No mês dedicado à conscientização sobre a importância da pesquisa clínica, o Instituto Vencer o Câncer publica uma entrevista exclusiva com Danilo Lopes, diretor médico da AstraZeneca Brasil.
Na conversa, ele explica como os estudos clínicos impulsionam o desenvolvimento de novos tratamentos, ampliam o conhecimento científico e ajudam a transformar avanços da medicina em benefícios concretos para pacientes com câncer e outras doenças graves.
Danilo Lopes também destaca a importância de iniciativas como a Rede Vencer o Câncer de Pesquisa Clínica, que contribuem para ampliar o acesso à informação e aproximar pacientes e profissionais das oportunidades oferecidas pelos estudos clínicos.
Acompanhe a entrevista, abaixo.
No Instituto Vencer o Câncer, costumamos destacar que a pesquisa clínica amplia o acesso dos pacientes a tratamentos inovadores, fortalece a capacitação dos profissionais de saúde, impulsiona a produção científica e atrai investimentos para o país. Na sua avaliação, qual é o impacto desse modelo para o sistema de saúde brasileiro e de que forma ele contribui para criar um verdadeiro ciclo virtuoso, em que todos os envolvidos saem ganhando? A pesquisa clínica desempenha um papel estratégico para o fortalecimento do sistema de saúde brasileiro, justamente porque gera benefícios em diferentes dimensões ao mesmo tempo. Para os pacientes, aumenta a oferta de opções terapêuticas inovadoras de forma equânime, no público e no privado. Para os profissionais de saúde, contribui para capacitação contínua, troca de conhecimento e fortalecimento da prática baseada em evidências. E por fim, fortalece a rede assistencial, estimulando inovação e atraindo investimentos para o país.
O Brasil possui atributos muito relevantes para ampliar sua participação global em pesquisa clínica, como diversidade populacional, relevância epidemiológica e profissionais altamente qualificados. Sempre possuímos estes atributos, mas o fator novo, que é recente, é a melhoria dos nossos prazos regulatórios para aprovação dos estudos, o que nos tornou muitos competitivos. Quanto mais fortalecermos esse ecossistema, maior é o potencial de gerar impacto positivo para a ciência, para a sustentabilidade do sistema de saúde e para a sociedade.
Na sua opinião, quais são os principais impactos da pesquisa clínica para a sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro, especialmente no contexto do câncer, em que o diagnóstico tardio ainda é uma realidade frequente?
Ao promover inovação, ampliar conhecimento científico e apoiar a evolução de modelos de cuidado mais eficientes, tenho a convicção de que a pesquisa clínica seguirá contribuindo ainda mais para a sustentabilidade do sistema de saúde. Em 2026, esperamos tratar mais de 1100 pacientes brasileiros com câncer no Brasil em nossos estudos clínicos, e desta forma, contribuímos para o cenário da doença no país.
No contexto do câncer, esse impacto é ainda mais relevante. Hoje, muitos pacientes ainda recebem o diagnóstico em estágios avançados da doença, o que exige tratamentos mais complexos, causa um impacto considerável na qualidade de vida e resulta em uma maior carga financeira para o sistema de saúde.
Com a pesquisa clínica, é possível acelerar o desenvolvimento de novas terapias, testar novas opções de tratamento, incluindo abordagens mais personalizadas, e contribuir para que essa jornada de cuidado seja mais eficiente e centrada no paciente.
Claro que a questão da sustentabilidade do sistema de saúde vai além e exige um conjunto de ações integradas, como por exemplo estímulo à prevenção, diagnóstico precoce e ampliação de acesso a tratamentos. Mas certamente a pesquisa clínica também contribui para reduzir impactos sociais, econômicos e assistenciais associados ao câncer no longo prazo.
Apesar de contar com centros de excelência e profissionais qualificados, o Brasil ainda responde por uma pequena parcela dos estudos clínicos realizados no mundo. O que falta para o país ocupar uma posição mais competitiva nesse mercado? Acredito que temos alguns pontos de oportunidades para aumentarmos esta participação, mas reconheço que avançamos muito em 2025, com o início de regulamentação da Lei 14.874 de 2024, a chamada “Lei da Pesquisa Clínica”. Este novo arcabouço regulatório trouxe mais previsibilidade nos tempos de aprovação dos estudos, e consequentemente aumenta o apetite para alocação dos projetos no país.
Por outro lado, é preciso que as indústrias farmacêuticas tomem a decisão de trazer mais estudos para o Brasil, em detrimentos de outras regiões. E foi este movimento que a AstraZeneca fez. Acreditamos no potencial e temos colhido excelentes resultados, atingindo hoje uma posição de destaque global, com uma participação de cerca de 12% na inclusão de novos pacientes em nossos estudos em onco-hematologia.
