Câncer / Diagnóstico

Publicado em 11/09/2020

Revisado em 11/09/2020

Dificuldades no diagnóstico de linfoma podem levar a tratamento errado

Nos casos crônicos, atraso não tem tanto impacto; nos agressivos pode prejudicar tratamento. Data chama atenção para importância de divulgar informações

Dificuldades no Diagnóstico de Linfoma podem levar a tratamento errado

 

“Eu vou morrer? Vou sofrer para morrer? Vou ficar careca? Vou poder ser mãe?”. Essas foram as perguntas que Débora Regina Fiamini, 36 anos, fez para o médico quando finalmente descobriu que tinha linfoma de Hodgkin clássico esclerose nodular 2A. Em meio às dúvidas, mais do que medo, a sensação era de alívio por finalmente saber seu diagnóstico, depois de muitos exames, palpites errados e até o início de um tratamento para tuberculose. “Muita gente demora para fechar diagnóstico. Participo de grupos de linfoma e é desesperador; muitos médicos acham que é tuberculose, e não é. Conheci meninas que trataram tuberculose por dois anos antes de descobrir o linfoma”, revela Débora, ilustrando uma situação que é bastante comum: a dificuldade de diagnóstico do linfoma, um tipo de câncer do sistema linfático, dividido em linfoma de Hodgkin (LH) e linfoma não-Hodgkin (LNH). 

Para alertar e divulgar informações sobre esse câncer é realizada a campanha Agosto Verde Claro e 15 de setembro é considerado o Dia mundial de conscientização sobre linfomas.

Pesquisa realizada pelo Observatório de Oncologia demonstra que o linfoma costuma ser diagnosticado tardiamente no Brasil: mais da metade (58%) descobriu a doença em estágio avançado, com diagnóstico mais tardio em 60% dos homens e 57% das mulheres. O levantamento foi feito com pacientes atendidos pelo SUS entre 2008 e 2017. 

A boa notícia, alerta o onco-hematologista Phillip Scheinberg, membro do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, é que no caso dos linfomas o diagnóstico tardio influencia menos do que nos tumores sólidos. “Nos linfomas crônicos não faz muita diferença; não há cura, a gente só controla, a maioria dos casos por muitos anos, às vezes até décadas. Nos linfomas mais agressivos, curamos no geral 60% – quando é descoberto em fase menos avançada, aumenta a chance de cura, chegando em média a 70% a 80%”, avalia o médico. “Nos Estados Unidos, 70% a 80% dos linfomas crônicos são diagnosticados na fase avançada”. O importante, avisa, é fazer biópsia assim que houver suspeita (veja informações sobre sintomas, diagnóstico e tratamento a seguir) – o problema em muitos casos, como na história de Débora, é quando não há sequer a suspeita.

 

Longa jornada até o diagnóstico

Débora é dentista e trabalhava bastante, chegava a fazer jornadas de 14 horas por dia e, confessa, adorava. Um sábado, em meados de novembro de 2018, estava em casa assistindo televisão quando sentiu travar o pescoço no momento em que foi levantar para pegar um pão de queijo na mesinha da sala. “Na hora eu falei para a minha mãe: ‘deu um torcicolo’. Quando coloquei a mão no pescoço, senti que tinha uma bola. Minha mãe queria que eu fosse direto para o médico; disse que não iria, bastava tomar um remédio para tirar a dor. Liguei para um amigo fisioterapeuta que faz RPG e falei que precisava estar bem para atender na segunda-feira”, recorda.

O amigo a atendeu no domingo e indicou um médico de cabeça e pescoço. Como não queria perder tempo, decidiu se adiantar e fazer todos os exames (sangue, urina, ultrassom, tomografia) em um hospital, de madrugada, e já levar os resultados na consulta. “No hospital, meio que me seguraram; meus pais estavam viajando e, como era tarde, chamei meu irmão, avisando que estava acontecendo alguma coisa errada”. Quando o irmão chegou, ela ouviu no corredor mesmo, da médica que segurava seus exames: “você tem alguma coisa maligna; corre porque pode ter poucos dias de vida”. 

O irmão ficou indignado e brigou com a médica. Enquanto chorava e era medicada para acalmar, via as pessoas no hospital orando por ela. E foi à oração que se apegou quando saiu dali, parando de madrugada com o irmão na frente de uma Igreja Universal e pedindo que ele se ajoelhasse e orasse com ela. “Ora como você nunca orou na vida”.

O especialista em cabeça e pescoço a acalmou, informando que seria impossível dar aquele diagnóstico com os exames – avisou que poderia ser um linfonodo aumentado, uma infecção urinária e até tuberculose, já que trabalhava em contato com pessoas que poderiam ter a doença. Débora começou então a fazer diversos exames: sorologia, punção aspirativa, vários testes de tuberculose, biópsia. 

No dia 27 de dezembro, com o resultado da biópsia em mãos, o médico lhe disse que não acharam o bacilo e ele não tinha ideia do que ela poderia ter. “Pode ser nada e pode ser tudo”. Foi então encaminhada para dois especialistas: o infectologista avisou que tinha características de tuberculose, mas pediu revisão da biópsia; o tisiologista falou taxativamente que era tuberculose e disse que seria besteira fazer a revisão, que gastaria dinheiro à toa, já que o plano não cobria o exame no laboratório indicado – recomendou começar imediatamente o tratamento para tuberculose.

