Câncer / Notícias

Viviane Pereira e Fernanda d´Avila

Publicado em 12/08/2021

Revisado em 12/08/2021

Oncologia: saúde de qualidade para mulheres e homens se faz com informações e dados

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“Só conseguimos traçar um real cenário da saúde com dados”. Com essa afirmação, o oncologista Fernando Maluf, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer, deu início à sua participação na 6ª edição do Fórum Big Data em Oncologia – O Câncer não Escolhe Sexo, realizado  em 13 e 14 de julho pelo movimento Todos Juntos contra o Câncer. O evento virtual contou com debates e apresentações de estudos referentes às neoplasias femininas e masculinas.

A presidente da Abrale – Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia, Merula Steagall, ressalta a importância das informações para analisar os resultados das ações implementadas e promover mais melhorias. “Somente através de estudo de indicadores podemos entender quanto o nosso trabalho de fato impactou”, diz. Foram convidados para o fórum diversos atores que trabalham na Oncologia, para promover iniciativas colaborativas que possibilitem aprimorar a política nacional de controle do câncer. “Para melhorar tem que saber como está a situação, conhecer os indicadores do câncer no Brasil”.

 

Câncer de pulmão

Com base em levantamento do Observatório da Oncologia, a gerente de comunicação, ensino e pesquisa da Abrale, Denise Pires Martins, mostrou o cenário da doença que é o segundo câncer mais frequente e a primeira causa de morte por câncer em todo o mundo, avaliando o atendimento hospitalar e ambulatorial dos pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS) e a tendência da mortalidade no país.

Apesar de ser o quarto tipo mais comum no Brasil, é a principal causa de mortalidade por neoplasias, causando mais de 28 mil óbitos em 2018, segundo o Datasus (2020). É considerada uma das principais causas de morte evitáveis, já que o tabagismo e a exposição ao tabaco são um importante fator de risco, relacionado a 85% dos casos desse tumor. Como o rastreio é difícil e o diagnóstico complexo, geralmente é descoberto em estadio avançado, o que dificulta o sucesso do tratamento.

O levantamento utilizou três bases de dados do SUS: Registro Hospitalar de Câncer (RHC) do Inca, entre 2014 e 2018; Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA), entre 2015 e 2019; e Sistema de Informações Hospitalares (SIH), entre 2015 e 2019.

Uma das principais observações foi a dificuldade de analisar os dados no país, com variação no número de pacientes de acordo com a base utilizada.

casos de câncer de pulmão no mundo

 

Denise explica que esses são registros do sistema público e que a estimativa é que 25% da população seja atendida no sistema privado, mas não há disponibilidade dessas informações. Outro obstáculo é o grande volume de dados não preenchidos.

No RHC, de 2014 a 2018, houve 56.534 pacientes diagnosticados, sendo 24.888 (81%) fumantes ou ex-fumantes e 46% dos registros não têm essa informação. “Reforça o que já se sabe sobre o uso de tabaco para o câncer de pulmão”, avalia a gerente de comunicação. Entre os pacientes, 57% são homens e mais de 90% têm acima de 50 anos.

Um dos objetivos do levantamento é avaliar a observância da obrigatoriedade do prazo de 30 dias entre a consulta com o especialista e o diagnóstico. Entretanto, mais da metade dos registros (51%) não possui esses dados; entre as informações disponíveis, um terço (31%) receberam o diagnóstico depois de um mês, limite estabelecido pela legislação.

Para o início do tratamento a determinação legal é de até 60 dias desde o diagnóstico: em 27% não constava essa informação e 34% dos pacientes começaram o tratamento após esse limite.

Uma das grandes preocupações quando se trata de câncer de pulmão é o diagnóstico em estágio avançado, o que ocorreu em 86% dos registros válidos – 44% não tinha essa informação ou estava preenchida incorretamente.

No SIA, de 2015 a 2019, foram 64.674 pacientes únicos com câncer de pulmão, 56% do sexo masculino e 86% diagnosticados tardiamente. Pelo registro do SIH, de 2015 a 2019 foram atendidos 79.249 pacientes, com 27% de óbitos hospitalares.

