Fotos cedidas.

No mês da mulher, um retrato da presença feminina que transforma a oncologia no Brasil

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A participação feminina na oncologia brasileira cresceu de forma consistente nas últimas décadas, acompanhando a expansão das mulheres na formação em saúde e na pesquisa científica. Essa transformação tem possibilitado importantes conquistas que beneficiam instituições, empresas, governos e mesmo pacientes, como a construção de lideranças mais plurais, maior articulação entre assistência e pesquisa e diversidade de perspectivas na tomada de decisões. 

No Mês da Mulher, o Instituto Vencer o Câncer conversa com três lideranças que vivenciam essa realidade na prática para retratar o cenário construído por mulheres que hoje conduzem estudos clínicos, formam especialistas e ocupam espaços estratégicos em instituições e sociedades médicas. A ideia é mostrar os avanços já consolidados e os desafios que ainda persistem para que haja equidade em reconhecimento e acesso a espaços de maior influência.

“As mulheres exercem um papel central na oncologia brasileira, desde a assistência, passando pela pesquisa, até a formulação de políticas públicas”, avalia a médica oncologista Andreia Melo, chefe da Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico do Instituto Nacional de Câncer (INCA), considerando que esse protagonismo já é evidente em diferentes níveis. 

A oncologista clínica presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) Clarissa Baldotto destaca que a mudança vai além da representatividade numérica. “Esse avanço não é apenas numérico; amplia a diversidade de perspectivas e fortalece a capacidade da oncologia de responder a desafios complexos com mais sensibilidade e visão de futuro.”

Para Juliana Mauri, gerente executiva de Pesquisa Clínica do Instituto Vencer o Câncer, os avanços da participação feminina na oncologia são inegáveis. “Precisamos sempre celebrar, mas também devemos fazer o que ainda falta”. Ela considera que falta empoderar cada vez mais a presença feminina, tanto na validação do que é realizado quanto na consciência de que mulheres também sabem fazer ciência.

Liderança que transforma

Se na base a presença feminina já é consolidada, nos espaços de liderança ela começa a redefinir a própria forma de fazer oncologia no país. Na avaliação de Andreia Melo, essa transformação é visível tanto na assistência quanto na pesquisa e na gestão. “Na prática clínica, as mulheres são protagonistas no cuidado integral, fortalecendo um modelo centrado no paciente, com ênfase em comunicação clara, adesão terapêutica e abordagem multidisciplinar.”

No mês da mulher, um retrato da presença feminina que transforma a oncologia no Brasil

Esse modelo, acredita, não apenas qualifica o cuidado, como influencia a forma como decisões são tomadas. Ela considera que a presença feminina tem impulsionado formas de governança mais colaborativas e uma agenda mais sensível às desigualdades regionais e sociais. “Mais do que ampliar representatividade, as mulheres vêm redesenhando o padrão de liderança na oncologia brasileira, com impacto direto na qualidade assistencial, na inovação e na sustentabilidade do sistema de saúde”.

No campo da pesquisa, esse protagonismo também se fortalece. “A pesquisa é uma das missões do Instituto Nacional de Câncer, além da assistência, ensino, prevenção e vigilância para o controle do câncer no Brasil. No INCA, várias mulheres pesquisadoras lideram e participam ativamente de estudos epidemiológicos, clínicos e translacionais, coordenam linhas de pesquisa em prevenção, rastreamento e avaliação de novas tecnologias.” A atuação é particularmente estratégica na produção de evidências alinhadas ao perfil epidemiológico brasileiro, na análise de desigualdades regionais e no desenvolvimento de estudos que dialogam com as necessidades reais do sistema de saúde.

Ainda assim, ela cita que ainda existem desafios, em diferentes esferas. Aponta que há os desafios estruturais, com sub-representação feminina em cargos de alta liderança, desigualdade salarial, menor acesso a redes estratégicas de colaboração e distribuição desigual de recursos de pesquisa. “Embora haja avanços, mulheres ainda lideram proporcionalmente menos, têm menor visibilidade internacional e recebem menos fomento”. Acrescenta ainda desafios no campo cultural, com vieses inconscientes na avaliação de competência e produtividade, e também no acesso à pesquisa, com financiamento insuficiente com recorte de gênero, falta de programas estruturados de patrocínio de carreira, escassez de políticas claras de diversidade e ausência de métricas transparentes para monitorar equidade.

“É necessário avançar de uma simples presença das mulheres para uma influência estruturada”, afirma. Andreia Melo considera que isso passa por políticas institucionais, acesso equitativo a financiamento, participação em redes colaborativas e maior presença em espaços decisórios. “Superar esses obstáculos exige ações coordenadas, desde governança institucional com metas objetivas até redes formais de apoio e critérios mais equitativos de avaliação, para que a presença feminina se converta, efetivamente, em influência, liderança e impacto científico sustentável.”

