Dia a Dia do Paciente / Efeitos Colaterais

Valéria Hartt

Publicado em 22/09/2014

Revisado em 21/06/2019

A sexualidade depois do câncer de próstata

Carmita Abdo é nome de referência em estudos sobre a sexualidade. Médica psiquiatra, ela fundou e coordena o ProSex (Programa de Estudos em Sexualidade) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, e liderou um dos mais abrangentes estudos sobre o comportamento e as dificuldades sexuais do brasileiro, realizado em 2000 e ampliado em 2003. Em 2008, Carmita esteve à frente da pesquisa Mosaico Brasil, que mapeou o comportamento afetivo-sexual do brasileiro, e é com essa autoridade que ela fala sobre sexualidade no tratamento do câncer de próstata.

A sexualidade é um tema que preocupa o homem com câncer de próstata. Que mensagem é preciso dar a esse paciente?

A primeira coisa que é preciso dizer ao homem que tem problemas depois do câncer de próstata é que muitos outros homens sofrem com a disfunção erétil e isso tem tratamento. É um problema que acomete 46% da população masculina no Brasil, em diferentes níveis. Aos 70 anos, 13% dos homens não têm ereção e esses níveis são crescentes a partir desta idade. Então, o homem precisa entender que esse é um problema de saúde pública, que é uma condição muito frequente e que tem tratamento. [relacionados]

Ele precisa saber que hoje o tratamento sistêmico está bastante avançado. A disfunção erétil, antes chamada impotência, é uma das disfunções mais estudadas. Hoje, existem diversos recursos, desde comprimidos, até aparelhos, exercícios e como última alternativa a proposta da prótese. O homem que tem preconceito contra a sua própria condição negligencia o tratamento. É preciso saber o que está acontecendo. Isso pode acontecer após uma cirurgia para o câncer de próstata e ter razões físicas, mas também pode ser uma condição emocional, porque ele está abalado emocionalmente com o tratamento do câncer, ou, quem sabe, a sua parceira não está tão interessada em retomar a vida sexual. Tudo isso se reverte em falha de ereção. Então, quando este homem conversa com um profissional, passa a entender exatamente o que está acontecendo e a conhecer as opções disponíveis. Aí, tudo fica mais fácil. Ele não tem que ter vergonha de comentar o assunto com seu médico, nem com a parceira. Às vezes, ela também precisa de tratamento. É uma mulher que pode estar na menopausa, que pode ter incontinência urinária ou dor durante a relação sexual por atrofia da mucosa da vagina, que é presente na fase pós-menopausa. Tudo isso pode estar acontecendo ao mesmo tempo e não é só a cirurgia da próstata ou o tratamento do câncer. Todos esses aspectos também precisam ser contemplados.

Depois do recado para o paciente com câncer de próstata, o que dizer para a parceira?

A mulher é muito importante, inclusive para dar a efetiva dimensão do que está acontecendo com a sexualidade deste homem. Ele costuma superestimar o problema e ela percebe que a dificuldade não é tão séria assim e nem incomoda tanto. Quando ele sabe que ela vai ter paciência, vai colaborar, fica mais fácil. Eu insisto sempre que ela colabore. Às vezes, a mulher está em um momento da vida quando já não se sente tão interessada em sexo. Mas se ela colabora, ela contribuiu para o humor deste homem e com a disposição dele para várias outras áreas da vida que acabam afetadas quando o sexo não está contemplado. É importante a mulher saber que para o homem o sexo continua sendo primordial, mesmo com o envelhecimento. Ela precisa entender esse momento e as alternativas para continuar sendo a parceira sexual deste homem, assim como ela é a parceira no dia a dia e a parceira no tratamento da doença.

E as terapias sexuais, como ter acesso a essa forma de tratamento?

Hoje, alguns serviços estão colocados à disposição da população e eu coloco à disposição o ProSex, do Hospital das Clínicas, que é gratuito, atende homens e mulheres e o telefone é 2661 6982. É só marcar consulta, o atendimento é interdisciplinar com médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e tudo isso de forma gratuita. Certamente é possível encontrar outros serviços de apoio, normalmente ligados às universidades, e o mais importante é saber que esse tratamento existe e está à disposição.