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Câncer de Colo de Útero é um dos mais incidentes entre as mulheres brasileiras

câncer de colo de útero

Mais de 300 mil mulheres morrem todos os anos no mundo por uma doença que pode ser evitada e tem alta chance de cura quando diagnosticada precocemente: o câncer de colo de útero. Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou caminhos e determinou metas para acabar com esse tumor até 2030. 

Em setembro, o mês de conscientização sobre câncer ginecológico, precisamos aproveitar para reforçar os cuidados que podem erradicar esse câncer, como explica um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer (IVOC), o oncologista Fernando Maluf: “Em lugares em que a vacinação contra o HPV é feita em massa, como por exemplo na Austrália, nos próximos 20 anos esse vai ser o primeiro tumor a ser erradicado de um país”.

A vacinação é a principal arma contra o câncer de colo de útero e por isso ela está entre as prioridades das novas diretrizes da OMS no combate a essa doença que registra cerca de 570 mil novos casos por ano no mundo. A meta é que todos os países tenham uma incidência abaixo de 4 casos por ano a cada 100 mil mulheres – atualmente no Brasil a estimativa é de 16.710 casos novos em 2020, com risco de 15,38 casos a cada 100 mil mulheres, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Foram 6.526 mortes por esse tumor em 2018, uma taxa de mortalidade de 6,10/100 mil mulheres. 

Enquanto nas estatísticas mundiais esse é o quarto tipo de câncer mais comum entre as mulheres, no Brasil é a terceira localização primária de incidência e quarta na mortalidade por câncer em mulheres, excluindo o câncer de pele não melanoma. Considerando a incidência por regiões, é o primeiro mais incidente no Norte (26,24/100 mil) do país e o segundo nas regiões Nordeste (16,10/100 mil) e Centro-Oeste (12,35/100 mil), ficando na quarta posição na região Sul (12,60/100 mil) e na quinta na região Sudeste (8,61/100 mil). Observando os números constatamos que em todos os locais do país os índices ficam bem acima da meta da OMS de 4/100 mil.

 

Se é possível acabar com esse tumor, o que precisamos fazer?

A OMS apoia a redução da incidência e eliminação desse tumor em três bases: vacinação contra o HPV; rastreio e tratamento de lesões pré-cancerosas; e manejo do câncer cervical invasivo, incluindo acesso a cuidados paliativos. As metas até 2030 são:

– 90% das meninas até 15 anos vacinadas contra HPV;

– 70% de cobertura da triagem com um teste de alto desempenho (aos 35 anos e novamente aos 45);

– 90% das mulheres com o tumor receberem tratamento (90% das mulheres com pré-câncer tratadas; 90% das mulheres com câncer invasivo tratadas).

A expectativa com essas ações é evitar 70 milhões de casos desse tumor no século. 

A chefe de Prevenção e Vigilância do Inca, Liz Almeida, afirma que o Ministério da Saúde (MS) endossa a decisão do secretariado da OMS de desenvolver uma estratégia global para a eliminação do câncer do colo do útero: “O aumento da cobertura da vacinação contra o HPV e a garantia de acesso e qualidade ao rastreio, confirmação diagnóstica e tratamento de lesões precursoras são as estratégias que podem diminuir a incidência da doença”.

 

Importância da vacinação

“Se todas as crianças fossem vacinadas no mundo, realizados mais exames ginecológicos de rotina a quem teve início a vida sexual, em conjunto com o papanicolau, teríamos a possibilidade de, virtualmente, erradicar do planeta esse tumor que infelizmente leva a vida de tantas mulheres”, destaca Maluf.

Liz Almeida explica que a cobertura nacional da vacinação contra o HPV em 2019 em meninas foi de 72% para a primeira dose e 51% para a segunda dose. Em meninos a cobertura foi de 49% para a primeira dose e 20% para a segunda dose. “Propostas para aumentar a cobertura incluem vacinação nas escolas e combate aos mitos e notícias falsas sobre a vacina, veiculando informação correta e de qualidade para conscientizar pais/responsáveis da importância de vacinar filhos/dependentes que façam parte do público alvo”.

Maluf comenta os vários motivos que impedem uma cobertura vacinal total, como o preconceito de pais de levar seus filhos para vacinar e explicar o motivo, até mesmo a falta de acesso, com dificuldade de transporte ou de sair do trabalho, entre outros. “Isso é muito importante e acaba impactando de modo relevante a incidência de câncer de colo de útero, sendo que a vacinação protegeria virtualmente quase todos os casos de futuros câncer de colo de útero”. 

O oncologista acrescenta que existe contra o HPV a vacina quadrivalente, que protege contra dois dos subtipos mais importantes para as lesões pré-malignas e dois subtipos que são os mais importantes para lesões malignas, e a vacina nonavalente. “A vacina consegue proteger a maioria dos casos de lesões pré-malignas e lesões malignas, mas deve ser feita antes do início da vida sexual, porque depois do contato da pessoa com o vírus do HPV, não tem a propriedade de erradicar o vírus, ou seja, ela só consegue proteger pessoas que ainda não tiveram contato com o vírus, o que geralmente acontece através da via sexual”.

 

Vacinação no Brasil

A chefe de Prevenção e Vigilância do Inca conta que o Ministério da Saúde incorporou ao Sistema Único de Saúde (SUS), em 2014, a vacina quadrivalente que protege contra o Papilomavírus Humano (HPV). A implantação foi gradativa: em 2014 foi  direcionada para as adolescentes do sexo feminino de 11 a 13 anos; em 2015 foi ampliado para as meninas/adolescentes de nove a 13 anos e também foi contemplada a população feminina de nove a 26 anos vivendo com HIV/Aids; em 2017 a vacinação foi ampliada para as meninas/adolescentes de nove a 14 anos e  introduzida para a população masculina de 11 a 14 anos e de nove a 26 anos de idade vivendo com HIV/Aids, além de indivíduos submetidos a transplantes de órgãos sólidos/medula óssea e pacientes oncológicos.