Débora começou o tratamento, mas também refez a biópsia. Teve bastante reação aos medicamentos para tuberculose, precisando tomar antialérgico. Quando recebeu o e-mail com o resultado da revisão, levou um susto: diagnóstico de linfoma de Hodgkin clássico. “Na hora falei para minha mãe: ‘estou com câncer’. O infectologista pediu para eu correr para o consultório e quando cheguei ele e a esposa estavam chorando, disse que não esperava isso, ou não teria pedido para enviar no meu e-mail”.

Encaminhada ao onco-hematologista, assim que o médico viu todos os seus exames, avisou: “Seu diagnóstico não está fechado”, porque havia muitos exames negativos e um positivo. Voltou à estaca zero. Dias depois, Débora foi internada para começar nova série de exames e pesquisar melhor a doença – foram cinco dias de angústia no hospital.

“Em 1º de fevereiro de 2019 recebi o diagnóstico final: linfoma estágio 2A. O médico avisou que estava no início, clavicular e um ponto pequeno no tórax. Não hora fiquei aliviada por ele dizer que eu tinha linfoma, por finalmente ter um diagnóstico”. Logo começou a quimioterapia e, diferente da maioria, que costuma ter reação dias depois, passou mal já enquanto recebia a medicação – precisou fazer as oito sessões internada. Já após a primeira sessão a diminuição do volume no pescoço chamou atenção – e deu alívio. “Entrei em remissão no dia 3 de abril de 2019”, comemora.

Depois da jornada difícil que viveu para ter seu diagnóstico – que seria ainda mais complicada se não tivesse decidido refazer a biópsia – e vendo desafios que outras pacientes compartilham, desabafa: “Parece que os médicos não entendem o linfoma”. Conta que o que lhe sustentou desde o início foi sua fé e os sinais que recebeu de Deus durante sua trajetória no combate à doença.

 

Conhecendo melhor o linfoma

O onco-hematologista Phillip Scheinberg explica que o fato de grande número de linfomas serem diagnosticados tardiamente está relacionado à apresentação da doença. “Têm linfomas com apresentação mais indolente, mais crônica, às vezes o paciente pode não sentir muita coisa ou sente e não procura um médico, acha que não precisa, por exemplo, se tem um gânglio no pescoço que não incomoda. Pode ser diagnosticado seis meses, um ou dois anos depois, e não é considerado tardio, porque a doença não estava trazendo repercussão para o paciente e nesses casos não existe necessidade imediata de tratar, na maioria das vezes. É diferente quando o linfoma é bem agressivo, por exemplo, que se apresenta de forma muito mais rápida e violenta – nesses casos, o paciente geralmente não consegue ficar muito tempo sem procurar ajuda médica”.

Quando há suspeita, destaca, o correto é fazer biópsia para ter um diagnóstico preciso, porque às vezes há divergência em relação ao subtipo de linfoma. Outra questão que pode atrasar o diagnóstico é a dificuldade de realizar biópsia, porque em alguns locais o acesso aos exames não é tão fácil.

Nos casos em que ainda não houve suspeita e o paciente está sendo tratado, por exemplo, para tuberculose, o médico lembra que é essencial acompanhar a melhora da doença – se está tratando e não há evolução, se o medicamento não funciona e o quadro até piora, é preciso questionar se o tratamento e o diagnóstico estão corretos e considerar o linfoma. “Há paciente que aparece com um caroço no pescoço e é infeccioso mesmo, trata com antibiótico e some. A evolução é muito importante nesses casos, verificar se os sintomas desaparecem, se está piorando. Se não melhora, começa a ter febre, a pessoa passa a sentir mal e desenvolver sudorese, tem que questionar por que não está melhor e provavelmente não é infeccioso”.

 

Sintomas e tratamento

Nos casos dos linfomas crônicos, os sinais podem demorar anos para aparecer. Se é mais agressivo, em dias a pessoa apresenta sintomas. Há situações, cita Scheinberg, em que o paciente faz um ultrassom de abdômen no check-up e descobre um gânglio. “É o mais comum de acontecer; pode estar avançado, mas para o linfoma crônico não quer dizer que é ruim, apenas que há mais áreas afetadas e não é muito impactante para o tratamento. Como cresce lentamente, pode passar para vários locais antes de a pessoa sentir algo”. 

A dificuldade de entender os sintomas também se dá porque eles são comuns a várias doenças: febre, sudorese, fraqueza, mal-estar geral. “O mais importante é quando aparece um gânglio do nada, duro e não dói – isso é sinal de que pode ser linfoma”, ressalta o onco-hematologista. “Se é doloroso, provavelmente é um gânglio inflamatório, e se é inflamatório, provavelmente não é linfoma”.

O tratamento mais comum é com quimioterapia. O linfoma indolente de baixo grau, sem cura, é possível controlar de 80% a 90% dos casos.