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Câncer de próstata: a jornada do paciente vem mudando – e para melhor. E o diagnóstico precoce continua essencial

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Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.
Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.

Novembro Azul, exames de PSA, toque retal, diagnóstico de câncer de próstata. Para muitos homens, esses temas ainda vêm acompanhados da mesma ideia: a de que, a partir dali, é o fim da vida sexual e a chegada da incontinência urinária. 

Só que a medicina avançou — e muito — nas últimas décadas, do rastreamento ao tratamento, inclusive nos casos de doença avançada. Exames mais precisos, cirurgias menos invasivas e tratamentos sistêmicos modernos têm mudado o desfecho dos pacientes e aberto espaço para uma vida com qualidade e com sexualidade possível. É sobre essa mudança de cenário que fala o oncologista Fábio Schutz, médico da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, que acompanha na prática essa revolução nos consultórios e hospitais.

“Quando o PSA surgiu, começou-se a diagnosticar uma proporção enorme de pacientes de câncer de próstata que estava subnotificada. A partir de então se criaram e intensificaram as campanhas para diagnóstico precoce e redução da mortalidade do câncer de próstata.”

Apesar de ser o câncer mais frequente entre os homens, não é o que mais mata – o câncer de pulmão ainda ocupa esse lugar. A letalidade (chance de morrer pela doença) do câncer de próstata é menor que a de tumores como o de pulmão, principalmente quando diagnosticado nos estágios iniciais.

Câncer de próstata: a jornada do paciente vem mudando – e para melhor. E o diagnóstico precoce continua essencial

Antes do PSA: câncer de próstata só aparecia nos sintomas

Fábio Schutz destaca que o primeiro grande avanço nessa história foi a identificação do PSA no sangue e a possibilidade de se diagnosticar o câncer de próstata através dessa dosagem.

Até os anos 1980, não havia exame de sangue específico para investigar esse tumor. O diagnóstico acontecia, na maioria das vezes, apenas quando já provocava sintomas – como dificuldade para urinar, dor ou sinais de doença avançada. “Antes do PSA praticamente só se diagnosticava quando tinha sintomas. A maior parte em estágios mais avançados”, diz o oncologista.

O toque retal já era utilizado como exame clínico. O exame de PSA trouxe o que faltava: um marcador no sangue capaz de levantar a suspeita de um tumor ainda silencioso. O PSA (antígeno prostático específico) é uma proteína produzida pela próstata e liberada no sangue. Níveis alterados podem indicar inflamação, aumento benigno da próstata ou câncer. Começou a ser pesquisado entre o fim da década de 1960 e o início da década de 1970. 

A partir de meados dos anos 1980 passou a ser aprovado por agências reguladoras e utilizado inicialmente para monitorar pacientes já diagnosticados com câncer de próstata e depois como teste de triagem em larga escala. 

A partir do fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, campanhas combinando PSA e toque retal passaram a ser mais difundidas em vários países, e grandes estudos de rastreamento foram iniciados. “As curvas de incidência do câncer de próstata eram estáveis. Com o surgimento do PSA houve um pico exponencial de diagnósticos”.

Do ‘trata todo mundo’ à vigilância ativa: aprendendo com os excessos

No início dos rastreamentos, a recomendação era: achou câncer de próstata, trata. “Antigamente descobrir um câncer de próstata era sinônimo de tratamento radical, com prostatectomia radical, radioterapia. Houve um sobretratamento nessa época. Percebeu-se que eram descobertos muitos cânceres de próstatas ‘bonzinhos’ que de repente não precisavam ser tratados”, avalia o oncologista.  “Descobriu-se e tratou um monte de gente que nunca ia morrer por câncer de próstata – causou estresse, ansiedade, custo e tratamento desnecessário.”

O que aconteceu, na prática, é que muitos homens com tumores pequenos, de crescimento muito lento, foram submetidos a cirurgias ou radioterapias das quais talvez não precisassem. As curvas de incidência subiram, muita gente foi tratada – mas a queda na mortalidade não foi tão dramática quanto se esperava, acendendo um alerta de sobrediagnósticos e sobretratamentos.

Com o tempo, a abordagem foi sendo refinada, como explica o especialista. Nos últimos anos começou a ser mais discutida a individualização do tratamento através da estratificação de risco dos pacientes, por exemplo. Nos últimos 10 a 15 anos, a ideia de vigilância ativa ganhou força: acompanhar de perto, com exames regulares, homens que têm tumores de baixo risco, em vez de partir imediatamente para cirurgia ou radioterapia.

“Hoje a gente discute primeiro se é necessário fazer o diagnóstico – fazer a biópsia – e, em se fazendo a biópsia e o diagnóstico, avalia se é necessário tratar esse câncer de próstata. Pondera na balança se esse câncer é suficientemente grave para necessitar de um tratamento oncológico.” Apesar dos excessos que aconteceram, ele considera que não fazer rastreamento é temerário. Acredita que o melhor é promover uma boa estratégia de rastreamento, diagnóstico precoce e discussão individualizada acerca da necessidade do tratamento oncológico.

De forma geral, a recomendação atual é conversar com o médico sobre:

• Idade (em muitos países, discute-se PSA a partir dos 50 anos; antes disso em caso de alto risco);

• Histórico familiar (pai, irmãos ou vários familiares com câncer de próstata, mama, pâncreas);

• Origem étnica (alguns grupos têm risco maior);

• Condições de saúde e expectativa de vida.

