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Novembro é tempo de alerta para a saúde masculina, principalmente da população negra, que deve ter mais cuidado com câncer de próstata

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Há vários aspectos que precisam ser considerados quando falamos sobre câncer de próstata e a campanha Novembro Azul ajuda a trazer conscientização e informações que muitas vezes não têm o destaque necessário para alertar a população. É importante lembrar os fatores de risco, as ações que podem ajudar a prevenir e a importância do diagnóstico precoce.

Entre muitos aspectos relacionados a esse tumor, que é o mais incidente na população masculina brasileira depois do câncer de pele não melanoma, é preciso ter um olhar mais atento para o impacto no homem negro, especialmente considerando que 56,1% da população brasileira se autodeclara parda ou negra, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em julho deste ano. A estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) é de 65.840 novos casos desse tipo de tumor para 2022. 

O câncer de próstata é o segundo em mortalidade masculina no Brasil, ficando atrás do câncer de pulmão. Em 2021, mais de 16 mil homens morreram por esse tumor, segundo dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, ou seja, o equivalente a 44 mortes por dia. O oncologista Fernando Maluf, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer, ressalta que a mortalidade no país varia muito entre os pacientes dos sistemas público e privado. “No setor público, a mortalidade fica em torno de 30% a 40% dos casos diagnosticados”.

A diretora de Comunicação da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Karin Anzolch, pondera que os números mostram um ligeiro aumento da mortalidade por câncer de próstata em 2021 comparado aos dois anos anteriores. “Ainda não sabemos se é um fato isolado ou se poderá ser o reflexo de um aumento em decorrência da pandemia, quando já havia uma preocupação por parte da nossa Sociedade, porque muitos tratamentos e acompanhamentos acabaram sendo impactados. Os próximos números devem nos ajudar a entender melhor esse cenário”. Este ano a edição da campanha Novembro Azul da SBU traz a mensagem: “Saúde também é papo de homem”.

Maior risco para homens negros

Ainda não há estudos suficientes para identificar precisamente os motivos, mas sabe-se que o câncer de próstata costuma ser mais frequente, aparecer mais cedo e com mais gravidade em homens negros. Por isso a indicação para exames de rastreamento é diferente para essa população. O oncologista ressalta que enquanto a recomendação geral é realizar exames de PSA e toque retal a partir dos 50 anos, para homens da raça negra – e também com histórico familiar – a indicação é iniciar a partir dos 45 anos.

Um estudo publicado no Jama Network comparando a eficácia da vigilância ativa em pacientes com câncer de próstata de baixo risco de diferentes etnias concluiu que em sete anos a progressão da doença foi 11% maior entre os afro-americanos em comparação com homens brancos. A ideia do trabalho era entender se essa seria uma alternativa segura e eficaz para afro-americanos, e a possibilidade de o tumor ser mais agressivo na população negra levanta dúvidas sobre esta opção.

Menos informações e oportunidades para população negra

“Os negros são subrepresentados em todos os estudos oncológicos”. O alerta feito por Fernando Maluf trata de uma importante realidade que demanda maior cuidado e mudança de estratégias, como propõe o oncologista. “Temos combinações de medicamentos aprovadas em estudos realizados com populações primariamente brancas, em que os afro-americanos ou negros representaram apenas 3% do total de 800 participantes”, avisa. “Há duas indústrias farmacêuticas que estão fazendo estudos de ponta com protocolos de pesquisa exclusivamente para a população negra no Brasil, para avaliar nesse público o papel dessas combinações. Precisamos saber se o efeito dos medicamentos, que foi analisado principalmente na população branca ou caucasiana, é igual na população negra. Não sabemos na questão da farmacogenômica se os negros respondem melhor ou pior para determinados medicamentos do que caucasianos, asiáticos ou hispânicos, por exemplo”.

