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Publicado em 04/04/2018

Revisado em 04/04/2018

Mais de 60% dos casos de câncer de fígado são diagnosticados tardiamente no Brasil

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O câncer de fígado (carcinoma hepatocelular) é o terceiro que mais mata no mundo: por ano são 700 mil mortes. No Brasil, de 2011 a 2015, mais de 44 mil pessoas morreram por causa da doença e o diagnóstico tardio é uma das razões para o elevado número de óbitos. Os dados estão no estudo “Carcinoma Hepatocelular: Barreiras ao Acesso, Diagnóstico e Tratamento no Cenário Brasileiro Atual”. Segundo o levantamento, 62,2% dos pacientes foram diagnosticados tardiamente. “Infelizmente a maioria é diagnosticada tardiamente quando há pouco a se fazer pelo paciente”, comenta Flair Carrilho, chefe da disciplina de gastroenterologia clínica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e chefe da Divisão de Gastroenterologia e Hepatologia Clínica do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Baixe aqui o folder com informações completas sobre o câncer de fígado.

As chamadas doenças de base como as cirroses e as hepatites B e C são os principais fatores de risco para câncer de fígado. O pastor Ricardo Filipe Ferreira, de 50 anos, foi diagnosticado com o tumor um ano depois de ter descoberto que tem cirrose hepática causada por hepatite. “Sempre fui muito ativo, mas comecei a me sentir muita cansado e o ultrassom mostrou que eu estava com cirrose nível 4. Comecei a fazer o tratamento e há seis meses, os exames acharam dois nódulos no fígado. Agora eu aguardo para fazer um transplante. Sempre tive muita vontade de viver e se estou passando por isso é porque tem algum objetivo”, diz.

Diagnosticar corretamente as doenças de base e oferecer o tratamento adequado são ações fundamentais para evitar o desenvolvimento do câncer de fígado. Embora a literatura médica indique que a grande maioria dos casos de câncer de fígado está relacionada às cirroses e às hepatites B e C, os dados do SUS mostram que 88,4% dos pacientes analisados no estudo não tinham sido diagnosticados previamente com doenças de base. “É importante colocar que quando a gente analisa esse dado de 88% a gente conclui que não que essas pessoas não tinham doenças de base ou não tinham fator de risco. Como são doenças silenciosas, essas pessoas não sabiam e só percebiam lá na frente, quando o câncer de fígado já estava desenvolvido”, afirma André Ballalai, da IQVIA, empresa que analisou os dados do estudo.

O hepatologista Flair Carrilho também acredita que haja subnotificação de casos dessas doenças. “O especialista sabe que em mais 90% dos casos de câncer de fígado há cirrose hepática, mas os dados do SUS dizem que em 88% não têm doença de base. Claro que os casos não estão sendo informados. Algo está errado funcionando em nosso país”, avalia.

Outra barreira para o diagnóstico precoce do câncer de fígado é o estigma em torno de doenças como as cirroses e as hepatites B e C. Muitos pacientes que têm essas doenças não contam para familiares e amigos e acabam não procurando acompanhamento adequado. “A gente precisa desestigmatizar essas doenças. O paciente não tem que ter vergonha de ter hepatite, de comunicar que tem uma fragilidade. Ele tem que estar orientado sobre os tratamentos e sobre os riscos”, enfatiza o oncologista Roberto Gil, que integra o Serviço de Oncologia Clínica dos Instituto Nacional do Câncer (INCA).

O estudo também ouviu 88 médicos sobre as barreiras ao acesso ao diagnóstico e ao tratamento do câncer de fígado e 83 deles disseram que a falta de campanhas de conscientização e a necessidade de uma linha de cuidado são os principais obstáculos. Dificuldade de agendamento de exames, distância dos estabelecimentos de saúde, o tempo para início do tratamento e a falta de informação de pacientes dos grupos de risco também foram apontados como barreiras.
“O recado está dado, a gente sabe o que precisa ser feito de forma urgente, a população precisa ser informada sobre os fatores de risco e sinais do câncer de fígado, assim como sobre as cirroses e hepatites”, afirma Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia. A entidade também fez uma pesquisa que mostrou que 59% dos entrevistados não sabem quais são os fatores de risco para o aparecimento do câncer de fígado.

O estudo “Carcinoma Hepatocelular: Barreiras ao Acesso, Diagnóstico e Tratamento no Cenário Brasileiro Atual” foi desenvolvido pela IQVA e analisou dados coletados entre julho de 2014 e junho de 2016. Para avaliar o cenário nacional, foram usados dados do Datasus. O documento foi feito com a colaboração de sociedades médicas, entidades de apoio ao paciente e instituições que disseminam a informação sobre prevenção e tratamento do câncer. O Instituto Vencer o Câncer é um dos participantes. “O documento faz um importante mapeamento e traz dados que reforçam a necessidade de construção de políticas públicas que gerem mais acesso ao diagnóstico e tratamento. Também reforça a necessidade de campanhas de informação”, afirma a diretora do Instituto Vencer o Câncer, Rita Domingues.

O diagnóstico do câncer de fígado é feito com a ultrassonografia. Pessoas com cirrose ou que tenham vírus de hepatite B ou C devem fazer o exame a cada 6 meses. O câncer de fígado é uma doença silenciosa. Nos estágios avançados, o paciente pode apresentar fadiga, febre, dor abdominal, perda de peso e ascite. O tratamento depende do estágio. Na fase inicial, a remoção do tumor e o transplante são considerados tratamentos curativos.

Álcool e câncer de fígado

No evento em que foi lançado o estudo, especialistas também defenderam uma maior conscientização sobre os malefícios do álcool para a saúde. Seu consumo excessivo pode provocar cirrose e aumenta o risco de desenvolvimento de câncer de fígado. A ingestão de bebida alcoólica também está relacionada a outros tipos de tumor como de boca, laringe, esôfago, intestino e mama.

Para quem já tem algum problema no fígado, a ingestão de álcool agrava ainda mais a situação. “Quem tem gordura no fígado não deveria beber nada porque os fatores de risco vão se acumulando na agressão ao órgão. A sociedade precisar pensar no exemplo que dá em casa, qual o exemplo que os pais estão dando para os seus filhos”, alerta o cirurgião Ben-Hur Ferraz Neto, integrante do Comitê Científico do movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC).

O hepatologista Fábio Marinho, que é integrante da Sociedade Brasileira de Hepatologia, ressalta que a Sociedade Americana de Oncologia Clínica publicou no fim do ano passado um paper classificando o álcool como uma substância cancerígena em qualquer quantidade ingerida. “A maior dificuldade que tenho com meus pacientes que têm cirrose é não beberem. Nossa sociedade é extremamente movida a álcool. Somente uma campanha pública governamental vai melhorar isso, como foi com o tabaco. A gente tem que trazer evidências para convencer a sociedade dos problemas causados pelo álcool”.