O tratamento do câncer de estômago varia conforme o estágio da doença, o tipo de tumor, o estado geral do paciente e características moleculares do câncer. Em outras palavras, não existe uma única conduta ideal para todos os casos. Segundo o INCA, o câncer de estômago está entre os mais incidentes em homens no Brasil, o que reforça a importância de diagnóstico ágil e definição correta da estratégia terapêutica (ele representa 5,4% dos novos casos em homens e 4,4% no total, segundo estimativa do INCA para 2026-2028).
Neste artigo, você vai entender quais são os principais tratamentos para câncer gástrico, quando a cirurgia é indicada, como funcionam quimioterapia, radioterapia, terapia-alvo e imunoterapia, além de saber o que muda em cada estágio da doença, como fica a alimentação após a gastrectomia e quando os cuidados paliativos entram no plano de cuidado.
Pontos importantes
- O tratamento do câncer de estômago é individualizado e depende principalmente do estágio da doença, do subtipo tumoral e do perfil do paciente.
- Em doença localizada, a cirurgia costuma ter papel central, muitas vezes combinada com quimioterapia antes e depois da operação.
- Em estágios avançados ou metastáticos, o foco pode ser controlar a doença, aliviar sintomas e preservar a qualidade de vida.
- Terapias mais personalizadas, como terapia-alvo e imunoterapia, podem ser usadas em casos selecionados, especialmente de acordo com biomarcadores como o HER-2.
- Nutrição, reabilitação, suporte emocional e equipe multidisciplinar fazem parte do tratamento e não são cuidados “secundários”.
Quais são os principais tratamentos para câncer de estômago?
O American Cancer Society, o Einstein e o Oncoguia apontam as principais modalidades de tratamento: cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapia-alvo, imunoterapia e cuidados paliativos. Muitas vezes, elas são combinadas.
Cirurgia
A cirurgia é uma das bases do tratamento do câncer de estômago quando a doença está localizada e pode ser removida.
Gastrectomia parcial
Na gastrectomia parcial, apenas a parte do estômago onde está o tumor é retirada. Isso pode ser possível quando a localização e a extensão da lesão permitem margens seguras.
Gastrectomia total
Na gastrectomia total, todo o estômago é removido. Depois, o cirurgião reconstrói o trânsito digestivo para que o alimento passe do esôfago para o intestino.
Retirada de linfonodos
Além do estômago, costuma ser necessária a retirada de linfonodos próximos. Isso ajuda no controle local da doença e na melhor compreensão do estágio da doença.
Ressecção ou dissecção endoscópica em casos iniciais
Em uma minoria dos casos que se apresenta com tumores muito iniciais e superficiais, pode ser possível tratar por cirurgia endoscópica, sem cirurgia tradicional. A dissecção endoscópica da submucosa pode ser indicada em neoplasias superficiais selecionadas.
Quimioterapia
A quimioterapia para câncer de estômago pode ser usada em diferentes momentos do tratamento.
Quimioterapia perioperatória
É uma estratégia muito usada nos estágios II e III. A quimioterapia perioperatória pode melhorar significativamente a taxa de cura nesses estágios. O esquema pode incluir fluorouracila, oxaliplatina e docetaxel, e, mais recentemente, a incorporação de imunoterapia, com um período antes e outro depois da cirurgia.
Quimioterapia adjuvante
É feita após a cirurgia, quando o objetivo é reduzir o risco de retorno da doença. Em alguns casos, pode durar cerca de seis meses.
Quimioterapia paliativa
Quando há metástase ou a doença não pode ser curada com cirurgia, a quimioterapia pode ajudar a controlar o câncer, aliviar sintomas e prolongar a sobrevida.
Radioterapia
A radioterapia para câncer de estômago tem uso menos comum do que em outros tumores, mas pode ser necessária em alguns casos, sobretudo nos tumores de cárdia.
Quando é indicada
Ela pode ser considerada em situações específicas, como controle local, alívio de sintomas ou quando há necessidade de complementar um tratamento em casos selecionados.
Radioterapia combinada com quimioterapia
A radioquimioterapia pode ser usada em alguns cenários, mas o papel da radioterapia no câncer gástrico costuma ser mais restrito. Ela tende a ser reservada para situações específicas, como cirurgia incompleta.
Terapia-alvo
A terapia-alvo para câncer de estômago é indicada quando o tumor apresenta certas características biológicas.
