Por dez anos Alexandra Machado, 49 anos, viveu o sonho da sua vida, que era morar em Orlando, nos Estados Unidos. A separação e uma proposta de trabalho fizeram-na voltar ao Brasil, por volta de 2012, para Minas Gerais. Usando o carro emprestado de amigos, donos de uma casa de câmbio, acabou envolvida por engano em uma tentativa de sequestro de uma quadrilha de tráfico humano. Precisou fugir e voltou para sua cidade natal, Santos, em São Paulo.
A ideia era reorganizar a vida e retornar para os EUA. Estava com a passagem comprada e decidida a não se envolver em nenhum relacionamento, quando ele apareceu. Começou a conversar enquanto ela levava a cachorrinha para passear na praça. “Percebi que ele ia na mesma hora que eu. Comecei a mudar os horários, porque minha ideia não era me envolver com ninguém. Quando minha mãe levava a cachorrinha, ele conversava com ela, dizia que estava apaixonado por mim”.
Ele insistiu em uma chance de se conhecerem. Começaram a se encontrar e ele a foi cativando com carinho e gentilezas. “Ele mexeu em uma coisa que eu não tinha pensado, de que minha mãe poderia começar a precisar da minha ajuda e eu estaria longe. Dizia que adorava muito a minha mãe”, recorda o que a fez ir se envolvendo e mudar os planos.
Passagem adiada, ela investiu na relação. Não gostava quando ele ficava irritado com coisas do trabalho, porque gritava, atirava coisas longe — se desculpava e explicava que vivia sob estresse —, mas com ela nunca levantava a voz. Em fevereiro de 2015 chegou o pedido de casamento romântico, com o anel dentro do bolo de aniversário dele, e os noivos começaram a organizar o casamento, programado para dezembro.
Meses depois, em agosto, deitada na cama conversando com a mãe, sentiu algo estranho no seio, dolorido. Precisou insistir com o mastologista, que dizia ser uma íngua, para fazer a biópsia que traria seu diagnóstico de câncer de mama. Encaminhada para o Hospital Pérola Byington, começou o tratamento. “Para mim foi tudo muito rápido, conversei com ele, disse que não queria mais casar, precisava ver como iria ficar. Ele ficou bravo, mas depois aceitou”.
Depois da cirurgia ficou com uma cicatriz que vai até as costas. “Aquilo mexeu um pouco comigo, mas eu estava feliz por saber que tinha chances de viver”. Em janeiro começaram as quimioterapias.
A 15ª sessão foi no dia do aniversário do noivo, e os cabelos começaram a cair. Ela sentia-se fraca e com mal-estar. “Ele disse que chamaria apenas umas dez pessoas em casa e que seria bom para eu me distrair. Quando contei que meu cabelo começou a cair, ele falou: ‘Pô, você quer atrapalhar tudo na minha vida?’. Acho que foi o primeiro momento que eu me desesperei mais, depois do impacto do diagnóstico, porque achava que não ia acontecer nada. Eu ajoelhei no chão e falei: Deus, por que você está fazendo isso comigo? Meu cabelo caindo, eu vou ficar muito feia”.
O noivo ligou de volta pedindo perdão e disse que iria buscá-la para a festa, mesmo com ela insegura por conta do cabelo. “Ele raspou o meu cabelo e o dele. Achei muito legal. Ele foi ovacionado pela atitude na festa, que no fim reuniu 80 pessoas. Eu fiz maquiagem, botei um lenço; não estava feia, mas não me sentia bonita”.
O Carnaval estava chegando e ele queria trocar a moto de corrida por uma maior. Combinou com ela de pegar o valor na conta conjunta, da parte reservada para a entrega das chaves do apartamento em construção que eles tinham dado entrada, e disse que venderia a moto quando entregassem a chave. Ele dizia que precisava espairecer a cabeça porque não gostava de vê-la assim.
Chegava o dia da corrida, véspera de Carnaval, ambos estavam deitados na cama. Alexandra perguntou se ele queria ir à praia. “Olha o sol que está lá fora e eu estou aqui dentro com você. Quem está doente é você, não sou eu”, respondeu. Ela sugeriu que ele fosse, então, e pediu que a deixasse na casa da mãe, para não ficar sozinha. Bravo, ele a pegou e levou para a frente do espelho. “O que você está vendo?”, perguntou. Ela respondeu brincando. “Uma tartaruga, sem cabelo e esverdeada, e um urso panda, porque não durmo e estou com muitas olheiras”. Em resposta, ele afirmou: “você é tudo isso, menos uma mulher”.
