Relatos da Jornada – “Sua cicatriz não é comercial, ela não vende nosso produto.”

Compartilhe:

Sumário

Compartilhe:

Gi Charaba, 38 anos, lembra que suas memórias afetivas em relação aos seios remontam à puberdade, quando eles começaram a crescer e ela queria esconder. Também foram momentos emocionais quando, anos depois, ela queria aumentar, mas acabou não fazendo o procedimento cirúrgico. “Quando virei modelo, meu peito estava perfeito daquele tamanho. Até que o câncer de mama chegou”.

Em 10 de julho completa dez anos do diagnóstico. Os efeitos colaterais que o câncer provocou em sua vida, ela sente até hoje. Quando a doença chegou, estava realizando o sonho de ser modelo, que herdou da mãe.

Os irmãos tinham 18, 25 e 30 anos quando Gi nasceu. A mãe, então com 45 anos, era considerada “velha”, naquela época, para ter filhos, e por isso tinha vergonha de dizer que estava grávida e também de levar a filha ao colégio — a tarefa cabia aos irmãos mais velhos.

Vendo que a filha era bastante comunicativa e bonita, a mãe começou a inscrevê-la nos concursos de beleza do interior de São Paulo, onde viviam. “Eu queria fazer balé, mas não tínhamos dinheiro para isso. Eu ganhei em segundo lugar no concurso e o prêmio era uma bolsa para fazer ballet”, recorda. “Foi assim que minha vida começou”.

A mãe, que assistia muitos programas na televisão, ensinava comunicação, dizia como ela deveria se vestir e agir. “Eu era uma criança, tinha seis anos; minha mãe faleceu quando eu tinha oito. O sonho dela era que eu aparecesse na TV”.

Sofreu bullying na adolescência por ser alta, desproporcional. As pessoas no colégio achavam que ela era feia, esquisita. Para esconder os peitos crescendo, usava faixa e dois tops. “Tudo isso gerava conflito em mim, porque ao mesmo tempo eu queria crescer logo para trabalhar mais como modelo. Queria sair da minha cidade, conquistar outros mundos”.

Foi fazer faculdade de Letras em outra cidade, embora o desejo inicial fosse cursar Psicologia, porque foi uma psicóloga que a ajudou a superar seus traumas com os seios. Logo depois do vestibular, seu pai faleceu. 

No meio do curso venceu um concurso de beleza e como prêmio ganhou uma bolsa para morar e trabalhar em São Paulo. Sentia que não tinha mais vínculos com a cidade, mudou-se para a capital. “Agarrei a oportunidade com unhas e dentes e aprendi que teria que matar um leão por dia. Que o peito que antes era grande demais e depois pequeno demais, ali estava no tamanho certo. Foi libertador. Comecei a gostar do meu corpo, de ser feminina, a me ver mais bonita”.

Gi estava caminhando para sua tão sonhada independência financeira, vivia um bom relacionamento, sentia-se de bem com a vida. “Eu estava há dez anos em São Paulo, ia a programas de TV. Todo mundo elogiava muito meu peito e meu cabelo, porque eram naturais. Olha que loucura!”.

Foi o namorado que sentiu o caroço no seio. Ela achou que poderia ser por conta do ciclo menstrual. Como o caroço não sumiu em dois meses, resolveu procurar um médico. Sem plano de saúde, conseguiu que um cirurgião plástico de misses a examinasse. Ele recomendou que procurasse uma unidade pública de saúde, ajudando a direcioná-la.

“Começaram os choques, do diagnóstico aos 29 anos, do mastologista que me falou ‘seu peito é realmente muito bonito, vamos tirar, mas tentaremos fazer o máximo possível. Ele foi empático, mas aquilo acabou comigo no momento. Saí da sala dizendo que não queria fazer”, afirma. Duas horas depois estava assinando os papeis e sendo encaminhada para os exames pré-cirúrgicos. Nessa fase descobriu que o câncer estava bastante avançado, porque demorou muito tempo.

A cintilografia óssea demonstrou que havia metástase óssea. O prognóstico mudou, ela foi para a quimioterapia. “Entrou outro drama: o cabelo. Tive o diagnóstico de câncer de mama e logo depois o de metástase. O medo de tirar o peito virou o medo de ficar careca. Eu não tinha contado para ninguém que aquela pessoa que aparecia na televisão, que levava alegria para todo mundo e trabalhava com beleza ia passar por isso”. 

Preocupada porque morava sozinha, pediu ajuda para a irmã e decidiu assumir nas redes sociais, pois sabia que talvez precisasse de apoio, não apenas financeiro, porque a família morava longe.

“Eu perdi todo o cabelo, mas usava peruca durante todo o tratamento. Não me aceitei careca de jeito algum”.

O corpo começou a inchar por conta do corticoide, ela foi perdendo suas medidas. No começo teve ajuda financeira das empresas para quem trabalhava, mas perdeu todos os trabalhos de modelo. Ela só queria acabar logo o tratamento e voltar a trabalhar. “Eu queria tirar aquilo, queria que as pessoas não tivessem mais dó de mim, não queria depender de ninguém nem ter que ocupar as pessoas com aquilo”.

