“É só cabelo, depois cresce.” “É só uma mama, importante é que você está viva.”
Essas são algumas das frases mais ouvidas por mulheres que vivenciam uma jornada de câncer. Muitas vezes não são críticas; elas têm intenção de amparar e motivar. Infelizmente o efeito costuma ser o contrário, e machuca, principalmente porque mexem com aspectos tão essenciais da feminilidade.
O diagnóstico de câncer já é marcado por tantas perdas, seja a perda da inocência do que é conviver com a doença ou da falsa sensação da imortalidade. E muitas ainda precisam lidar com rejeições e julgamentos que abalam a ideia de ser admirada, desejada e reconhecida como mulher.
Apesar da trajetória desafiante, em algum ponto acontece a virada, não porque a frase certa chegou, mas porque a mulher se reencontra. Às vezes conquistando uma nova voz, novos amores e até redescobrindo a si mesma.
No Mês Internacional da Mulher, o Instituto Vencer o Câncer traz três relatos de mulheres que vivenciaram e seguem vivendo essa redescoberta, para inspirar outras mulheres que convivem com o diagnóstico oncológico e para lembrar que não é só uma mama, nem só um cabelo ou só uma paciente. É uma mulher!
Conheça as histórias:
“Sua cicatriz não é comercial, ela não vende nosso produto. As pessoas não vão
querer comprar uma peça em que o peito da modelo está remendado”. A modelo,
comunicadora e palestrante Gi Charaba conta os impactos do diagnóstico e
tratamento na carreira.
>> Conheça a história da Gi Charaba
“As pessoas ficam falando que cabelo cresce, não entendem que para nós é uma
coisa muito dolorida. Quando uma coisa é tirada da gente contra a vontade, fica
mais dolorido”. Caroline Okumura fala sobre vaidade, relacionamentos e reencontros.
>> Conheça a história da Caroline Okumura
“Você não é mais uma mulher, você está mutilada. Quem é o homem que vai olhar
para você?” Alexandra Machado relata como redescobriu a importância do
autocuidado e do amor que cada mulher deve ter por si mesma.
>> Conheça a história da Alexandra Machado
Reconhecer e nomear o sofrimento é o primeiro passo para se reconstruir
Durante o tratamento oncológico, muitas mulheres enfrentam um sofrimento que não vem apenas da doença, mas das relações ao redor. O contexto de fragilidade durante a jornada oncológica amplifica o impacto de ações que, muitas vezes, mascaram diferentes formas de violência — sejam físicas ou psicológicas.
A saída desse lugar de sofrimento começa, segundo Daniela Marques Farina, psicóloga clínica especialista em Psico-Oncologia e membro do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, pela capacidade de reconhecer e nomear o que aconteceu. Muitas das violências vividas por mulheres com câncer não aparecem de forma explícita. “Tudo aquilo que viola, que ultrapassa um espaço pessoal, a identidade e a privacidade, pode ser considerado como uma violência”, afirma. No caso da violência psicológica, pode surgir em falas que humilham, minimizam a dor ou tiram a legitimidade da experiência da paciente.
Quando esse tipo de agressão não é identificado, o impacto emocional tende a se aprofundar. A mulher pode perder o interesse por atividades e relações, se afastar das pessoas, sentir a autoestima abalada e passar a duvidar de si mesma. Para a especialista, é importante perceber quando o sofrimento já está afetando a forma como a mulher se vê e se posiciona no mundo.
A partir daí, o caminho é buscar vínculos e espaços que ofereçam acolhimento e escuta. “As pacientes precisam buscar vínculos que tragam essa sensação de pertencimento e segurança”, diz. Esse suporte pode vir de pessoas próximas, de grupos com outras pacientes e também de acompanhamento especializado em saúde mental, muitas vezes disponível na própria instituição onde o tratamento é feito.
Outro ponto central é reconstruir a autoestima para além da aparência. “Se não há uma boa autoestima, se a paciente não tem um bom autoconceito, essas ações podem desestimular a adesão ao tratamento”, explica. Ao entender o que é percepção própria e o que foi imposto por falas ou ações violentas, a mulher começa também a recuperar sua identidade para sair do lugar de dor e reconstruir, aos poucos, uma nova forma de estar no mundo.







