Dia das Mães – Diagnóstico de câncer não é o fim do sonho da maternidade

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Ser mãe, gerar uma nova vida, é um sonho para muitas mulheres. E esse sonho pode ficar bastante abalado quando o momento é de receio pela própria vida, diante de um diagnóstico de câncer. “Será que ainda vou poder ser mãe?” é uma das perguntas que surgem em meio a tantas dúvidas. Felizmente, em muitos casos a resposta é sim: tanto os avanços dos tratamentos de câncer, personalizados, quanto os de fertilidade permitem manter esse sonho vivo. Hoje, não só há vida após o câncer, como também existe a possibilidade de gerar uma nova vida.

No Dia das Mães, o Instituto Vencer o Câncer traz histórias de mulheres que engravidaram nessa jornada de pacientes oncológicas e contam a felicidade de ter no colo seus “milagrinhos”, como chamam seus pequenos. E também mostra que com estratégia é possível planejar com sua equipe médica a preservação da fertilidade, inclusive pelo Sistema Único de Saúde (SUS), um direito a pacientes oncológicos. Porque esperança, quando vem acompanhada de informação, deixa de ser só milagre e passa a ser também possibilidade.  

“Não existe contraindicação de ter uma gestação após um diagnóstico oncológico”, afirma a Juliana Pimenta, oncologista clínica na Rede Américas e especialista do Comitê Científico do Instituto. “É claro, obviamente falamos de uma doença que foi tratada e que a paciente não tem doença ativa.”

Histórias de esperança e realização

Dia das Mães - Diagnóstico de câncer não é o fim do sonho da maternidade
Foto cedida por Fabiana Fernandes

“Eu falo que ele é meu milagrinho”, diz Fabiana Fernandes comentando sobre Lucas, seu filho que nasceu em 2015. Ela tinha 23 anos e uma filha de três, Rayanne, quando recebeu o diagnóstico de câncer na mama esquerda, em 2006. Depois do tratamento, a menstruação ficou desregulada, ela não teve acesso ao congelamento de óvulos e passou por um aborto; por isso, acreditava que não conseguiria engravidar novamente. Nove anos depois, livre da doença, começou a sentir enjoos e descobriu uma gestação natural. A gravidez, considerada de risco, foi acompanhada de perto, mas tudo correu bem. O Instituto Vencer o Câncer já compartilhou esta história, para inspirar outras mulheres. 

Dia das Mães - Diagnóstico de câncer não é o fim do sonho da maternidade
Foto cedida por Caroline Okumura

Também é inspiradora a jornada de Caroline Okumura, que descobriu um câncer de mama triplo negativo aos 35 anos, quando o filho ainda tinha pouco mais de um ano. Atravessou quimioterapia, internação, cirurgia para retirada das duas mamas, radioterapia e outras complicações no tratamento. Além do medo de morrer e deixar o filho pequeno, viveu perdas difíceis, como a morte do pai por câncer de intestino, e ouviu da médica que não poderia mais engravidar. Mais tarde, ao se relacionar com um antigo amor, avisou que talvez não pudesse realizar o sonho dele de ser pai. Mas a vida contrariou o prognóstico: há cerca de um ano os dois tiveram uma bebê, que ela considera “um milagre”. 

Dia das Mães - Diagnóstico de câncer não é o fim do sonho da maternidade
Foto cedida por Andressa Brognoli

Andressa Brognoli descobriu a gravidez em meio à investigação de um nódulo suspeito e esperou completar três meses de gestação para fazer uma cirurgia exploratória. O diagnóstico confirmou um câncer de colo de útero metastático, já avançado, e ela precisou adiar o tratamento definitivo com radioterapia para seguir com quimioterapia até o fim da gestação, tentando controlar a doença sem abrir mão do bebê. “Optei por manter a gravidez e escolher uma equipe médica maravilhosa que me abraçasse, abraçasse minha causa”, conta. A gestação passou a ser de alto risco, com incertezas sobre sua vida, o parto e a saúde da criança, mas o filho nasceu saudável e hoje, aos 4 anos, não teve sequelas. Depois, Andressa enfrentou o tratamento definitivo e recidivas da doença, até alcançar a remissão com novas medicações. “Quando descobri o câncer, achei que era sentença de morte”, diz. Com o tempo, ressignificou a experiência: “Demorou, mas eu entendi que o câncer foi uma sentença de vida.” 

