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Viviane Pereira

Publicado em 25/09/2020

Revisado em 25/09/2020

Organização Mundial da Saúde propõe metas para controle integral do câncer de colo de útero em 10 anos

Câncer de Colo de Útero é um dos mais incidentes entre as mulheres brasileiras

câncer de colo de útero

Mais de 300 mil mulheres morrem todos os anos no mundo por uma doença que pode ser evitada e tem alta chance de cura quando diagnosticada precocemente: o câncer de colo de útero. Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou caminhos e determinou metas para acabar com esse tumor até 2030. 

Em setembro, o mês de conscientização sobre câncer ginecológico, precisamos aproveitar para reforçar os cuidados que podem erradicar esse câncer, como explica um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer (IVOC), o oncologista Fernando Maluf: “Em lugares em que a vacinação contra o HPV é feita em massa, como por exemplo na Austrália, nos próximos 20 anos esse vai ser o primeiro tumor a ser erradicado de um país”.

A vacinação é a principal arma contra o câncer de colo de útero e por isso ela está entre as prioridades das novas diretrizes da OMS no combate a essa doença que registra cerca de 570 mil novos casos por ano no mundo. A meta é que todos os países tenham uma incidência abaixo de 4 casos por ano a cada 100 mil mulheres – atualmente no Brasil a estimativa é de 16.710 casos novos em 2020, com risco de 15,38 casos a cada 100 mil mulheres, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Foram 6.526 mortes por esse tumor em 2018, uma taxa de mortalidade de 6,10/100 mil mulheres. 

Enquanto nas estatísticas mundiais esse é o quarto tipo de câncer mais comum entre as mulheres, no Brasil é a terceira localização primária de incidência e quarta na mortalidade por câncer em mulheres, excluindo o câncer de pele não melanoma. Considerando a incidência por regiões, é o primeiro mais incidente no Norte (26,24/100 mil) do país e o segundo nas regiões Nordeste (16,10/100 mil) e Centro-Oeste (12,35/100 mil), ficando na quarta posição na região Sul (12,60/100 mil) e na quinta na região Sudeste (8,61/100 mil). Observando os números constatamos que em todos os locais do país os índices ficam bem acima da meta da OMS de 4/100 mil.

 

Se é possível acabar com esse tumor, o que precisamos fazer?

A OMS apoia a redução da incidência e eliminação desse tumor em três bases: vacinação contra o HPV; rastreio e tratamento de lesões pré-cancerosas; e manejo do câncer cervical invasivo, incluindo acesso a cuidados paliativos. As metas até 2030 são:

– 90% das meninas até 15 anos vacinadas contra HPV;

– 70% de cobertura da triagem com um teste de alto desempenho (aos 35 anos e novamente aos 45);

– 90% das mulheres com o tumor receberem tratamento (90% das mulheres com pré-câncer tratadas; 90% das mulheres com câncer invasivo tratadas).

A expectativa com essas ações é evitar 70 milhões de casos desse tumor no século. 

A chefe de Prevenção e Vigilância do Inca, Liz Almeida, afirma que o Ministério da Saúde (MS) endossa a decisão do secretariado da OMS de desenvolver uma estratégia global para a eliminação do câncer do colo do útero: “O aumento da cobertura da vacinação contra o HPV e a garantia de acesso e qualidade ao rastreio, confirmação diagnóstica e tratamento de lesões precursoras são as estratégias que podem diminuir a incidência da doença”.

 

Importância da vacinação

“Se todas as crianças fossem vacinadas no mundo, realizados mais exames ginecológicos de rotina a quem teve início a vida sexual, em conjunto com o papanicolau, teríamos a possibilidade de, virtualmente, erradicar do planeta esse tumor que infelizmente leva a vida de tantas mulheres”, destaca Maluf.

Liz Almeida explica que a cobertura nacional da vacinação contra o HPV em 2019 em meninas foi de 72% para a primeira dose e 51% para a segunda dose. Em meninos a cobertura foi de 49% para a primeira dose e 20% para a segunda dose. “Propostas para aumentar a cobertura incluem vacinação nas escolas e combate aos mitos e notícias falsas sobre a vacina, veiculando informação correta e de qualidade para conscientizar pais/responsáveis da importância de vacinar filhos/dependentes que façam parte do público alvo”.

Maluf comenta os vários motivos que impedem uma cobertura vacinal total, como o preconceito de pais de levar seus filhos para vacinar e explicar o motivo, até mesmo a falta de acesso, com dificuldade de transporte ou de sair do trabalho, entre outros. “Isso é muito importante e acaba impactando de modo relevante a incidência de câncer de colo de útero, sendo que a vacinação protegeria virtualmente quase todos os casos de futuros câncer de colo de útero”. 

O oncologista acrescenta que existe contra o HPV a vacina quadrivalente, que protege contra dois dos subtipos mais importantes para as lesões pré-malignas e dois subtipos que são os mais importantes para lesões malignas, e a vacina nonavalente. “A vacina consegue proteger a maioria dos casos de lesões pré-malignas e lesões malignas, mas deve ser feita antes do início da vida sexual, porque depois do contato da pessoa com o vírus do HPV, não tem a propriedade de erradicar o vírus, ou seja, ela só consegue proteger pessoas que ainda não tiveram contato com o vírus, o que geralmente acontece através da via sexual”.