HER-2 e indicação de trastuzumabe
Em tumores HER-2 positivos, pode haver benefício do uso de trastuzumabe combinado à quimioterapia. Em pacientes em que há a co-expressão de HER-2 e PD-L1 (dois biomarcadores obrigatórios para os pacientes com doença avançada), a incorporação de imunoterapia se faz necessária. O uso de uma droga chamada trastuzumabe deruxtecana também pode ajudar esses pacientes.
Claudina 18.2 e indicação de zolbetuximabe
Em tumores com alta expressão de claudina 18.2, podemos também adicionar à quimioterapia um anticorpo chamado zolbetuximabe, que se liga a esta molécula e melhora os resultados do tratamento.
Outras terapias-alvo em cenários específicos
Dependendo do perfil molecular, outros alvos podem ser considerados em centros especializados. Isso reforça a importância dos testes biomoleculares.
Imunoterapia
A imunoterapia para câncer de estômago ajuda o sistema imunológico a reconhecer e combater o tumor.
Quando pode ser usada
Ela não serve para todos os pacientes. Sua indicação depende do estágio, do tratamento já realizado e de marcadores do tumor.
Casos avançados e perfis moleculares
Em doença avançada, alguns pacientes HER-2 positivos podem receber pembrolizumabe, e alguns HER-2 negativos podem se beneficiar de quimioterapia com outras imunoterapias, como o nivolumabe, o pembrolizumabe e o tislelizumabe.
Cuidados paliativos
Os cuidados paliativos são parte importante do tratamento do câncer de estômago e devem começar sempre em fases precoces, desde o diagnóstico.
Controle de sintomas
Eles ajudam no controle de dor, náusea, dificuldade para comer, cansaço, ansiedade e outros sintomas físicos e emocionais.
Qualidade de vida
O foco é preservar conforto, autonomia e bem-estar.
Cuidados paliativos não significam abandono do tratamento
Esse é um ponto essencial. Cuidado paliativo não é “desistir”. É tratar a pessoa de forma integral, inclusive junto com quimioterapia, cirurgia ou outros tratamentos.
Tratamento do câncer de estômago por estágio
A seguir, uma visão prática de como o tratamento costuma ser organizado.
| Estágio | Objetivo principal | Tratamentos mais comuns |
| I | Cura | Cirurgia e, em casos muito iniciais, tratamento endoscópico |
| II e III | Cura com redução do risco de recaída | Quimioterapia (e imunoterapia) perioperatória + cirurgia |
| IV | Controle da doença e sintomas, prolongamento do tempo de vida | Quimioterapia, imunoterapia, terapia-alvo, cuidados paliativos e procedimentos para alívio |
Estágio I
No estágio inicial, o câncer de estômago tem maior chance de cura. O estádio I pode ser altamente curável com cirurgia. Em lesões muito superficiais, a abordagem endoscópica pode ser suficiente em casos selecionados.
Estágios II e III
Nesses estágios, é comum combinar tratamentos. A quimioterapia perioperatória e, mais recentemente, a incorporação de imunoterapia, costuma ser uma estratégia importante, seguida de cirurgia e, depois, continuação do tratamento sistêmico quando indicado.
Estágio IV ou doença metastática
Quando há metástase, geralmente o objetivo passa a ser controlar o câncer, aliviar sintomas e prolongar a vida com qualidade. Isso pode incluir quimioterapia, imunoterapia, terapia-alvo, suporte nutricional, controle de sangramento, tratamento da dor e outros cuidados.
Tratamento conforme o tipo de tumor
Tratamento do adenocarcinoma gástrico
É o cenário mais frequente. O manejo pode envolver cirurgia, quimioterapia perioperatória, terapias-alvo e imunoterapia, conforme estágio e biomarcadores.
Tratamento do GIST
No GIST, a cirurgia pode ser central, mas o uso de terapia-alvo costuma ter papel muito mais importante do que no adenocarcinoma.
Quando o tratamento muda conforme o subtipo
Por isso, o laudo da biópsia não é um detalhe burocrático. Ele é o que define o tipo de tumor e orienta decisões que podem mudar completamente a estratégia terapêutica.
Exames e fatores que orientam a decisão terapêutica
Endoscopia e biópsia
A endoscopia digestiva alta é um exame central no diagnóstico. Ela permite visualizar a lesão e colher material para biópsia.