O sistema SIM-SUS registrou 135.375 óbitos pelo tumor de 2014 a 2018, com diferença na tendência de crescimento nas mortalidades entre homens e mulheres. Denise chama atenção para o fato de que enquanto nos homens as taxas de mortalidade apresentam queda, ela é crescente entre as mulheres, com aumento médio de 2,5% ao ano.

Taxas de óbitos por câncer de pulmão

 

Reforço das ações contra o tabagismo

Nas considerações finais, a gerente de comunicação ponderou que com o grande índice de diagnóstico associado ao consumo de tabaco, acredita-se que políticas antitabagistas e educação em saúde poderiam reduzir a carga da doença. “É urgente também termos um registro único e nacional de câncer, com dados nacionalizados que permitam a tomada de ações de saúde com base em informações corretas”, conclui.

“Percebemos que existe um gap grande entre os sintomas, o diagnóstico e o tratamento da doença, que já é grave mesmo com um sistema funcionando bem”, afirma Maluf. Comentando a piora nos índices femininos, o oncologista reforça a necessidade de continuar trabalhando e investindo em câncer de pulmão e campanhas contra o tabagismo. “As campanhas tiveram êxito, são motivo de orgulho as ações antitabaco promovidas no país. Precisam envolver vários grupos, para alertar as mulheres, que estão numa curva diferente dos homens”.

 

Câncer de próstata

André Marques apresentou dados sobre câncer de próstata do Radar do Câncer, desenvolvido em parceria com o Instituto Oncoguia. Um dos aspectos em destaque foi o impacto da Covid-19 na realização do exame PSA (dosagem de Antígeno Prostático Específico), que teve diminuição de 29,04% nos meses de março a dezembro de 2020 na comparação com 2019. A maior queda foi no mês de maio, com 66%.

O levantamento mostrou as variações dos índices de estadiamento pelo país, com dados de pacientes que iniciam tratamento nos estadios III e IV, que chega a 77% em Roraima, o maior índice, e fica em 40% no Amapá, menor índice.

Estadiamento do Câncer de Próstata no Brasil

 

A faixa etária com maior número de casos é entre 70 e 74 anos, seguida de 65 a 69 anos e 75 a 79 anos. Quanto à raça/cor, mais de 174 mil são brancos, 107 mil pardos, 28 mil pretos, 7 mil amarelos e 107 indígenas. Marques questiona se os índices indicam uma realidade da doença ou das dificuldades de acesso.

Enquanto São Paulo tem o maior número absoluto em mortalidade, devido à grande população, na taxa por 100 mil habitantes o Rio Grande do Sul fica em primeiro lugar, com 250,7. Esses índices de morte, avalia Marques, ajudam a entender os locais em que há maior necessidade de atenção. Ele ressalta a taxa de 22% de óbitos em idade prematura.

“Nós somos um dos poucos países do mundo em que a mortalidade por câncer de próstata aumenta”, lamenta Maluf. Cita pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) demonstrando que se o homem é negro e atendido pelo SUS a chance de ser diagnosticado com doença metastática aumenta de três a quatro vezes em comparação com um caucasiano que tem convênio médico.

O oncologista aponta uma oportunidade de melhoria, considerando que é um tumor triável e de evolução mais lenta. “Outro ponto importante é o número absurdo de homens com doença curável que são tratados paliativamente. Não temos estrutura suficiente para tratar os casos diagnosticados, isso porque ainda não fazemos rastreamento populacional; temos um rastreamento oportunista. As pessoas chegam atrasadas e mesmo com chance de cura recebem cuidados paliativos”.

 

Câncer de cólon e reto

As diferenças entre homens e mulheres nos cuidados de saúde no câncer de cólon e reto foram objeto de um levantamento feito pelo Moka, através de uma iniciativa do Grupo de Trabalho de Dados do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer. O tumor acomete em proporção semelhante homens (49,9%) e mulheres (50,1%), com estimativa do Inca de 41 mil novos casos a cada ano no triênio de 2020 – 2022.

Fundadora do Moka, Fernanda Mussolino apresentou os resultados, que contou com dados do IBGE, SIA-SUS, SIH-SUS, Mapa Assistencial ANS, Pesquisa Inquérito Populacional, SIB ANS e Inca.