Do avanço à equidade

Na Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica a presença feminina já é realidade em toda a cadeia da oncologia — da assistência à formulação de diretrizes e à liderança institucional. “Hoje, as mulheres têm um papel estratégico na oncologia brasileira, em toda a cadeia do cuidado. Estão na assistência direta, na coordenação de equipes, na formação de novos especialistas, na pesquisa clínica e translacional, na elaboração de diretrizes e, cada vez mais, na liderança de instituições e sociedades médicas”, afirma a presidente da entidade. Ela própria é a quinta mulher a ocupar o cargo, sendo que as três últimas gestões foram lideradas por mulheres.

No mês da mulher, um retrato da presença feminina que transforma a oncologia no Brasil

Clarissa Baldotto ressalta que na pesquisa, a atuação feminina é considerada indispensável. “As pesquisadoras brasileiras participam da construção de evidências em estudos clínicos, pesquisas acadêmicas, projetos multicêntricos, educação médica. Elas têm contribuído tanto na geração de conhecimento quanto na tradução desse conhecimento para a prática clínica.”

Apesar disso, os obstáculos persistem e são reconhecidos como estruturais. “Muitas mulheres seguem enfrentando uma progressão profissional mais lenta para cargos de liderança, menor visibilidade institucional, assimetrias no reconhecimento de mérito e obstáculos para conciliar alta produtividade acadêmica e assistencial com responsabilidades pessoais e familiares.”

A saída, segundo a presidente da SBOC, é a abordagem desse tema de forma estrutural, com políticas institucionais mais maduras, critérios transparentes de progressão e ambientes profissionais mais equitativos. “A SBOC reconheceu essa realidade ao desenvolver uma agenda específica para compreender e enfrentar desigualdades de gênero na oncologia.”

Ela acredita que equipes mais diversas tendem a produzir discussões mais completas, ambientes mais colaborativos e soluções mais aderentes à realidade dos pacientes e dos serviços de saúde. Além disso, lembra que ampliar a participação feminina nos espaços de decisão impacta diretamente a formulação de políticas públicas. “Quando há mais pluralidade nos espaços de decisão, as políticas tendem a refletir melhor a realidade do país, as desigualdades regionais, as necessidades dos pacientes e os desafios concretos dos profissionais.”

A SBOC tem buscado contribuir com esses avanços com ações objetivas. A Sociedade mantém um Comitê de Lideranças Femininas, criou o Prêmio SBOC de Protagonismo Feminino e desenvolveu iniciativas como a pesquisa sobre liderança feminina na oncologia, o guia de liderança e o projeto Mulheres em AntecipAÇÃO. “Esses esforços são importantes porque produzem diagnóstico, visibilidade e mobilização. Além disso, a SBOC vem ampliando o diálogo com diferentes regiões do país por meio de seus representantes regionais, fortalecendo educação continuada, pesquisa, formação e participação institucional. O objetivo é que a presença feminina cresça não apenas em número, mas também em influência.”

Avanços dependem de mudanças culturais

A presença feminina na oncologia brasileira se consolidou primeiro na base. Hoje, em muitos casos as mulheres são maioria em cursos como medicina, biomedicina, farmácia e biologia — áreas que sustentam a pesquisa oncológica. Esse movimento se reflete tanto nas universidades quanto nos centros de pesquisa clínica, onde cresce o número de mulheres à frente de estudos e publicações científicas. “Identificamos um aumento do empoderamento das mulheres como investigadoras principais dos estudos clínicos e até mesmo nas publicações”, diz Juliana Mauri.

No mês da mulher, um retrato da presença feminina que transforma a oncologia no Brasil

Ainda assim, avalia, a equidade plena não foi alcançada, especialmente nos cargos de maior liderança científica. “Eu acho que estamos crescendo, ganhando notoriedade e representatividade técnica, com embasamento técnico e não só pelo fato de ser mulher.”

No Brasil, esse cenário tem contornos próprios. A diversidade genética da população, a estrutura de centros de pesquisa e a alta incidência de câncer de mama tornam o país um campo relevante para a pesquisa oncológica. Nesse contexto, a presença feminina não apenas cresce, como ela se torna indispensável para o funcionamento do sistema.

Mas, para além dos números, Juliana Mauri destaca que o principal desafio permanece cultural. “É precisa haver uma mudança na sociedade, promover o entendimento de que as competências técnicas independem de gênero”. Para ela, ampliar a visibilidade das mulheres na ciência é parte essencial desse processo: “Precisamos mostrar mais a atuação feminina na oncologia, garantir mais espaços para as mulheres falarem e demonstrarem o que sabem, para que as pessoas entendam que as competências independem de gênero, que a mulher é capaz de ser cientista, de ser protagonista de estudos clínicos, de acolher o paciente da forma que deve ser acolhido e que pode gerenciar todos os processos com qualidade.”

Texto de Vivi Griffon

Publicação: 25/03/2026 | Atualização: 25/03/2026

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