Exames de imagem
Tomografia, ultrassonografia endoscópica e outros exames ajudam a avaliar profundidade do tumor, linfonodos e metástases, ou seja, o quão avançado o câncer está.
Estadiamento clínico
Com base nesses exames, a equipe define o estágio da doença e monta o plano de tratamento.
Testes moleculares
Os pacientes com doença precoce devem ser testados para pelo menos instabilidade de microssatélites, ou proteínas dos genes de reparo de pareamento. Naqueles com doença mais avançada, devemos ainda testar o HER-2, a Claudina 18.2 e o PD-L1, pelo menos.
Como escolher o local para realizar o tratamento
O melhor plano costuma ser definido por uma equipe multidisciplinar, porque o tratamento do câncer de estômago envolve muito mais do que retirar ou reduzir um tumor. A escolha do local onde os pacientes fazem o tratamento deve ser feita com base no volume de pacientes atendidos (em geral, centros de referência, com grande número de pacientes, apresentam resultados melhores), sobretudo naqueles que possuem grupo de atendimento multidisciplinar, que permitem que as diversas especialidades interajam entre si na busca das melhores soluções para cada caso.
Especialistas envolvidos
Cirurgião oncológico ou gastrocirurgião
Avalia operabilidade, define a técnica cirúrgica e conduz o pós-operatório.
Gastroenterologista
Atua no diagnóstico, na endoscopia e no acompanhamento de sintomas digestivos.
Oncologista clínico
Coordena tratamentos sistêmicos, como quimioterapia, imunoterapia e terapia-alvo.
Radio-oncologista
Avalia a indicação de radioterapia em casos selecionados.
Endoscopista
Ajudam no diagnóstico e em alguns procedimentos terapêuticos, como passagem de sondas de alimentação.
Patologista
São responsáveis pelo preparo e leitura da biópsia, bem como pela realização de imuno-histoquímica e testes moleculares.
Radiologista
São responsáveis pela interpretação de exames de imagem, e esta atividade é às vezes desafiadora.
Nutricionista
Tem papel essencial antes, durante e depois do tratamento, principalmente se houver perda de peso, dificuldade alimentar ou gastrectomia.
Psicologia, enfermagem e suporte social
Ajudam na adaptação emocional, no manejo da rotina e na adesão ao tratamento.
Efeitos colaterais e recuperação durante o tratamento
Efeitos possíveis da cirurgia
Após a cirurgia, podem ocorrer dor, perda de peso, saciedade precoce, refluxo, diarreia e dificuldade de adaptação alimentar. Quando o estômago é retirado total ou parcialmente, o corpo precisa reaprender a lidar com refeições menores e mais frequentes.
Efeitos da quimioterapia
Os efeitos variam conforme o esquema, mas podem incluir náusea, vômito, cansaço, queda de cabelo, diarréia, alteração do paladar, neuropatia periférica e redução das células do sangue.
Efeitos da radioterapia
Pode haver fadiga, irritação local, náusea e desconforto digestivo, dependendo da área tratada.
Nutrição e reabilitação
A vida após gastrectomia exige adaptação. Em geral, o paciente precisa:
- comer pequenas porções várias vezes ao dia
- mastigar bem
- evitar grandes volumes de líquido junto das refeições
- monitorar perda de peso
- avaliar necessidade de suplementação
- acompanhar níveis de vitaminas e oligoelementos, especialmente vitamina B12 e ferro em alguns casos
Também pode ocorrer a chamada síndrome de dumping, quando o alimento passa rápido demais para o intestino, causando mal-estar, suor, tontura, cólicas ou diarreia após comer. Com orientação nutricional, muitos pacientes conseguem melhorar bastante a rotina alimentar.
Câncer de estômago tem cura?
Chances de cura em estágios iniciais
Sim, o câncer de estômago tem cura em parte dos casos, principalmente quando é diagnosticado cedo. Tumores iniciais e localizados têm maior chance de controle definitivo com cirurgia, com ou sem tratamento complementar.
Objetivos do tratamento em doença avançada
Nos casos avançados, nem sempre a cura é possível. Ainda assim, o tratamento pode trazer benefícios importantes, como redução do tumor, melhora dos sintomas, ganho de tempo com qualidade de vida e controle mais prolongado da doença.