Outra consequência da ausência de maior número de negros nos estudos clínicos, indica Maluf, é o menor acesso a drogas que podem mudar a história dos pacientes. “Os estudos podem oferecer medicamentos interessantes, muitas vezes melhores que as alternativas disponíveis, e os negros têm menos possibilidade de contar com essa oportunidade. A questão da etnia será provavelmente um dos temas que vivia na sombra e terá agora maior facho de luz”.

Fatores de risco e protetivos

Além do histórico familiar e etnia, são considerados fatores de risco para o câncer de próstata síndromes genéticas – como as síndromes BRCA1 e BRCA 2, idade, obesidade, sedentarismo, dietas ricas em gorduras, carboidratos, embutidos e enlatados. Por isso, destaca Maluf, os fatores protetivos também são importantes para evitar o desenvolvimento desse tipo de tumor, como a prática regular de atividade física – no mínimo caminhada de 30 minutos todos os dias -, manter o peso e ter uma dieta rica em vegetais, frutas, legumes, verduras e carnes magras.

Quanto aos sintomas que podem alertar para a presença desse tipo de câncer, o oncologista acrescenta que são parecidos aos que ocorrem com o aumento benigno da próstata: jato urinário fraco, urinando várias vezes ao dia, acordando a noite para urinar, eventualmente sentindo desconforto para urinar. “Quando a doença atinge os gânglios, o homem pode ter dor pélvica e edema de membros inferiores. Quando vai para os ossos, pode provocar dores ósseas associadas com potenciais fraturas e até compressão de nervos periféricos ou do próprio cordão medular”.

Diagnóstico precoce muda história da doença

O oncologista explica que o câncer de próstata pode ser identificado em quatro fases, considerando principalmente o estágio de evolução do tumor. Quanto mais precocemente é feito o diagnóstico, maior a chance de cura, como ele detalha: se o tumor é descoberto na fase 1, as chances de cura são acima de 95%; na fase 2, acima de 70%; na fase 3, por volta de 40% a 50%; e na fase 4, o câncer de próstata não é mais curável, vai ser tratado e acompanhado. 

“Nosso objetivo é conscientizar os homens sobre a necessidade dos cuidados com a própria saúde de forma rotineira e não somente quando aparece algum problema. Além da divulgação dos hábitos para se ter uma vida saudável, também informamos que muitas doenças, em sua fase inicial, são totalmente assintomáticas, mas que podem ser diagnosticadas e tratadas mais facilmente com exames periódicos de check-up. O câncer da próstata é o melhor exemplo disso”, alerta o presidente da SBU, urologista Alfredo Félix Canalini.

Para que o diagnóstico seja feito precocemente a indicação é realizar anualmente os exames de rastreamentos de PSA e toque retal. “Eles não fazem o diagnóstico, mas podem levantar a suspeita sobre a doença e são complementares: há casos em que os dois exames percebem alguma alteração, em outros um identifica e outro, não. A partir da suspeita é realizada a biópsia, que faz o diagnóstico”, esclarece Fernando Maluf.

Foi exatamente o rastreamento atento que possibilitou que Ronaldo da Silva Meneses, 58 anos, descobrisse precocemente um câncer de próstata em 2016. “Faço acompanhamento com urologista desde os 40 anos e nunca tive nenhum distúrbio, sempre com as curvas do PSA, exames de toque e ultrassom normais”, afirma o paciente, lembrando que em meados de 2014/2015 teve uma mudança em seu plano de saúde, o que o levou a ficar um ano e meio sem realizar seus exames, que sempre fez anualmente. “Na época eu estava pagando um médico particular e pedi indicação de um profissional do plano, porque pretendia fazer vasectomia”.

Uma alteração no PSA levou o médico a solicitar uma biópsia, apesar de os exames de toque e ultrassom estarem dentro dos padrões normais, assim como o tamanho e a textura da próstata. “O PSA deu uma alteração que chamou atenção pela minha idade e a curva que eu tinha ao longo dos anos”, diz o paciente, reforçando a importância da realização anual dos exames. “A doença pode aparecer de um ano para o outro e o acompanhamento que eu fazia foi fundamental para descobrir no início”.

