A medicina avança contra o câncer, mas o mercado de trabalho ainda fecha portas para os pacientes

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Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.
Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.

“Eu sempre falo que o câncer não é sobre ganhar ou perder, é sobre viver.” Aos 54 anos, Tania Liege convive com um câncer de pulmão sem cura, controlado por uma medicação de alto custo que tem respondido bem. O avanço da medicina lhe deu uma perspectiva de viver por muitos anos. Mas, depois do diagnóstico, ela perdeu o trabalho, deixou a casa onde morava, voltou para a casa da mãe e, há dois anos, tenta reconstruir uma vida que não acompanhou o mesmo ritmo da sua recuperação da doença. “As pessoas pensam que tratar o corpo é a mesma coisa que devolver a vida, mas não é.”

A medicina avança contra o câncer, mas o mercado de trabalho ainda fecha portas para os pacientes

A experiência de Tania é o exemplo de uma nova realidade: o câncer pode se tornar crônico, mas o mercado de trabalho ainda não aprendeu a lidar com isso. Sem conseguir se recolocar profissionalmente, ela já reduziu ou deixou de tomar medicamentos complementares para economizar e até passou por períodos de dificuldade para manter uma alimentação adequada. “Não adianta garantir o acesso a medicações de última geração e depois o paciente não tem trabalho e não consegue nem comprar o remédio que precisa”, desabafa.

Nos Estados Unidos, uma organização criada há 25 anos ajuda pessoas com câncer a enfrentar o desafio da permanência ou do retorno ao trabalho. A Cancer and Careers  nasceu a partir da constatação de que até mesmo pessoas em cargos de liderança e com acesso aos melhores centros médicos muitas vezes não sabiam como lidar com a doença na vida profissional. Segundo Scott Sinclair, senior manager of Programs da Cancer and Careers, elas chegavam à organização com dúvidas como: “Recebi esse diagnóstico de câncer e não sei o que fazer agora. Posso trabalhar? Preciso contar ao meu chefe?”. Hoje, além de orientar pacientes e sobreviventes, a Cancer and Careers também atua com empresas e gestores para tornar o ambiente profissional mais preparado para receber quem passa pelo câncer.

Os desafios relacionados ao trabalho e à carreira podem ampliar a toxicidade financeira enfrentada por pacientes, ao intensificar o sofrimento econômico já provocado pelos altos custos do tratamento. A experiência da Cancer and Careers mostra que manter ou retomar a atividade profissional às vezes significa preservar renda, autonomia e, nos Estados Unidos, até o seguro de saúde vinculado ao emprego. Scott Sinclair destaca que informação, flexibilidade e diálogo no ambiente de trabalho podem ajudar a reduzir o impacto econômico do câncer sobre pacientes e suas famílias.

Quando o tratamento avança, mas a vida não acompanha

Tania costuma chamar de “backstage do câncer” o que acontece fora dos exames, medicamentos e consultas: o trabalho perdido, as contas, a alimentação, o transporte, a dependência financeira e a tentativa de reconstruir uma rotina enquanto o tratamento continua. Seu câncer de pulmão não tem cura, mas a medicação mantém a doença controlada e, até agora, apresenta boa resposta. Para ela, é justamente esse avanço que torna necessária uma discussão que vá além da sobrevivência.

“A questão não é mais saber se a pessoa vai viver ou morrer. Os avanços científicos fazem com que as pessoas estejam vivendo cada vez mais. Eu tenho câncer; não tenho um câncer que está curado, por isso vou conviver com ele. O avanço da medicina me proporciona tomar uma medicação que é muito cara, mas que me permite viver, talvez, alguns bons anos.” Para ela, a sociedade não acompanhou essa evolução, na maneira como enxerga quem vive com a doença. “Se você fala em uma entrevista de trabalho que tem câncer, as pessoas se apavoram, porque ainda há um pensamento antigo.”

Quando começou a sentir os primeiros sintomas, no final de 2023, Tania tinha acabado de conseguir um emprego em duas unidades de uma academia de fisioterapia e pilates, em São Paulo. A contratação vinha acompanhada de uma perspectiva concreta de crescimento: a expectativa era que fosse efetivada e pudesse assumir a coordenação das duas unidades.

Foi nesse período que começaram a tosse, a falta de ar e uma dor intensa no braço. “A academia tinha três andares e eu subia até o último andar, me trancava no banheiro e ficava tossindo, tossindo, porque eu lidava muito com o público e não queria que as pessoas vissem que estava acontecendo alguma coisa de estranho comigo.” Mesmo quando a dor começou a dificultar tarefas simples, como digitar, ela continuou trabalhando, porque tinha medo de perder a oportunidade. A perda de peso se tornou perceptível e a empregadora recomendou que ela procurasse um médico. Os exames identificaram um nódulo no pulmão e a investigação levou ao diagnóstico. 

O impacto financeiro veio junto com a doença. “Eu perdi o trabalho, perdi minha casa.” Ao adoecer e chegar a pesar cerca de 40 quilos, acreditou que poderia morrer. Desfez a casa alugada e voltou a morar com a mãe. Hoje consegue manter o plano de saúde, que garante acesso à medicação oncológica de alto custo, mas convive com dificuldades básicas.

Entre as prescrições que precisa seguir estão outros medicamentos e suplementos, que nem sempre consegue tomar como deveria. “Muitas vezes tenho que pular o remédio.” Chegou a dizer ao médico que havia esquecido a medicação quando, na realidade, estava reduzindo o uso para fazê-la durar mais. “O ômega 3, por exemplo, eu tinha que tomar dois, tomo um, para economizar.”