Quando terminou a quimioterapia, o cabelo estava crescendo e ela se preparava para a cirurgia, voltou o pânico de tirar aquela parte do seu corpo.  Como o tumor tinha reduzido, a equipe decidiu não tirar a mama toda e fazer uma operação ousada ressecando o osso. O médico disse que tinha feito essa cirurgia duas outras vezes, com sucesso. Ela resolveu arriscar, percebeu que existia uma força tarefa para não tirar seu peito, fazer a cicatriz um pouco acima para o sutiã esconder.

Voltou bem da cirurgia, com as cicatrizes: a das costas conseguia esconder facilmente; a do decote, não. “Porém, eu amei. Ficou lindo. Eu amo meu peito agora, amo minha cicatriz”, fala emocionada. “Minha cicatriz ficou bonita, não tirou o meu mamilo, não precisou colocar silicone. A equipe foi muito boa comigo. A cicatriz aparece quando coloco top no calor. Tenho a minha frase: é verão. E vocês inevitavelmente verão minhas cicatrizes”.

Gi estava animada para voltar a trabalhar. Logo de cara recebeu três nãos, mas já estava acostumada ao mercado da moda. Em uma reunião, a dona da marca para a qual trabalhava explicou seu motivo: “a gente te adora, vamos te ajudar agora no começo, mas sua cicatriz não é comercial, ela não vende nosso produto. Eu tenho medo de câncer de mama e cada vez que olho essa cicatriz no peito me incomoda, me dá gatilho. Por mais que a gente saiba de toda a situação, preciso pensar no meu comercial. As pessoas que vendem lingerie, fitness, biquini, não vão querer comprar uma peça em que o peito da modelo está remendado”. 

Essa disse diretamente, outras duas foram mais sorrateiras, mas todas afirmaram que foi difícil para elas falarem aquilo. “Isso nunca mais saiu da minha cabeça”, revela. “De todos os traumas que o câncer traz para a mulher, esse para mim é o pior. Eu era nova, uma mulher bonita, comunicativa, que tinha tido câncer”.

As marcas com as quais trabalhava, muitas grandes, foram dispensando seu trabalho. “Falamos de mulheres de peito. É tanta carga de preconceito que a gente carrega no peito: o peito que amamenta, o peito que é sexualizado, o peito que é área de prazer, tudo de manipulação. Nesse dia decidi que ia contar minha história para democratizar as cicatrizes, para que as pessoas que olham para elas não tenham medo do câncer, que procurem se cuidar. Que vejam que o corpo retalhado é um corpo vivo da mulher que carrega muitas coisas no peito, inclusive uma cicatriz”.

Gi ainda não conseguiu voltar a trabalhar como modelo. Passou a usar sua voz para lutar pela representatividade das pacientes de câncer de mama no mundo da moda. Também decidiu que não ia mais esconder seu corpo. “Decidi que se meu corpo não era mais comercial, a minha voz ia ser comercial”. 

Como seu câncer era hormonal, segue em tratamento com bloqueadores hormonais e investigações maiores por conta da metástase. Faz exames a cada quatro meses. Desde que o namoro acabou — e ela faz questão de frisar que ele foi sempre ótimo, mas acabaram virando amigos —, não conseguiu mais nenhum namorado fixo. “É praticamente a mesma premissa: as pessoas começam a gostar de mim e eu delas, até que chega a parte da infusão, da injeção na barriga para bloquear hormônio, eu tenho menopausa precoce. Eles criam uma relação de afeto e quando percebem que eu terei que entrar em uma máquina para os exames, acho que causa um pouco de dor neles também, de se afastar antes de se envolver demais”.

Enquanto um novo amor não vem, concentra sua energia em batalhar por importantes causas. Luta por seus direitos como paciente, dá palestras compartilhando sua experiência, atua como ativista em Brasília brigando por remédio, por tratamento, tenta ajudar as pessoas nas suas redes sociais, porque recebeu e recebe muito preconceito, para que elas saibam passar por isso. 

Trabalha para dar mais visibilidade à causa, para que as mulheres continuem sendo consideradas bonitas e interessantes no mundo da moda mesmo depois de um câncer. Que continuem sendo vistas como mulheres. Ela quer furar bolhas. Abrir espaço para aquelas que se escondem, escondem os peitos, não vão à academia, nem à praia. Quer voltar às passarelas das grandes marcas para mostrar que as cicatrizes também podem desfilar. “É um sonho de vida, um sonho de esperança”.

Texto de Vivi Griffon

Publicação: 23/03/2026 | Atualização: 23/03/2026

Pesquisa Clínica

Novos tratamentos e medicamentos, com segurança e eficácia, de forma gratuita. Conheça.

Busque novas possibilidades de tratamento

Se você busca novas opções de tratamento para si ou para alguém próximo, encontre aqui estudos clínicos com recrutamento aberto. Participar é uma forma de acessar novos tratamentos e contribuir com a evolução da medicina.