Ele conta que a biópsia detectou um carcinoma pequeno, de menos de 1 milímetro, no centro da próstata. “Quando li carcinoma, tomei um susto. Eu sou engenheiro, meu irmão é veterinário. Perguntei a ele: ‘Renato, eu tenho um ponto de carcinoma aqui. Qual o procedimento? ‘. Ele me respondeu: ‘Quando é em bicho, a gente arranca o câncer fora. Em gente deve ser a mesma coisa, mas é tudo tranquilo’”, ri recordando a conversa e que o médico disse exatamente o mesmo, que seria preciso remover a próstata.

“Vi que é uma coisa comum, muitos homens têm câncer de próstata e passam a conviver normalmente com isso”

Ronaldo Meneses fez a cirurgia de retirada da próstata em 5 de abril de 2016. “No dia 19 de abril tirei os pontos e dia 20 era meu aniversário. Tinha muito para comemorar”. Ele reforça que o impacto do diagnóstico é forte e é preciso tentar manter a tranquilidade. “Quando perguntei ao médico sobre os efeitos da cirurgia, ele disse que poderia causar impotência sexual e incontinência urinária, e falou: ‘Fique despreocupado, porque podemos usar prótese para impotência e fralda para incontinência’. Disse para ele: ‘Pô, que solução boa’”, brinca.

Quando saiu da clínica, com a esposa, parou para almoçar e chorou o tempo todo na volta para casa. “Minha esposa perguntou o motivo de eu estar chorando, e respondi que senti vontade de chorar. Não estava com medo de morrer, de ficar impotente ou com incontinência, mas a notícia é impactante, mexe com a gente”.

A cirurgia teve um bom resultado e a recuperação foi tranquila, com uma boa cicatrização. Ele não teve incontinência urinária, mas ficou sem ereção por cerca de quatro a cinco meses. Sabia que precisaria se cuidar, tomar medicamentos, praticar exercícios e ter paciência, porque poderia levar de três meses até um ano para voltar ao normal. “No momento em que a gente fica sem ereção, não vê perspectiva de chegar. Então, me preparei para isso, resolvi focar nos esportes que sempre gostei de praticar: nado, corro, jogo futebol. Hoje não tenho ejaculação, não sai nada. No mais, está tudo normal. No início é difícil a adaptação, mas depois acostuma”. Durante todo o processo, garante, contar com o apoio da esposa foi fundamental. “No mês passado eu e ela corremos uma meia maratona aqui em Salvador”.

Entre os muitos desafios que vivenciou com a doença, acredita que o maior foi o choque da notícia do diagnóstico, quando precisou parar, respirar e buscar forças para aceitar. “O desafio maior foi trabalhar a mente para que a recuperação erétil viesse de forma natural e não interferisse na minha vida. Por mais que a gente tente não pensar nisso, acaba pensando. Acho que todo homem sente quando passa por isso”.

Até seu diagnóstico não sabia de outros homens que tiveram esse tipo de tumor; depois conversou com outros pacientes e descobriu pessoas próximas, como o angiologista com o qual se consultou e que já atendia sua esposa e sua mãe. “Vi que é uma coisa comum, muitos homens têm câncer de próstata e passam a conviver normalmente com isso. Temos um papel importante de difundir a necessidade de procurar o médico para detectar de forma precoce e se a pessoa precisar fazer cirurgia, passar por essas situações, deve tentar encarar com naturalidade, porque tem solução”.

Até o ano passado o paciente fazia acompanhamento semestral; com os níveis de PSA se mantendo dentro do esperado, passou a fazer anualmente. Aos homens que recebem um diagnóstico, deixa sua mensagem: “Sigam as orientações médicas e tenham a cabeça voltada para a recuperação, que pode ser demorada e traumática, é preciso manter a mente calma e buscar apoio da família e amigos para suportar. E saber que o Novembro Azul não pode ficar só em novembro: temos que trabalhar sempre essa questão da detecção precoce”.

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