Depois da Helena, veio a Elis

Dia das Mães - Diagnóstico de câncer não é o fim do sonho da maternidade
Foto cedida por Roberta Perez

Roberta Perez tinha 27 anos quando recebeu o diagnóstico de câncer de mama, em 2016. Foi orientada sobre a possibilidade de congelar óvulos caso quisesse engravidar no futuro, mas naquele momento não se sentiu pronta para tomar essa decisão. Depois do tratamento, de 16 sessões de quimioterapia, mastectomia bilateral, cirurgias de reconstrução e da retirada de um ovário por um tumor benigno, acreditava que talvez nem estivesse mais fértil. Em janeiro de 2021, aos 32 anos, descobriu uma gravidez natural e inesperada, e a Helena nasceu. 

Mas a vida guarda surpresas e a maternidade de Roberta ainda teria outro capítulo. Depois do nascimento da primeira filha, ela voltou à rotina de exames e consultas, lembrando que “a gente se torna mãe, mas a gente continua sendo paciente”. A ideia de aumentar a família apareceu aos poucos, cercada de cuidado e autoproteção: havia o histórico de câncer, a quimioterapia, um ovário só, endometriose e a idade avançando. Até que, antes de qualquer planejamento formal, veio outra gravidez inesperada. O marido achava improvável: “dois raios não caem no mesmo lugar”, mas Roberta sentiu que algo tinha mudado. O teste confirmou.

Desta vez, longe do período mais duro da pandemia e mais madura, ela vivenciou a gestação de outra forma. “Eu vivi assim um sonho”, conta. A bebê, chamada durante a gravidez de “bebê quinoa”, nasceu Elis, hoje com um ano. Nas redes sociais, a nova gravidez trouxe uma enxurrada de mensagens de mulheres e casais em busca de esperança depois do câncer. Para Roberta, é preciso falar sobre riscos, infertilidade e planejamento familiar, mas sem transformar informação em sentença. “É importante ter os pés no chão, buscar informações, mas que essa esperança não seja minada.”

O diagnóstico chegou no meio da gravidez  

Dia das Mães - Diagnóstico de câncer não é o fim do sonho da maternidade
Foto cedida por Lara

Lara tinha 32 anos quando engravidou da primeira filha, Madalena, em 2019. A gravidez veio de surpresa, durante uma troca de anticoncepcional, e o susto inicial logo deu lugar à alegria. No meio do pré-natal, porém, ela percebeu um caroço na mama direita. Primeiro, ouviu que poderia ser uma alteração comum da gestação. Pouco depois, durante uma viagem, começou a sentir dor na axila e notou outro caroço. Ao voltar para São Paulo, fez um ultrassom e recebeu a orientação de investigar com urgência.

A confirmação veio em 1º de agosto de 2019, Dia Mundial de Incentivo à Amamentação, quando ela estava com quase 20 semanas de gravidez. Depois de uma biópsia inconclusiva, o mastologista foi direto: “Lara, esse exame está mal feito. Você está com câncer. É um câncer agressivo.” No dia seguinte, já estava no consultório da oncologista para iniciar uma investigação rápida e definir o tratamento possível sem interromper a gestação.

Os exames mostraram um câncer de mama triplo negativo, com comprometimento da mama direita, da axila e da clavícula. Como estava grávida, não podia fazer todos os exames de estadiamento, como o PET scan, e a equipe precisou tomar decisões com as informações disponíveis. O cenário era delicado: se fosse outro subtipo, como HER2 positivo, parte do tratamento poderia ser incompatível com a gravidez. O triplo negativo, embora agressivo, permitia iniciar a quimioterapia ainda durante a gestação. “A gente tinha que torcer para ser o mais agressivo”, lembra Lara, referindo-se ao paradoxo de precisar de um subtipo que, mesmo grave, permitisse tentar levar a gravidez adiante. E foi exatamente o que aconteceu.