Uma das constatações foi de que quanto mais avançada a faixa etária, maior a incidência em mulheres, com aumento a partir dos 40 anos: de 0 a 19 anos as mulheres representam 49% dos casos; de 20 a 39 anos, 50%; de 40 a 49, 51%; de 50 a 59 anos, 52%; de 60 a 69, 53%; de 70 a 79 anos, 56%; e acima de 80 anos passam a ser 63%. Para Fernanda, esse resultado pode se dar em função da maior mortalidade masculina e em idade mais jovem.

No que diz respeito às consultas médicas na atenção básica, embora os homens sejam 49% da população, eles representam 36% das consultas. Essa diferença é maior na faixa de 20 a 49 anos, com as mulheres fazendo cerca de 69% das consultas.

Na atenção especializada a diferença diminui, mas ainda não se equipara à divisão populacional: os homens somam 49% da população e fizeram 41% das consultas nessa modalidade. Com a pandemia houve redução de 32% nas consultas de atenção especializada no SUS.

Quanto à idade, nas faixas etárias mais extremas o percentual de homens realizando consultas na atenção especializada é maior do que a proporção populacional.

homens realizando consultas em especialistas por faixa etária

 

“Vemos que os meninos dos 0 aos 9 anos, que são 51% da população, proporcionalmente fazem mais consultas (56%), o que deixa um espaço aberto para reflexão”, avalia Fernanda. “O mesmo acontece acima de 70 anos e mais ainda a partir de 80 anos, com um índice maior de consultas do que a proporção na população, o que pode demonstrar que os homens postergam a busca por especialista”.

Em resposta à pergunta “Você foi ao médico nos últimos 12 meses”, 72% das mulheres responderam que sim, e 61% dos homens. Na resposta à questão sobre ter feito exames no mesmo período, o sim aparece em 77% das mulheres e 73% dos homens.

Foi bastante semelhante a proporção entre homens e mulheres que fizeram colonoscopia no sistema privado (63% mulheres, 37% homens) e no SUS (62% mulheres, 38% homens). A discrepância se evidencia na comparação entre os serviços, considerando a quantidade desses exames realizados em 2019, com o SUS representando 33% do total e o sistema privado 67% – ao todo, foram 1,2 milhões de colonoscopias. “O volume no privado é duas vezes maior do que no SUS, sendo que a população que depende exclusivamente do SUS é três vezes maior”, acrescenta a fundadora do Moka. No SUS, 86% das colonoscopias são realizadas em ambiente ambulatorial e 14% hospitalar. No ambiente ambulatorial, 62% são mulheres e no hospital esse índice é de 51%.

A maior parte das colonoscopias ambulatoriais foi realizada por pacientes de 40 a 79 anos – sendo que as mulheres predominam nas faixas etárias menores e os homens nas maiores.

colonoscopias realizadas por faixa etária

 

Apesar de as mulheres fazerem mais colonoscopias (62% x 38% homens), esses índices não se refletiram no tratamento de quimioterapia, que teve proporção equivalente à incidência da doença, de 50%.

Fernanda trouxe ainda dados quanto à faixa etária nos tratamentos e informações sobre as internações. Nas conclusões, afirmou que a redução das consultas em função da pandemia afetou igualmente homens e mulheres.

 

Oportunidades de melhoria

O epidemiologista Alfredo Scaff, médico consultor da Fundação do Câncer, salientou a necessidade de construir estratégias e ter clareza do que se busca nas bases de dados. Ele acredita que as lacunas se devem principalmente às dimensões do país e que os dados, mesmo que de três anos atrás, podem ser bastante úteis para estruturar políticas de câncer. “Não precisa ter informações de 220 milhões de pessoas. Os registros de câncer de base populacional são imprescindíveis para essa política. Criticamos demais os dados, mas temos que saber usar o máximo possível essas bases”, diz, acrescentando, entretanto, que o objetivo deve ser ter registros cada vez melhores. “Os trabalhos apresentados foram importantes no sentido de tentar esgotar o que o conjunto de dados pode nos dizer desses tumores”.