Estudos clínicos e novas possibilidades terapêuticas
Quando considerar pesquisa clínica
Estudos clínicos são protocolos controlados que avaliam novos tratamentos ou estratégias ainda não completamente estudadas, podendo ser considerados em diferentes fases da jornada, especialmente quando o paciente tem doença avançada, precisa de novas opções ou busca acesso a terapias inovadoras. As opções de tratamento atuais existem apenas por causa de pacientes do passado que participaram de protocolos de pesquisa.
Como estudos clínicos podem ampliar acesso a novos tratamentos
Além de contribuírem para o avanço da medicina, eles podem oferecer acesso a medicamentos e estratégias ainda não disponíveis de forma ampla. Em caso de dúvida, vale perguntar à equipe se existe algum estudo compatível com o perfil do tumor.
Como decidir o tratamento e o que perguntar ao médico
Receber um diagnóstico de câncer costuma gerar pressa, medo e confusão. Mesmo assim, sempre que possível, é importante entender o plano terapêutico e participar da decisão.
Algumas perguntas úteis para levar à consulta são:
- Qual é o estágio do meu câncer?
- Meu tumor é operável?
- Posso receber um tratamento cirúrgico por endoscopia?
- Vou precisar de quimioterapia antes da cirurgia?
- Meu tumor será testado para quais marcadores moleculares?
- Vou retirar uma parte ou todo o estômago?
- Como ficará minha alimentação após o tratamento?
- O objetivo é cura ou controle da doença?
- Preciso de segunda opinião ou avaliação em centro de referência?
- Existe estudo clínico indicado para o meu caso?
Buscar segunda opinião pode ser especialmente útil quando há dúvida sobre operabilidade, necessidade de tratamento combinado ou indicação de terapias mais modernas.
Acompanhamento após o tratamento
Depois do tratamento inicial, o acompanhamento continua. O objetivo é monitorar recuperação, estado nutricional, possíveis efeitos tardios e sinais de recidiva.
Esse seguimento pode incluir consultas regulares, exames de imagem, endoscopia em situações selecionadas e avaliação laboratorial. Também é o momento de reforçar a cessação do tabagismo, a alimentação equilibrada e o controle de sintomas persistentes.
Perguntas frequentes sobre tratamento do câncer de estômago
Qual é o melhor tratamento do câncer de estômago?
O melhor tratamento do câncer de estômago depende do estágio, do tipo de tumor e das condições clínicas do paciente. Em muitos casos, a combinação de cirurgia e quimioterapia oferece os melhores resultados.
Tratamento do câncer de estômago sempre precisa de cirurgia?
Não. A cirurgia é muito importante na doença localizada, mas pode não ser indicada em tumores muito iniciais tratados por endoscopia ou em casos metastáticos, quando o foco é controle da doença.
Quimioterapia para câncer de estômago vem antes ou depois da cirurgia?
Pode vir antes, depois ou nos dois momentos. A quimioterapia perioperatória, feita antes e depois da cirurgia, é comum nos estágios II e III.
Imunoterapia para câncer de estômago funciona para todos os pacientes?
Não. A imunoterapia para câncer de estômago é indicada para casos selecionados, conforme estágio, tratamento anterior e biomarcadores do tumor.
Radioterapia é indicada no tratamento do câncer gástrico?
Pode ser, mas tem uso mais restrito do que em outros tumores. Ela costuma ser reservada para situações específicas, como complemento terapêutico ou alívio de sintomas.
Câncer de estômago metastático tem tratamento?
Sim. Mesmo quando há metástase, existem opções de tratamento do câncer de estômago para controlar a doença, aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
Câncer de estômago em estágio inicial tem cura?
Em muitos casos, sim. Quando o diagnóstico é feito cedo, as chances de cura são maiores, especialmente com cirurgia adequada.
Como fica a alimentação após a retirada do estômago?
A alimentação após gastrectomia precisa de adaptação, com refeições menores e mais frequentes. O acompanhamento com nutricionista é fundamental para reduzir sintomas e prevenir desnutrição.
O tratamento do câncer de estômago muda se o tumor tiver a expressão de marcadores moleculares, como o HER-2, a Claudina 18.2 ou a instabilidade de microssatélites?
Sim. Tumores que apresentam estas características especiais podem ser tratados com drogas específicas para estas alterações.
Quando buscar segunda opinião no tratamento do câncer de estômago?
Vale a pena buscar segunda opinião quando houver dúvida sobre cirurgia, necessidade de quimioterapia, indicação de imunoterapia, testes moleculares ou possibilidade de tratamento em centro de referência.