Ela começou a quimioterapia vermelha em 15 de agosto de 2019, ainda grávida, e seguiu acompanhada de perto pela equipe médica. A gestação passou a ser de alto risco, marcada pelo medo, pela incerteza e a necessidade de tratar o câncer sem deixar de proteger Madalena. A filha nasceu bem. Depois do parto, Lara pôde seguir com as etapas do tratamento.

A jornada continuou com outras fases difíceis, incluindo tratamentos, intercorrências e um período especialmente duro durante a pandemia, quando hospitais eram evitados por todos e ela precisava continuar cuidando de si. Hoje, aos 39 anos, segue em acompanhamento, faz seus exames anuais e ginecológicos, e ainda alimenta o desejo de engravidar novamente. Acredita que a dificuldade atual pode estar mais relacionada à idade do que ao câncer. “É muito dolorido para a mulher ter esse sonho da maternidade atingido pelo trauma dessa doença”, afirma. “Mas é possível e graças a Deus, no meu caso, deu super certo com a Madá e, se Deus quiser, vai dar de novo.”

Com planejamento, preservação da fertilidade e acompanhamento individualizado muitas mulheres podem manter o sonho de gestação

O diagnóstico de câncer não significa, necessariamente, o fim do sonho da maternidade. Com acompanhamento adequado, planejamento reprodutivo e avaliação individualizada dos riscos, muitas mulheres podem engravidar após o tratamento oncológico. Em alguns casos pode até preservar óvulos ou embriões antes do início da terapia para ampliar as chances de uma gestação futura. 

Segundo a oncologista Juliana Pimenta, uma dúvida frequente no consultório é se a gestação poderia aumentar o risco de retorno da doença, especialmente em tumores influenciados por hormônios, como parte dos casos de câncer de mama. Mas os dados disponíveis têm trazido segurança. “A gestação não piora o desfecho oncológico, ou seja, você não aumenta o risco de recorrência se tem uma gestação após um diagnóstico de um câncer que foi tratado”, explica.

Nos últimos anos, estudos passaram a avaliar situações mais específicas, como a de mulheres com câncer de mama receptor hormonal positivo que estavam em tratamento com hormonioterapia e desejavam engravidar. Nesses casos, a interrupção temporária do tratamento pode ser discutida em cenários selecionados, sempre com acompanhamento médico. “Os desfechos foram favoráveis até o momento. Precisamos ver o resultado dos estudos a longo prazo, mas há dados de segurança de que é possível discutir interromper o tratamento com hormonioterapia para gestar, em especial nas pacientes que tinham uma doença mais localizada, um tumor menor”.

O planejamento precisa começar cedo, muitas vezes antes mesmo do início do tratamento. “O tratamento oncológico, em especial a quimioterapia, pode levar a uma falência ovariana precoce. Pode adiantar um pouco a menopausa, por exemplo, e atrapalhar a fertilidade.”

Por isso, diante do diagnóstico de uma mulher em idade reprodutiva que deseja engravidar no futuro, esse tema deve ser tratado desde o início. Entre as possibilidades estão o encaminhamento para um especialista em reprodução humana e a coleta de óvulos ou embriões antes do tratamento.

A médica reforça que isso não significa que toda mulher submetida à quimioterapia perderá a possibilidade de engravidar naturalmente. A chance depende de fatores como idade, reserva ovariana, tipo de tratamento e tempo até a tentativa de gestação. “Ela pode conseguir engravidar, especialmente se a paciente é muito jovem. Mas quando a mulher está mais próxima dos 40, que já tem possivelmente uma dificuldade natural, ter os embriões ou os óvulos pode ajudar bastante.”

Há ainda a possibilidade de usar algumas medicações durante o tratamento para tentar proteger os ovários. A avaliação com especialista em fertilidade costuma ser uma das principais estratégias para ampliar as possibilidades futuras.

O momento de engravidar precisa ser individualizado

Mesmo quando a gestação é possível, o momento ideal para tentar engravidar varia de mulher para mulher. A decisão depende do tipo de tumor, da extensão da doença no diagnóstico, dos tratamentos realizados e do risco natural de recorrência, independente da gravidez.