Genética traz mais clareza para diagnóstico precoce e tratamento

Nos últimos dez anos, a genética deixou de ser um tema distante e passou a fazer parte do dia a dia de muitos consultórios de oncologia. “O diagnóstico genético pode ser usado para antecipar realização de exames preventivos. Se era feito aos 50 anos, começa a fazer aos 45, 40, para antecipar diagnóstico precoce.”

Mutações em genes como BRCA1 e BRCA2 (conhecidos também pelo papel no câncer de mama e ovário) aumentam o risco de câncer de próstata, e diretrizes internacionais já recomendam que homens portadores desses genes iniciem o rastreamento mais cedo, por volta dos 40–45 anos. 

Essa mesma revolução genética também impacta o tratamento em fases avançadas: desde 2020, inibidores de PARP são aprovados para homens com câncer de próstata metastático resistente à castração que carregam alterações em genes de reparo de DNA.  “Começamos a entender melhor, fazer exame de sangue, identificar fatores genéticos que podem predispor ao câncer de próstata e tratar esses fatores genéticos. Isso já é realidade para a doença avançada.”

Robótica em ação: cirurgias menores, cortes menores – e mais preservação de função

Quando se fala em medo de incontinência e impotência, aborda-se algumas das maiores mudanças das últimas décadas. “O que evoluiu ao longo das últimas décadas, eu diria que foi o advento de técnicas de cirurgia minimamente invasivas, através da cirurgia robótica – a mais recente.”

A cirurgia robótica, feita por pequenas incisões e com braços articulados controlados pelo cirurgião, começou a ser usada no início dos anos 2000.  Embora ainda não seja acessível em todos os serviços – e muitas vezes não coberta por planos de saúde – ela permite maior precisão, com melhor preservação da continência urinária e da função erétil em muitos casos.

Mesmo em centros que não usam robô, a própria técnica da prostatectomia (aberta ou laparoscópica) evoluiu, com maior cuidado para preservar feixes nervosos importantes para a ereção, sempre que oncologicamente seguro.

Radioterapia mais precisa, com menos sequelas

A radioterapia também mudou. Entre as décadas de 1980 e 2000, a tecnologia avançou de campos “quadrados” para a chamada radioterapia 3D conformacional, que já permitia moldar melhor o feixe ao formato da próstata.  A partir dos anos 2000, espalhou-se o uso da IMRT (radioterapia de intensidade modulada), técnica que distribui a dose de forma ainda mais precisa, poupando reto e bexiga e reduzindo efeitos colaterais. 

“Ao longo dos últimos 10 a 20 anos, houve um gradiente de evolução: realização de técnicas de radioterapia mais eficazes, mais potentes, menos mórbidas, que causam menos sequelas”. Contudo, infelizmente, como ressalta Fábio Schutz, vários convênios não cobrem a radioterapia IMRT, o que ele considera “um problema de saúde pública”, já que é uma opção mais moderna que diminui os riscos de incontinência e de alterações graves da função erétil.

Tratamentos sistêmicos: mais opções além da castração hormonal e da quimioterapia clássica

Para os casos de câncer de próstata avançado ou metastático, durante muito tempo a base de tratamento era a castração química, com injeções que reduzem drasticamente a testosterona, associada, em alguns casos, à quimioterapia.

“Antigamente só tinha injeção hormonal – e mais ou menos quimioterapia. Com a castração química, a testosterona do paciente cai e o PSA abaixa. Geralmente é reservado para pacientes com doença metastática.”

A virada começou no início dos anos 2000, com aprovação de quimioterapias que demonstraram aumentar a sobrevida de homens com câncer de próstata metastático resistente à castração.

Depois vieram novas alternativas como medicamentos orais hormonais de nova geração, como Abiraterona e Enzalutamida, aprovados no início dos anos 2010 para diferentes estágios do câncer de próstata avançado; radiofármacos como o rádio-223, para homens com câncer de próstata resistente à castração e metástases ósseas sintomáticas; inibidores do receptor androgênico de nova geração.

A diversidade oferece mais opções para controlar a doença e adaptar a estratégia ao perfil de cada paciente.

E a vida sexual?

Esse é um dos pontos que mais assusta muitos homens: como fica a vida sexual depois do diagnóstico e do tratamento? O oncologista esclarece: “Quanto mais precoce o diagnóstico do câncer de próstata, menores são os riscos de sequela. Se eu tenho um tumor maior na próstata, mais avançado, que está saindo para fora da próstata, o tratamento será mais agressivo e o risco de complicação será maior. Quanto maior, mais risco de sequelas mais graves.”

Ou seja: diagnosticar cedo não aumenta o risco de impotência – ajuda a reduzi-lo, porque permite cirurgias menos amplas, radioterapias mais focadas e, em alguns casos, até a opção de vigilância ativa.

“Zero sequela não terá. Não posso dizer para o paciente que sairá mais potente do que entrou. Faz parte. A maioria dos pacientes acaba ficando bem. Além disso, hoje existem adjuvantes: próteses penianas boas para quem fica com impotência grave, injeção intracavernosa, comprimidos orais.”

Em muitos casos, homens que enfrentam o tratamento com orientação adequada conseguem retomar a vida sexual – talvez diferente, com ajustes, mas definitivamente não condenada.

Mensagens para o homem que ainda sente medo

• O câncer de próstata não é mais, automaticamente, o fim da vida sexual.

• Diagnósticos mais precoces, cirurgias e radioterapias mais precisas, medicamentos modernos e estratégias de vigilância ativa mudaram o cenário.

• O medo não some – mas pode ser substituído por informação, acompanhamento e escolha compartilhada.

Texto por: Vivi Griffon

Publicação: 25/11/2025 | Atualização: 25/11/2025

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