Ele continuou, abaixando a alça do pijama dela: “E agora, o que você está vendo?”. “Uma cicatriz, a cicatriz da vitória, que me deixou viva”, respondeu Alexandra. Ele atacou ainda mais: “Não, isso aí é uma coisa para mostrar que você não é mais uma mulher, você está mutilada. Quem é o homem que vai olhar para você? Nenhum homem vai olhar para você e as mulheres vão te olhar com pena. Você sabe, mulher é cruel. E eu não quero uma mulher doente na minha vida. Não quero ter que carregar isso comigo. Eu sou novo, bonito, saudável, posso ter uma família, você não pode mais me dar uma família. Você é seca”. Alexandra estava confusa, não entendia se era sério ou brincadeira.
Os ataques verbais continuaram, ele a pegou pelos ombros e balançou. Dizia que não ia bater porque tinha nojo dela, não queria encostar nela. Mandou que fosse embora, avisou que não sabia mais o que seria capaz de fazer, passou a empurrá-la com o capacete enquanto ela, desnorteada, fraca, tentava pensar o que fazer. Já na porta, queria voltar para se trocar, ele avisou que se tivesse que tocar nela de novo seria para empurrar escada abaixo. Ela foi para a rua vestida de pijama, com suas coisas em duas sacolas de supermercado.
No dia seguinte ele ligou pedindo perdão, dizendo que a amava, queria que ela voltasse, mas Alexandra precisava de distância, usar sua energia para cuidar de si. Ele continuou telefonando e pedindo para voltar, ela respondendo que não voltaria. “Disse para ele ir viver a vida, e quando terminasse o tratamento conversaríamos. Ele começou a dizer que eu realmente não era mulher, que ficaria inválida e falou coisas piores”.
Como ela o bloqueou, ele passou a ir até a portaria do prédio fazer escândalo. “Ele buzinava, gritava, dizia que me amava”. Um dia pediu para o porteiro chamar e avisou que queria falar sobre o apartamento comprado em conjunto.
Combinaram que ele a levaria de Santos para a fazer a quimioterapia em São Paulo e conversariam pelo caminho. Quando já estava quase chegando, Alexandra puxou o assunto, perguntou se ele já tinha resolvido vender a moto. “Cala a boca e eu não quero ver uma lágrima, você sabe o que eu vou fazer com você se começar a chorar”, foi a resposta.
No hospital, na frente das enfermeiras, ele se mostrava atencioso, preocupado com ela: “cuida dela, ela é o meu tesouro, a mulher da minha vida’.” Durante a quimioterapia ela tentou ligar para a irmã e para a mãe, estava com medo de voltar com ele de carro, mas ninguém atendeu. Quando ela se ofereceu para pagar o pedágio, ele ficou furioso novamente, dizendo que não precisava dela. “Eu tenho pena de você, porque você vai morrer”, disse ele.
Já na porta do prédio, Alexandra tirou a aliança de dentro da bolsa, devolveu a ele e avisou que a partir daquele momento ele conversaria com o advogado dela para acertar a divisão dos valores. Ele ligou o carro, abriu a porta e a jogou para fora. No elevador ela desmaiou, foi socorrida pela vizinha que cuidou dela até que se sentisse melhor para voltar para a casa.
Ele ainda tentou fazer contato, ficou um tempo passando na frente do prédio e buzinando. A situação se estendeu por três meses. Um dia ele tocou o interfone, mas antes que ele começasse a falar, ela avisou: “não precisa falar nada, eu sei o que você quer ouvir. Vai viver a tua vida, esquece do dinheiro. Estou comprando a minha paz”. Ele desligou o telefone e parou de perturbá-la.
Alexandra ficou quase dois meses na casa da tia em São Paulo para fazer as radioterapias, e sentia-se revigorada andando pela Avenida Paulista. Voltou a Santos, a vida começou a retomar seu rumo. Um dia estava no supermercado e encontrou uma amiga do ex, que morava próximo. A mulher foi falar com ela, disse que tinha um vídeo que ele mandou pedindo para mostrar quando a encontrasse, e que ela não tinha assistido. “No vídeo ele falava: ‘você está vendo onde eu estou? Eu construí uma família. Isso aqui você nunca vai ter. Olha o lixo que você é, não pode nem ser mãe’. Ele mostrou uma mulher novinha, magra, de cabelo bem comprido, com uma barriguinha de grávida. No fim do vídeo ele disse que se eu não morrer, vou sobreviver vendendo paçoca no semáforo”. Ela saiu desnorteada.
Levou meses até conseguir se olhar no espelho. “Existia uma mulher que não era uma mulher, que não conseguia se olhar no espelho, porque alguém falou que ela não era mais uma mulher. Demorou até conseguir retomar a vida.
Começou a fazer terapia e conseguiu um trabalho em cruzeiros de temporada. Começou a viajar. Voltar a ter relação foi um desafio maior. Ela se perguntava como ia mostrar seu peito, se sentia um Frankstein. Aos poucos recomeçou a se cuidar mais e até conseguiu voltar a se relacionar. Já se passaram muitos anos, e ela segue aprendendo a cultivar seu autoamor.
Texto de Vivi Griffon