Scaff cita a necessidade de ter informações disponíveis sobre os resultados dos hospitais privados também, para que informem a performance nos tratamentos, tempo de sobrevivência e mortalidade. “Precisamos saber o hospital que entrega a melhor sobrevida. Essa informação não existe. O sistema tem prontuários eletrônicos, estrutura de informação e os hospitais privados poderiam utilizar de forma mais assertiva para dar informação pelo menos de um ano para outro, para sabermos como está funcionando aquele serviço de saúde”, opina. “No estado de São Paulo os hospitais privados que atendem câncer informam voluntariamente seus casos no RHC. Por que só em São Paulo? O Brasil inteiro deve fazer isso. Precisamos ter informação o mais atualizada possível”.

Para Fernando Maluf, os dados apresentados trazem oportunidades para avanços e melhorias no cenário de câncer no país. “Sem dados não conseguimos estabelecer uma estratégia ideal, uma estratégia inteligente”, avalia. “Temos falta de programas de rastreamento e em alguns estados isso é ainda mais importante. Há um grande problema de desperdício, em parte por falta de boas diretrizes em um sistema descentralizado com mais de cinco mil municípios. O Brasil precisa criar centros de excelência para algumas doenças”. O oncologista considera que uma das soluções é trabalhar a tecnologia, para leitura de mamografias e lâminas de patologia, por exemplo, para atuar com melhores resultados onde faltam recursos humanos qualificados.

 

Nos tumores femininos, atenção especial para mama e ovário

Um estudo apresentado pelo Observatório de Oncologia analisou dados de atendimento das mulheres com câncer de ovário no Brasil, no âmbito do SUS, entre 2014 e 2019.

O tumor de ovário é a segunda neoplasia ginecológica mais comum e o oitavo tipo de câncer mais incidente entre as mulheres no mundo. No Brasil, segundo estimativa do INCA, são esperados 6.650 casos novos da doença em 2021.

As informações obtidas revelam a gravidade do cenário da doença no Brasil. Uma parcela considerável dos casos confirmados (37,3%) não possui registros sobre o estadiamento da doença no momento do diagnóstico no RHC. Entre os casos com esta informação preenchida, 68% foram diagnosticadas tardiamente (estágios 3 e 4).

O tempo médio entre a primeira consulta com o médico especialista e o diagnóstico do câncer de ovário foi de 45 dias e 31,2% das mulheres tiveram a confirmação do diagnóstico após 30 dias. Já o tempo entre diagnóstico e o primeiro tratamento oncológico apresentou uma média de 44 dias. Cerca de 19% das mulheres iniciaram o tratamento após 60 dias.

Já para tumores de mama, o Observatório de Oncologia trouxe uma estimativa sobre o panorama da doença em todas as 5.570 cidades do país. Segundo os dados, no ano passado, cerca de 86% dos municípios brasileiros apresentaram expectativa de novos casos por ano inferior a 10. Apenas 2% (95 municípios) registraram mais de 100 casos ao ano. Apesar de, em números absolutos, a incidência ser baixa, cerca de 30% dos locais tiveram estimativa da taxa de incidência ajustada superior aos números estimados pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), de 43,74 novos casos por 100 mil mulheres.

“Precisamos tomar alguns cuidados ao avaliarmos esses dados. Temos dificuldade de identificação dos casos, por conta do número pequeno de diagnósticos em algumas cidades, com menos de 10 mil habitantes”, afirma o médico Luiz Antonio Santini, ex-diretor do INCA e integrante do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer. “É preciso treinar a equipe de saúde básica para suspeitar do câncer de mama, já que o rastreamento por mamografia nem sempre é possível em determinadas regiões. Não há mamógrafo em todos os lugares”, ressalta.

Embora os municípios do Norte e do Nordeste registrem as menores estimativas de incidência do câncer mama, os estados destas regiões também apresentam as maiores taxas de letalidade pela doença, uma vez que este índice costuma estar associado a menor desenvolvimento socioeconômico.

Avaliando os dados apresentados, Maluf disse acreditar que essas diferenças importantes entre homens e mulheres são resultado de uma questão cultural, responsável inclusive pelos homens viverem em média uma década a menos que as mulheres. “No IVOC, vemos que 80% a 90% das pessoas que buscam informações são mulheres. Elas são mais interessadas em saúde, vão mais ao médico, pesquisam muito mais”.