O esquema vacinal inicial foi de três doses (0, 6 e 60 meses) e a partir de 2016, a exemplo do Reino Unido e de outros países, o esquema foi modificado para duas doses (0 e 6 meses).

 

Exame ginecológico é fundamental

Fazer exames para descobrir a doença precocemente e aumentar as chances de cura é essencial, por isso está entre as prioridades apontadas pela OMS. Maluf avisa que os exames ginecológicos, que incluem o papanicolau, são importantes e devem ser feitos anualmente a partir do início da vida sexual. Ele chama atenção também para a higiene local e o uso de preservativos na relação sexual, especialmente se for um parceiro que não seja fixo. “Como o rastreio não é feito de forma adequada, acaba levando ao aumento de casos de lesões pré-malignas, que acabam sendo diagnosticadas muitas vezes, infelizmente, quando a doença é invasiva”, diz o médico. Ele conta que a doença invasiva costuma ter diagnóstico tardio no Brasil, muito por falta de informação ou de acesso e outros motivos que impedem o rastreamento adequado. “Um tumor que supostamente deveria nem ocorrer, e quando ocorre deveria ser diagnosticado precocemente, acaba tendo diagnóstico tardio onde os tratamentos, apesar de existirem, não oferecem resultados tão animadores”. 

A chefe de Prevenção e Vigilância do Inca esclarece que as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero recomendam o rastreio com exame citopatológico (papanicolau) a cada três anos após dois resultados anuais negativos consecutivos, na faixa etária de 25 a 64 anos. “É necessário estimular a adesão às diretrizes vigentes, especialmente em relação às recomendações de população-alvo e periodicidade. Iniciativas para a avaliação da efetividade, eficiência e viabilidade econômica de novas estratégias de rastreamento e triagem do câncer do colo do útero estão em curso no país”, revela Liz, acrescentando: “Para que ocorra expressiva e constante diminuição da incidência e da mortalidade por câncer do colo do útero é imprescindível que o planejamento das ações de intervenção permaneça embasado no rastreio de mulheres assintomáticas para detecção de lesões precursoras e na identificação de sinais e sintomas de alerta que permitam o diagnóstico precoce de lesões invasoras, atribuição da assistência primária, em conjunto com a confirmação diagnóstica, o tratamento das lesões detectadas, realizados no âmbito da assistência secundária e terciária”.

 

Como é o tratamento

Quando o câncer de colo de útero é diagnosticado precocemente, ressalta Maluf, o tratamento é cirúrgico. Nos casos em que a condição cirúrgica não é ideal, seja por idade muito avançada ou outras doenças associadas, pode ser feita radioterapia. “Na doença que é localmente avançada, o tratamento, em geral, é feito com quimioterapia e radioterapia. Já na doença que vai para outros órgãos, o tratamento é com quimioterapia”.

O fundador do IVOC lembra que nos últimos anos a associação de quimioterapia com drogas que bloqueiam a formação de vasos do tumor, impedindo que chegue oxigênio e alimento no tumor, tem sido o padrão ouro – ou seja, a combinação de quimioterapia e drogas antiangiogênicas. “Para quem falha esse primeiro tratamento, o segundo tratamento são outras drogas quimioterápicas. Em outros países do mundo há disponibilidade já de imunoterapia, com drogas que estimulam o sistema imune a atacar o tumor de forma mais veemente”.

Conforme o Inca, No Brasil não estão disponíveis os dados sobre o percentual de mulheres diagnosticadas com lesões precursoras e tratadas. Em 2019 foram confirmados por exame histopatológico 12.132 casos de câncer do colo do útero no SUS, 70% tratados por cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou combinações dessas modalidades terapêuticas, 30% sem informações disponíveis nos Sistemas de Informação em Saúde (SIS) do SUS sobre o tratamento realizado. 

“A assistência secundária às mulheres com lesões precursoras identificadas pelo rastreio apresenta limitações relacionadas à estruturação das redes de atenção à saúde, à oferta de procedimentos de diagnóstico, tratamento e seguimento e, principalmente, à adesão das diretrizes clínicas vigentes e à qualificação dos profissionais responsáveis pelo cuidado. Consequentemente, a garantia ao acesso e a qualificação da confirmação diagnóstica e do tratamento das lesões precursoras integram o elenco de objetivos prioritários para o fortalecimento das ações de prevenção”, informa Liz Almeida.

 

Tratamento paliativo exige atenção multidisciplinar

As pacientes em que falham os melhores tratamentos para a doença, precisam de cuidados paliativos para que, comenta Maluf, evite o aparecimento ou a piora da dor, sangramento da região vaginal, as fístulas que podem acontecer porque o tumor acaba criando falsos trajetos entre a vagina e o reto, entre a vagina e a bexiga. “A qualidade de vida para essas pacientes geralmente é muito ruim e o caminho final costuma ser muito doloroso. Por isso é tão importante uma equipe multidisciplinar para tomar conta dos sintomas”.

Câncer de Colo de Útero


Organização Mundial da Saúde propõe metas para controle integral do câncer de colo de útero em 10 anos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou caminhos e determinou metas para acabar com o Câncer de Colo de Útero até 2030.
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