Pacientes com tumores muito iniciais, por exemplo, tendem a ter maior chance de cura. Já doenças mais avançadas, tumores maiores, presença de linfonodos comprometidos ou alguns subtipos biológicos podem exigir mais cautela. “Tudo é levado em consideração para o oncologista sugerir o melhor momento para a gestão”, avisa a especialista.

Quando o tema é tratamento durante a gestação, a oncologista ressalta que nem todos podem ser realizados nessa fase. A quimioterapia, em algumas situações específicas, tem mais dados de segurança durante a gravidez. Já terapias mais recentes, como tratamentos anti-HER2 e imunoterapia, podem trazer riscos ao feto e geralmente não são indicadas durante a gestação. Por conta disso algumas vezes o oncologista vai sugerir para a paciente esperar um pouco antes de engravidar. “Passou um tempo, passaram alguns anos, ficou tudo bem, a doença não voltou, ficamos mais tranquilas de que realmente é segura a gestação”, afirma Juliana.

Em mulheres jovens com câncer de mama, pode ser indicada a consulta com oncogeneticista para investigação de síndromes hereditárias. Algumas mutações genéticas, como as alterações nos genes BRCA1 e BRCA2, aumentam o risco de câncer de mama e ovário e podem ter impacto também no planejamento familiar.  “Quando a paciente tem alguma síndrome hereditária, como por exemplo a mutação do BRCA, ela poderia selecionar embriões que não têm essa mutação e eventualmente seguir com uma gestação”, afirma.

Diagnósticos mais cedo e maternidade adiada aumentam a discussão do tema

A discussão sobre fertilidade tem se tornado mais frequente nos consultórios oncológicos. Segundo a oncologista, isso acontece por dois motivos principais: o aumento de diagnósticos em mulheres jovens e o adiamento da maternidade. “Vemos pacientes que ainda têm esse desejo reprodutivo, e de repente recebem o diagnóstico de um câncer de mama.”

Embora a preservação da fertilidade já faça parte da rotina em muitos centros oncológicos, Juliana reforça que a paciente também pode e deve levar o assunto para a consulta, especialmente se ainda deseja engravidar. “O que eu sugeriria para as pacientes é sempre perguntar, expor esse desejo de ter uma gestação no futuro e o que pode ser feito para tentar aumentar as chances”, orienta.

Entre as perguntas importantes estão: o tratamento pode afetar minha fertilidade? Há tempo para preservar óvulos ou embriões antes de começar? Quais estratégias podem aumentar as chances de gravidez no futuro? Em que momento seria seguro tentar engravidar?

A oncologista reconhece que, diante do impacto emocional do diagnóstico, muitas mulheres não conseguem pensar imediatamente sobre maternidade. Por isso, o tema precisa ser abordado pela equipe médica de forma cuidadosa, mas clara. “O susto e a angústia do diagnóstico fazem com que seja mais comum as mulheres chegarem no consultório e elas nem querem muito conversar sobre o assunto ou não pensam no momento. E somos nós que precisamos abordar e falar da importância disso”.

A preservação da fertilidade costuma ser viável sem comprometer o início do tratamento oncológico. Em geral, o processo pode ser realizado em poucas semanas. “É possível, é bem viável, a gente faz isso de uma forma rotineira no consultório hoje em dia”, diz. Para ela, falar sobre fertilidade não é um detalhe secundário, mesmo no momento difícil do diagnóstico. É uma forma de preservar possibilidades.

“Às vezes, na hora de um diagnóstico, a paciente fala: ‘Isso não é importante agora’, mas a gente sempre reforça que sim, é importante, porque as coisas vão ficar bem, em especial quando a doença é localizada, tem uma chance boa de ficar curada”.

A mensagem principal, especialmente em uma data como o Dia das Mães, é que o câncer não precisa ser tratado como o fim da vida possível nem dos sonhos que ainda podem vir depois. “Tem muitas mulheres que já fizeram tratamento oncológico, são mães e estão super bem”.

Texto de Vivi Griffon

Publicação: 07/05/2026 | Atualização: 07/05/2026

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