Vencer o Câncer leva debate sobre toxicidade financeira ao 13º Congresso TJCC

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Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.
Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.

O Instituto Vencer o Câncer discutiu os impactos financeiros e socioeconômicos do diagnóstico de câncer no 13º Congresso Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), realizado de 29 de setembro a 1º de outubro, em São Paulo. 

O tema foi debatido no primeiro dia do evento, em painel que reuniu Gabriela Tannus, autora do livro Vencer o Câncer: Toxicidade Financeira — Entre a Vida e a Dívida, e a médica oncologista Natália Nunes, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA), com pesquisa voltada à toxicidade financeira. A jornalista Fernanda d´Avila foi a mediadora do painel.

O câncer não afeta apenas o corpo

Despesas com consultas, exames, medicamentos, transporte e alimentação, somadas ao possível afastamento do trabalho e à redução da renda, podem comprometer o bem-estar e até a continuidade do tratamento. O painel chamou atenção para esse impacto, ainda pouco discutido no cuidado oncológico, e abordou sinais de alerta e caminhos para enfrentar a chamada toxicidade financeira.

Na abertura, um vídeo do Dr. Antonio Buzaid, cofundador do Vencer o Câncer, reforçou a importância de ampliar o olhar sobre o tema. “É isso que a toxicidade financeira significa. São os problemas financeiros que os pacientes com câncer enfrentam durante a sua vida. Isso parece uma banalidade, mas não é. Afeta inclusive a evolução dos pacientes. Isso faz parte do dia a dia de todos que têm um problema oncológico”, afirmou Buzaid.

A plateia também acompanhou um trecho do documentário Quando o câncer pesa no bolso, produzido pelo Vencer o Câncer. O filme mostra como o impacto econômico do câncer pode se somar aos desafios físicos e emocionais enfrentados pelos pacientes e suas famílias. A íntegra está disponível no canal do Vencer o Câncer no YouTube.

Sobreviver também tem um custo

A oncologista Natália Nunes, que pesquisa o tema em seu doutorado no Instituto Nacional de Câncer (INCA), trouxe ao painel informações de seu estudo, que acompanha pacientes com câncer de mama antes do início da quimioterapia e seis meses depois do tratamento, para avaliar o impacto do tratamento sobre o risco de toxicidade financeira.

Segundo a médica, analisar os impactos financeiros do cuidado oncológico a partir da realidade brasileira é importante porque boa parte do conhecimento disponível vem de pesquisas realizadas em outros países, com sistemas de saúde, condições socioeconômicas e relações de trabalho diferentes das encontradas no Brasil. Um dos pontos investigados é se os critérios utilizados internacionalmente para classificar os diferentes graus de toxicidade financeira também são adequados à realidade brasileira.

Os dados apresentados pela pesquisadora ainda são preliminares e não publicados, mas já apontam características que ajudam a dimensionar o problema. “A maior parte das minhas pacientes é a principal provedora da família, então isso impacta muito nessas mulheres”, afirmou Natália.

Para a oncologista e pesquisadora, a toxicidade financeira precisa ser compreendida como uma consequência que pode permanecer mesmo depois do tratamento. 

Os dados apresentados pela médica mostram que os impactos podem se tornar uma consequência persistente do câncer e atingir diferentes dimensões da vida do paciente, da renda familiar à capacidade de manter o tratamento. Mas o problema não se resume ao endividamento nem está restrito a quem depende exclusivamente do SUS. As despesas indiretas, a perda ou redução da renda e a falta de informação sobre direitos e benefícios também podem comprometer a vida financeira de quem tem acesso à saúde suplementar.

 “Toxicidade financeira não é exclusiva de pacientes do SUS. Então isso é uma conversa que a gente precisa ter para todos os pacientes”, afirmou Natália Nunes.

Foi a partir dessa perspectiva que a economista Gabriela Tannus ampliou a discussão no painel. Para ela, é preciso olhar para a toxicidade financeira como um impacto que pode atingir pacientes de diferentes perfis e que não desaparece simplesmente porque existe uma cobertura de saúde. Ter um plano não significa, necessariamente, ter recursos para enfrentar todos os custos que surgem a partir do diagnóstico.

O impacto vai além do tratamento

Gabriela Tannus chamou atenção para uma percepção comum de que ter um plano de saúde significa estar protegido dos impactos financeiros provocados pelo câncer. Ela destacou que, no Brasil, a maior parte dos beneficiários do sistema privado recebe a cobertura como benefício oferecido pelo empregador. Por isso, mesmo quando o paciente tem acesso à saúde suplementar, o diagnóstico pode provocar uma série de despesas que não são necessariamente cobertas pelo plano e ainda comprometer a renda familiar.

“Às vezes a gente tem a ideia de que, se a pessoa tem plano de saúde, está tudo resolvido. Não exatamente”, afirmou Gabriela. Segundo ela, ter cobertura para o atendimento médico não significa necessariamente ter renda suficiente para fazer frente aos custos que surgem durante o tratamento.

A realidade brasileira também precisa ser analisada a partir das características do próprio sistema de saúde. Diferentemente dos Estados Unidos, onde a discussão sobre toxicidade financeira ganhou força inicialmente, o Brasil conta com o SUS, que oferece acesso a tratamentos. Isso não significa, porém, que o paciente esteja livre dos custos indiretos relacionados ao diagnóstico.

“A gente tem, com todas as dificuldades que conhecemos na Saúde Pública, acesso à quimioterapia, à radioterapia. Sabemos que não é fácil, não é rápido, mas nós temos um sistema que nos atende como cidadão”, disse.

Um exemplo citado por Gabriela ajuda a dimensionar esse impacto. Um paciente que passa a gastar R$ 400 ou R$ 500 por mês apenas com transporte para o tratamento pode comprometer uma parcela significativa da renda familiar. “Isso é um terço de um salário mínimo. Pensa quanto isso pesa no bolso, simplesmente do dia para a noite”, afirmou.

O problema pode se agravar porque o paciente nem sempre consegue acessar imediatamente informações sobre direitos, benefícios e formas de apoio. Quando essas informações chegam, muitas vezes ele já passou por uma série de despesas, precisou recorrer à família ou contrair dívidas.

A rede de apoio familiar e de amigos aparece, nesse contexto, como um importante mecanismo de proteção. Gabriela Tannus ressaltou que esse suporte ainda é uma característica presente na cultura brasileira e latino-americana, mas alertou para o risco de depender exclusivamente dele.

“A família ajuda, e isso ainda é uma coisa muito positiva que nós temos culturalmente aqui no Brasil, que é a rede de apoio. Mas não dá para a gente contar só com isso”, afirmou.

Ao fim do painel, Gabriela Tannus seguiu para o estande do Vencer o Câncer, onde autografou exemplares de Vencer o Câncer: Toxicidade Financeira — Entre a Vida e a Dívida, distribuídos aos participantes, e conversou com o público sobre o tema.

O livro pode ser baixado gratuitamente no site do Vencer o Câncer.

Publicação: 09/10/2026 | Atualização: 09/10/2026

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