noticias-testiculo / noticias-testiculo

Viviane Pereira

Publicado em 15/04/2021

Revisado em 15/04/2021

Corra, Zimbrão, corra, em nome da saúde do homem

Corra, Zimbrão, corra, em nome da saúde do homem

 

Atleta que enfrentou com otimismo um câncer de testículo segue inspirando os homens a se cuidarem para ter uma vida melhor

“Sou professor de Educação Física desde 1999, são mais de vinte anos de profissão ligada à atividade física. Eu era gordinho na infância, com a adolescência, por volta dos 13 anos, descobri a corrida e não parei mais. Brinco que sou o Forrest Gump que começou a correr e não para, correndo com a galera atrás”. Com esse jeito bem humorado Vinicius Zimbrão, de 46 anos, relata sua trajetória que envolve a descoberta de um câncer de testículo em 2015. Revela como conseguiu não apenas superar a fase difícil com otimismo, como também inspirar outras pessoas na prática de atividade física.

Sua relação com o esporte é uma paixão antiga, uma maneira de viver para se manter saudável e feliz consigo mesmo. Por isso fez Educação Física e começou a competir em provas de ciclismo e corrida de aventura. “Consegui competir na melhor equipe brasileira. Corri na China, na Nova Zelândia, no Canadá. Uni minha profissão de professor com as competições”.

Durante dez anos participou de corridas de aventura dedicando-se seriamente, com viagens, competindo e ganhando provas. Acredita que o esporte, desafiador, de certa forma o deixou mais forte para a doença que precisou enfrentar. A corrida de aventura, explica, é multiesporte, envolvendo pelo menos quatro modalidades: corrida na montanha e em trilhas; mountain bike; algum tipo de canoagem – pode ser caiaque, canoa havaiana ou outro estilo; e uma técnica vertical, como rappel ou tirolesa. “As provas são realizadas em equipes mistas de quatro pessoas – sempre tem pelo menos uma mulher – e é preciso se orientar com mapas e bússolas. Não adianta ser o mais rápido, tem que saber onde vai chegar. É um esporte com complexidade física, cognitiva e emocional, já que às vezes ficamos uma semana competindo, quase sem dormir nem comer direito, de acordo com a estratégia da equipe. É uma prova que, sem dúvida nenhuma, me preparou”.

Esse aprendizado de resistência e saber onde chegar, para ir mais longe, foi a base do que viria depois do diagnóstico, com mudanças acontecendo bastante rapidamente: com dor no testículo, Zimbrão teve consulta com urologista na segunda-feira e na quarta já estava sendo operado. “Não deu nem para digerir”, recorda, contando que achou que iria apenas fazer uma biópsia e descobriu pouco antes de ir para a mesa de cirurgia que precisaria retirar o testículo. 

Depois da cirurgia, encaminhado a um oncologista, soube que estava com metástase no abdômen. Precisou de 21 sessões de quimioterapia. “É um câncer bastante curável se detectado precocemente, como a maioria dos cânceres, mas o tratamento é bem pauleira. Eram cinco horas de quimioterapia por dia, em média, cinco dias por semana”.

 

Início do desafio

Passaram-se 20 dias da cirurgia quando o atleta foi dar início ao tratamento quimioterápico. Ele sabia que se preparava para enfrentar sua maior prova, pela vida. Enquanto aguardava a primeira sessão de quimioterapia, percebeu o ambiente bastante positivo apesar do estigma sobre a doença, viu as enfermeiras sorridentes, o bom tratamento e comparou com situações desafiadoras que vivenciou nas corridas de aventura, dormindo no meio do mato, sem comida e com frio – decidiu que iria enfrentar com otimismo. “Isso aqui vai ser moleza para mim. Vambora, vamos encarar”.

Abriu o Facebook e postou uma foto sua daquele momento, registrando que estava começando o tratamento e precisaria ficar cinco horas por dia fazendo quimioterapia. Revelou também que adoraria estar treinando e fez um pedido aos seguidores: “Vocês poderiam treinar por mim, pelo menos a recomendação da OMS, que são 30 minutos por dia. Que tal?”. Duas horas depois, quando acessou novamente a rede social, descobriu que a publicação tinha viralizado, com mais de mil curtidas, muitos compartilhamentos, e se deu conta de que criou um vínculo, um compromisso com os seguidores. “Não posso morrer e decepcionar essa galera”, pensou.

Era o início de diversas interações que se transformariam no Desafio do Zimbrão, com postagens constantes das sessões enquanto, do outro lado, as pessoas mostravam apoio praticando exercícios e treinando. O atleta agendou um encontro para quando acabasse o tratamento, comemorar a vitória fazendo a trilha da Mesa do Imperador, uma subida íngreme no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, que exige preparo e treino. Convidou todos para o acompanharem, fosse correndo, pedalando ou caminhando.