Conseguimos ampliar ainda mais este potencial através da descentralização dos estudos, ampliando a rede de centros recrutadores, especialmente nos conhecidos vazios assistenciais. Através da ampliação da infraestrutura de pesquisa em diferentes regiões, fortalecemos a capacitação contínua de capacitação e estimulamos maior integração entre governo, centros acadêmicos e pacientes.
Temos uma nova janela de oportunidade agora com a publicação no dia 6 de Maio de 2026 da Portaria 11.028 pelo Ministério da Saúde, que cria o Programa Nacional de Pesquisa Clínica; esta publicação nos passa uma mensagem positiva de que o tema tem sido priorizado pelo Governo.
Qual é o papel do Brasil na estratégia global de pesquisa clínica da AstraZeneca e quais são as principais áreas terapêuticas prioritárias para os próximos anos? O Brasil ocupa um papel cada vez mais estratégico na agenda global de pesquisa clínica da AstraZeneca, especialmente pela qualidade dos profissionais de saúde, diversidade populacional e relevância epidemiológica do país. Esses fatores tornam o Brasil um ambiente importante para o desenvolvimento de estudos clínicos e para a geração de evidências que contribuam para o avanço da ciência em escala global.
Na AstraZeneca, temos ampliado investimentos em inovação em áreas de alta complexidade, com destaque para oncologia e doenças raras, além de doenças cardiovasculares, renais, metabólicas e respiratórias. Atualmente, a AstraZeneca Brasil é uma das líderes globais em recrutamento de pacientes para estudos clínicos, com mais de 120 estudos clínicos em andamento no país, sendo 70 deles apenas na área de oncologia, conduzidos em parceria com mais de 150 centros de referência.
Como mencionei, em onco-hematologia, o Brasil já está entre os maiores recrutadores de pacientes em estudos clínicos quando comparado a outros países, reforçando sua relevância para o desenvolvimento científico global. Em doenças raras, também estamos ampliando significativamente nossa atuação. A expectativa é conduzir 18 estudos clínicos nessa área, com um aumento de 22% na participação de pacientes brasileiros.
Nos próximos anos, seguiremos avançando em pesquisas voltadas a áreas de alta necessidade médica não atendida, com foco em inovação e no desenvolvimento de soluções que possam transformar a jornada de cuidado e os desfechos em saúde dos pacientes.
Na área de oncologia, quais tipos de câncer tendem a se beneficiar mais dos avanços em pesquisa clínica e das novas terapias em desenvolvimento? Todas as doenças oncológicas e onco-hematológicas se beneficiam dos avanços promovidos pela pesquisa clínica. O Câncer é por natureza uma doença agressiva, complexa e heterogênea, e ainda temos muito a avançar. A missão aspiracional da AstraZeneca é eliminar o câncer como causa de morte, e buscamos atingir este objetivo não apenas através do desenvolvimento de novos medicamentos, mas também buscando transformar o ecossistema de saúde para que a jornada dos pacientes esteja alinhada às diretrizes.
Qual é a sua expectativa em relação à nova legislação brasileira sobre pesquisa clínica em seres humanos e de que forma ela pode ampliar a segurança regulatória e estimular novos investimentos no país? Considero a Lei 14.874 de 2024 como um marco divisor de águas para a pesquisa clínica no Brasil. O projeto foi discutido por cerca de 10 anos com associações de classe, parlamentares e sociedades médicas e o texto aprovado e agora em regulamentação, torna o Brasil mais competitivo e atrativo para estudos clínicos. Minha expectativa é que a maior previsibilidade advinda da nova Lei vai aumentar a participação em estudos clínicos no país, beneficiando toda a cadeira que mencionamos.
O INCA e a AstraZeneca anunciaram, recentemente, uma parceria para um estudo inédito de implementação de um programa de rastreamento de câncer de pulmão no SUS. Que aprendizados essa experiência pode trazer?
A parceria entre o INCA e a AstraZeneca representa uma oportunidade importante para gerar evidências sobre a viabilidade e o impacto de programas estruturados de rastreamento de câncer de pulmão no contexto do SUS.
Hoje, o câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer no Brasil, e grande parte dos casos ainda é diagnosticada em estágios avançados, o que reduz significativamente as chances de tratamento curativo e sobrevida dos pacientes. Existem muitas evidências internacionais sobre os benefícios do rastreamento do câncer de pulmão, indicando principalmente redução de mortalidade por este tipo de câncer. Porém, a realidade Brasileira se impõe e precisamos avaliar a viabilidade de programas como este no âmbito do sistema público de saúde brasileiro, especialmente em uma população com alta incidência de doença granulomatosa, como é o caso da população do Rio de Janeiro.
