me curando, descobri que meu pai estava doente e isso deixou ainda mais difícil para mim. Ele fez a cirurgia, ficou melhor por menos de um ano, o câncer voltou e ele faleceu ano passado. Foi muito rápido”.

Ela também precisou fazer mais quatro cirurgias na mama porque não estava cicatrizando, trocou de prótese duas vezes e o peito ainda não está bonito, ficou deformado por conta de várias operações. “Estou achando que meu peito está duro de novo, com contratura. Possivelmente vou passar por outra cirurgia novamente. E dá aquele medo de ir ao médico e ele falar que vai tirar a prótese.

Caroline conta que sempre foi bastante vaidosa, usava cabelo comprido, loiro, muito bem cuidado. Por isso, quando começou a cair ela ficou bem depressiva. Estava relutante em raspar. Quando se sentia exausta de ter tanto cabelo pela casa, no travesseiro, nas roupas, ela mesma raspou e, conta, sentiu-se aliviada. “As pessoas ficam falando que cabelo cresce, não entendem que para nós é uma coisa muito dolorida. O cabelo cresce para a pessoa que quer tirar por espontânea vontade e está bem com isso. A gente não; é obrigada a arrancar. Quando uma coisa é tirada da gente contra a vontade, fica mais dolorido”.

Também se sentia incomodada quando as pessoas comentavam que ela estava mais bonita. “Gente, eu não me sentia horrível, mas eu não era assim. Não me sentia bonita quando estava em casa sem nada na cara. Eu colocava maquiagem, fazia coisas para deixar mais bonito. Só que quando chega em casa, você tira tudo e se olha, não tem sobrancelha, não tem cílios. É complicado”, recorda. “Não é só um cabelo. É sua autoestima, é a confirmação de tudo que você está passando. Às vezes você quer esquecer, mas se olha no espelho e não vai esquecer”.

Até tentou usar peruca e outras opções, mas não se sentia bem. Vivia de lenço. “É também ruim quando começa a crescer, a gente parece um pintinho. Eu fiquei bem, mas com os comentários ficamos chateadas”.

O tratamento durou um ano e meio. Na semana em que terminou a radioterapia ela se separou, mas mantem um bom relacionamento com o pai do filho.

Um tempo depois reencontrou um antigo amor. “Ele passou por tudo isso comigo, me acompanhou nas últimas cirurgias. Eu brincava que nós precisávamos parar de ter encontros no hospital”, lembra. “Falava que se ele ficou ao meu lado com tudo que estava acontecendo, filho pequeno, a doença, a morte do pai, é porque era meu parceiro para o resto da minha vida”.

Ele escolheu ficar e eles se casaram. “Quando começamos a nos relacionar, falei que havia um problema: se ele quisesse ser pai, eu não poderia realizar esse sonho dele. Ele aceitou muito bem. A médica tinha dito que eu não poderia mais ter filho, mas nós tivemos um bebê, que foi um milagre; nossa bebezinha está com 10 meses”.

Quando lembra o que viveu com as falas que a machucaram durante o tratamento de câncer, ela acredita que se as pessoas fizessem diferente, poderia ser melhor para pacientes. “Acho que em vez de dar conselhos ou opiniões, deveriam perguntar como nos sentimos. Seria melhor do que dizer como deveríamos nos sentir. Ninguém sabe como a gente se sente, então as palavras, nesse momento, afetam bastante”, sugere. “Se a pessoa quer chorar, deixa chorar, deixa sentir porque só quem está passando sabe. Eu sei que as pessoas não fazem por maldade, estão tentando nos deixar mais felizes, mas às vezes não era isso que queríamos ouvir”.

Com tantas felicidades que vem conquistando na vida, Caroline apenas espera remissão para comemorar de vez. “Será ano que vem. Quero fazer uma festa”.

Texto de Vivi Griffon

Publicação: 23/03/2026 | Atualização: 23/03/2026

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