 

Vacinação no Brasil

A chefe de Prevenção e Vigilância do Inca conta que o Ministério da Saúde incorporou ao Sistema Único de Saúde (SUS), em 2014, a vacina quadrivalente que protege contra o Papilomavírus Humano (HPV). A implantação foi gradativa: em 2014 foi  direcionada para as adolescentes do sexo feminino de 11 a 13 anos; em 2015 foi ampliado para as meninas/adolescentes de nove a 13 anos e também foi contemplada a população feminina de nove a 26 anos vivendo com HIV/Aids; em 2017 a vacinação foi ampliada para as meninas/adolescentes de nove a 14 anos e  introduzida para a população masculina de 11 a 14 anos e de nove a 26 anos de idade vivendo com HIV/Aids, além de indivíduos submetidos a transplantes de órgãos sólidos/medula óssea e pacientes oncológicos.

O esquema vacinal inicial foi de três doses (0, 6 e 60 meses) e a partir de 2016, a exemplo do Reino Unido e de outros países, o esquema foi modificado para duas doses (0 e 6 meses).

 

Exame ginecológico é fundamental

Fazer exames para descobrir a doença precocemente e aumentar as chances de cura é essencial, por isso está entre as prioridades apontadas pela OMS. Maluf avisa que os exames ginecológicos, que incluem o papanicolau, são importantes e devem ser feitos anualmente a partir do início da vida sexual. Ele chama atenção também para a higiene local e o uso de preservativos na relação sexual, especialmente se for um parceiro que não seja fixo. “Como o rastreio não é feito de forma adequada, acaba levando ao aumento de casos de lesões pré-malignas, que acabam sendo diagnosticadas muitas vezes, infelizmente, quando a doença é invasiva”, diz o médico. Ele conta que a doença invasiva costuma ter diagnóstico tardio no Brasil, muito por falta de informação ou de acesso e outros motivos que impedem o rastreamento adequado. “Um tumor que supostamente deveria nem ocorrer, e quando ocorre deveria ser diagnosticado precocemente, acaba tendo diagnóstico tardio onde os tratamentos, apesar de existirem, não oferecem resultados tão animadores”. 

A chefe de Prevenção e Vigilância do Inca esclarece que as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero recomendam o rastreio com exame citopatológico (papanicolau) a cada três anos após dois resultados anuais negativos consecutivos, na faixa etária de 25 a 64 anos. “É necessário estimular a adesão às diretrizes vigentes, especialmente em relação às recomendações de população-alvo e periodicidade. Iniciativas para a avaliação da efetividade, eficiência e viabilidade econômica de novas estratégias de rastreamento e triagem do câncer do colo do útero estão em curso no país”, revela Liz, acrescentando: “Para que ocorra expressiva e constante diminuição da incidência e da mortalidade por câncer do colo do útero é imprescindível que o planejamento das ações de intervenção permaneça embasado no rastreio de mulheres assintomáticas para detecção de lesões precursoras e na identificação de sinais e sintomas de alerta que permitam o diagnóstico precoce de lesões invasoras, atribuição da assistência primária, em conjunto com a confirmação diagnóstica, o tratamento das lesões detectadas, realizados no âmbito da assistência secundária e terciária”.

 

Como é o tratamento

Quando o câncer de colo de útero é diagnosticado precocemente, ressalta Maluf, o tratamento é cirúrgico. Nos casos em que a condição cirúrgica não é ideal, seja por idade muito avançada ou outras doenças associadas, pode ser feita radioterapia. “Na doença que é localmente avançada, o tratamento, em geral, é feito com quimioterapia e radioterapia. Já na doença que vai para outros órgãos, o tratamento é com quimioterapia”.

O fundador do IVOC lembra que nos últimos anos a associação de quimioterapia com drogas que bloqueiam a formação de vasos do tumor, impedindo que chegue oxigênio e alimento no tumor, tem sido o padrão ouro – ou seja, a combinação de quimioterapia e drogas antiangiogênicas. “Para quem falha esse primeiro tratamento, o segundo tratamento são outras drogas quimioterápicas. Em outros países do mundo há disponibilidade já de imunoterapia, com drogas que estimulam o sistema imune a atacar o tumor de forma mais veemente”.

Conforme o Inca, No Brasil não estão disponíveis os dados sobre o percentual de mulheres diagnosticadas com lesões precursoras e tratadas. Em 2019 foram confirmados por exame histopatológico 12.132 casos de câncer do colo do útero no SUS, 70% tratados por cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou combinações dessas modalidades terapêuticas, 30% sem informações disponíveis nos Sistemas de Informação em Saúde (SIS) do SUS sobre o tratamento realizado. 

“A assistência secundária às mulheres com lesões precursoras identificadas pelo rastreio apresenta limitações relacionadas à estruturação das redes de atenção à saúde, à oferta de procedimentos de diagnóstico, tratamento e seguimento e, principalmente, à adesão das diretrizes clínicas vigentes e à qualificação dos profissionais responsáveis pelo cuidado. Consequentemente, a garantia ao acesso e a qualificação da confirmação diagnóstica e do tratamento das lesões precursoras integram o elenco de objetivos prioritários para o fortalecimento das ações de prevenção”, informa Liz Almeida.

 

Tratamento paliativo exige atenção multidisciplinar

As pacientes em que falham os melhores tratamentos para a doença, precisam de cuidados paliativos para que, comenta Maluf, evite o aparecimento ou a piora da dor, sangramento da região vaginal, as fístulas que podem acontecer porque o tumor acaba criando falsos trajetos entre a vagina e o reto, entre a vagina e a bexiga. “A qualidade de vida para essas pacientes geralmente é muito ruim e o caminho final costuma ser muito doloroso. Por isso é tão importante uma equipe multidisciplinar para tomar conta dos sintomas”.