Além disso, a iniciativa pode trazer insights relevantes sobre fluxo assistencial, adesão dos pacientes, integração entre atenção primária e centros especializados, além de desafios logísticos e regionais para ampliar o diagnóstico precoce.
Está iniciativa público-privada é muito positiva. O SUS tem diversos desafios e é a união de todos os players envolvidos no ecossistema de saúde que pode produzir as soluções mais criativas. Acredito nesta colaboração.
Como a AstraZeneca avalia a importância de apoiar iniciativas de educação e conscientização, como as desenvolvidas pelo Instituto Vencer o Câncer, para aproximar a informação científica da população? A AstraZeneca acredita que ampliar o acesso à informação de qualidade é um passo fundamental para fortalecer a prevenção, promover o diagnóstico precoce e contribuir para melhores desfechos em saúde. Iniciativas de educação e conscientização têm um papel importante na aproximação entre a ciência e a população, especialmente em temas complexos como o câncer.
Parcerias com instituições como o Instituto Vencer o Câncer ajudam a ampliar o alcance de informações confiáveis, traduzindo conteúdos científicos de maneira mais acessível e contribuindo para que pacientes, familiares e sociedade possam tomar decisões mais informadas sobre saúde.
Além disso, ao apoiar projetos de educação e conscientização, é possível fomentar discussões mais amplas sobre prevenção, fatores de risco, sinais de alerta e importância do diagnóstico precoce, temas especialmente relevantes em oncologia, onde a informação e o acesso ao cuidado podem impactar diretamente as chances de tratamento e qualidade de vida dos pacientes.
Convergimos com o IVOC em reconhecer o papel da pesquisa clínica no Brasil, e juntos vamos fortalecer esta agenda no país.
Em um cenário de desinformação crescente, qual é a responsabilidade da indústria farmacêutica na comunicação de dados confiáveis sobre pesquisa clínica e inovação em saúde? A indústria farmacêutica tem a responsabilidade de atuar de maneira ética, transparente e baseada em evidências científicas, contribuindo para ampliar o acesso da sociedade a informações confiáveis sobre saúde, pesquisa clínica e inovação.
Para nós, é fundamental comunicar dados de maneira clara, responsável e acessível, respeitando critérios regulatórios e o rigor científico. Isso inclui não apenas divulgar avanços e resultados de pesquisas, mas também contribuir para o entendimento sobre o desenvolvimento de novos tratamentos, seus benefícios, limitações e impacto potencial para pacientes e sistemas de saúde.
A AstraZeneca acredita que a construção de confiança passa pelo diálogo contínuo com diversos atores do ecossistema de saúde, incluindo médicos, instituições, imprensa, pacientes e sociedade. Ao apoiar iniciativas de educação, ciência e conscientização, buscamos contribuir para um sistema mais informado, fortalecendo a tomada de decisão baseada em evidências e ampliando o entendimento sobre inovação em saúde.
O que mais o motiva, como profissional da saúde e executivo, a investir no fortalecimento da pesquisa clínica no Brasil? Como profissional da saúde com uma carreira que envolveu pesquisa clínica durante muitos anos, este é um tema ao qual me dedico com atenção. Acredito fortemente que o fortalecimento da pesquisa no Brasil representa uma oportunidade de gerar impacto direto na vida dos pacientes, ampliar a oferta à inovação e contribuir para a evolução do sistema de saúde.
Eu acredito que a pesquisa clínica vai além do desenvolvimento de novos tratamentos. Ela também fortalece a capacidade científica do país, estimula a formação de profissionais, amplia a geração de conhecimento e ajuda a reduzir desigualdades no acesso à inovação.
O Brasil possui grande potencial nessa área, pela qualidade dos profissionais de saúde, diversidade populacional e relevância epidemiológica. Ao investir em pesquisa clínica, também contribuímos para que pacientes brasileiros possam ter acesso mais precoce a terapias inovadoras e para que o país participe de maneira mais ativa do avanço da ciência.
Na AstraZeneca, temos ampliado investimentos em inovação em áreas de alta complexidade, como onco-hematologia e doenças raras. O Brasil hoje é um país estratégico para a companhia e, em onco-hematologia, por exemplo, já somos um dos maiores recrutadores de pacientes em estudos clínicos quando comparado a outros países, reforçando a relevância do país para o desenvolvimento científico global. Seguiremos desta forma, estabelecendo parcerias estratégicas que melhorem o cuidado dos pacientes no Brasil