Ainda não havia data para o final do tratamento, mas a meta estava estabelecida e as pessoas começaram a se preparar para o desafio. “Tem pesquisas indicando que a informação é importante, mas sozinha ela não muda hábitos. Na época, sem saber disso, de forma empírica eu incentivei do modo que funciona, criando metas e traçando objetivos. Eles se sensibilizaram ao meu apelo”. Destacou em suas redes a importância de se cuidar sem precisar esperar ficar doente, uma decisão para se tomar pela preservação da saúde, uma escolha por meia hora de atividade diária, diferente das cinco horas de quimioterapia que eram necessárias, sem opção de alternativa.

 

Viver inspira a cura

O tratamento chegou ao final em dezembro e o desafio aconteceu em março, teve grande repercussão e ganhou apoio de empresas. O sucesso foi tanto que Zimbrão tornou-se o embaixador do Novembro Azul, do Instituto Lado a Lado pela Vida.

De Desafio do Zimbrão a iniciativa passou a chamar Viver inspira a cura, slogan que ele criou durante o tratamento. “Essa frase tem uma grande subjetividade. O gostar de viver e o querer otimizar nossa passagem durante a vida terrena, independentemente de religião, torna-se uma inspiração para curar não apenas a doença, mas qualquer adversidade que a vida ofereça”.

Assim, a inspiração para a cura nasce da vontade de viver. Como diz o atleta, “a vida é impermanente, ninguém sabe se vai morrer amanhã ou daqui a 20 anos”, e acrescenta: “Eu poderia ter morrido de câncer de testículo ou atropelado antes de começar o tratamento”.

A ação se transformou em uma celebração pela vida. Zimbrão leva essa mensagem por onde passa: nas palestras em empresas, nos hospitais, para lembrar que o câncer não é uma sentença de morte.

 

O desafio sempre continua – e se renova

Ele continua fazendo acompanhamento com o urologista, com exames anuais, e idas mais espaçadas ao oncologista que, comenta, acabou virando amigo – pedalam juntos. “Fico de olho porque às vezes a gente toma um susto”. Cita o caso de um paciente que compartilhou com ele no Instagram que teve câncer em um testículo, tratou e diagnosticou também no outro. “Como falo muito sobre o tema, as pessoas dividem suas histórias comigo. Fiquei um pouco assustado, porque achei que não poderia ter mais câncer de testículo”.

Passou a ter atenção redobrada. Embora relaxe um pouco, outro fato faz com que esteja sempre atento. Pouco mais de 15 dias após o fim do seu tratamento, a irmã teve diagnóstico de câncer de mama. “Isso está muito presente em casa, ficamos ligados”.

A volta à prática esportiva é comemorada como uma grande conquista: retomou as corridas rústicas, o ciclismo e classificou-se em quarto lugar numa prova em dupla de corrida de montanhas e trilhas. Nesse quesito, o objetivo é superar-se cada vez mais.

Para difundir sua história e inspirar mais pessoas, está finalizando um livro relatando sua trajetória. E já encara novos desafios.

O envolvimento com a saúde do homem se ampliou e ele trata também das relações do homem com a sociedade. “Falo de temas como os motivos de o homem se suicidar mais do que as mulheres e viver menos sete anos que elas no Brasil – cinco anos em média no mundo”. 

Zimbrão passou a tratar das questões que envolvem a violência contra a mulher. “Tudo isso não acontece somente por causa da fisiologia, não é porque tem testosterona. Estamos falando sobre comportamento de civilização. É uma questão muito mais do machismo determinando que o menino tem que engolir o choro, o homem não pode expressar seus sentimentos e que tratar de assuntos sensíveis, mostrar-se vulnerável, não é algo masculino”.

As reflexões que vem abordando em suas palestras visam desconstruir esses conceitos. “Acredito que será bom para todos, não só para os homens viverem mais felizes, vulneráveis e sensíveis, como também para as mulheres, para combatermos o feminicídio”. Ele percebe que por ser homem, heterossexual, tratando de temas sensíveis, consegue se fazer ouvir mesmo em ambientes mais machistas, em que é procurado, após os eventos de que participa, por homens que buscam desabafar e falar de suas aflições. “Percebi que tenho um propósito de trazer esse lugar para os homens. Dizer: segura na minha mão e vem, não precisa ser machão, isso não se refere à sua masculinidade”.

Zimbrão segue cuidando da saúde masculina. O novo projeto de vida deve ajudar a melhorar também a saúde emocional e mental de muitos homens. Essa é uma história que renderá outro livro, que ele já começa a escrever no dia a dia.