Às vezes as restrições afetam a alimentação também. Tania lembra de períodos em que não tinha recursos para comprar regularmente os alimentos de que precisava durante o tratamento. “Você garante uma medicação cara, mas essa pessoa está com a vida completamente parada e não tem condição de comprar outro tipo de alimento que seja necessário.” 

  • “Não é só a questão de perder a casa, de perder o emprego, de não conseguir recolocação. A toxicidade financeira acontece quando o paciente tem que pular por exemplo, o remédio de colesterol, tomar um dia sim, um dia não, para economizar” Tania Liege

A experiência encontra paralelo no que a Cancer and Careers acompanha nos Estados Unidos. Sinclair explica que algumas pessoas precisam continuar trabalhando simplesmente para manter o salário e, em muitos casos, o seguro de saúde ligado ao emprego. “Se elas perdem o emprego, podem perder o seguro de saúde.” Para quem vive de salário em salário, acrescenta, interromper o trabalho pode significar não conseguir pagar aluguel, prestação do carro ou supermercado.

Na organização, a relação entre renda, benefícios e continuidade profissional aparece de forma recorrente. Nos dados norte-americanos comparados no relatório de 2025, 62% dos entrevistados que trabalharam durante o tratamento disseram fazê-lo por razões financeiras; 49% porque o trabalho lhes dava senso de propósito; e 41% para que a vida parecesse o mais normal possível.

Sobreviver não é o mesmo que retomar a vida

Tania gosta de ressaltar a diferença que vê entre manter o organismo vivo e conseguir efetivamente viver. Quando ouviu que o plano de saúde e a medicação lhe garantiam a vida, corrigiu: “Você precisa disso para manter as suas funções vitais. O viver no sentido mais amplo não é só o corpo funcionando. A pessoa, para viver, trabalha, produz, sonha, faz parte da sociedade.”

Na Cancer and Careers, Sinclair observa a mesma multiplicidade de sentidos do trabalho. “Às vezes, trata-se simplesmente de salário e benefícios. Para algumas pessoas, porém, o trabalho é parte da identidade. Elas amam aquilo que fazem.” Para outras, continuar trabalhando durante o tratamento é uma forma de manter a rotina e, por algumas horas, ser algo além de “um paciente com câncer”. 

Por isso, a organização não defende uma única forma de conciliar câncer e trabalho. Há quem se afaste completamente, quem reduza a jornada e quem opte por continuar trabalhando durante o tratamento. “Nós não tentamos dizer às pessoas o que elas devem fazer. Queremos dar informações e capacitá-las para que tomem suas próprias decisões.” 

O tempo de retorno também varia. Há pessoas que praticamente não interrompem as atividades e outras que permanecem afastadas por meses ou anos, dependendo do diagnóstico e do tratamento. “Não existe algo como: você vai sair dia 1º de janeiro e dia 31 de março estará no escritório.” A volta pode ocorrer quando a força física e a capacidade mental retornam, mas também pode ser determinada pelo fim de um período legal de afastamento ou pela necessidade financeira.

Até o trabalho voluntário ficou caro

Sem conseguir emprego, Tania procurou outras maneiras de permanecer ativa. Fez trabalho voluntário em hospitais, no acolhimento de pacientes. “Eu falava: ‘tenho que estar na rua, mesmo que seja voluntário’.” Mas até trabalhar sem remuneração passou a ter um custo que ela não conseguia manter. “Chegou uma hora que eu não tinha dinheiro para pagar o transporte.”

Quando a irmã lhe dava R$ 100 ou R$ 200, parte do dinheiro era usada nas passagens. Tentou obter transporte gratuito, mas conta que o pedido foi negado por seu quadro não se enquadrar nos critérios de debilidade exigidos. “Eu não estou debilitada, faço quimioterapia através do medicamento oral. Então, não tenho direito ao transporte gratuito.”

Outro ponto que Tania considera pouco discutido é a suposição de que morar com familiares significa necessariamente contar com suporte. “Nem sempre a rede de apoio familiar é um lugar seguro.” Ela voltou para a casa da mãe depois do diagnóstico, mas diz que isso não significa que suas necessidades financeiras estejam cobertas. “Eu tenho uma família até que grande. Ninguém quer comprar o remédio do colesterol, mesmo que custe R$ 150 por mês. Então, você tem que se virar.”

Em um dos períodos de maior dificuldade, chegou a enviar um e-mail ao oncologista relatando a situação; o médico lamentou não ter uma estrutura específica à qual pudesse encaminhá-la e indicou organizações que atuam no apoio a pacientes. “Preciso trabalhar pelo menos para poder garantir a minha alimentação adequada, que o médico disse que eu preciso ter.”

Antes do câncer, atuou como analista de projetos em empresa de desenvolvimento humano e cultura organizacional, com responsabilidades administrativas, atendimento a clientes, gestão de projetos, logística, propostas comerciais e análise de contratos. Sua formação jurídica também era usada em demandas comerciais. “Perdi tudo, há dois anos tento recomeçar minha vida e não consigo.”

Contar ou não contar sobre o câncer em uma entrevista de emprego?

Nas tentativas de voltar ao mercado, uma dúvida se tornou central para Tania. Ela revela que perdeu duas oportunidades depois de mencionar que estava em tratamento. “Você quer ser honesta na entrevista, porque está estabelecendo uma relação de trabalho. Só que quando você fala câncer as empresas enxergam você como uma pessoa de risco.”

Sua rotina médica existe, mas não a impede de trabalhar. A cada quatro meses precisa fazer um PET scan e há outros exames periódicos. “Tenho exames, algumas rotinas, mas isso não é impeditivo.” A paciente acredita que a barreira começa antes: “O problema é a palavra.” Ela compara a reação que encontra quando fala de câncer com a de outras doenças crônicas: “Se você falar ‘eu sou diabética’, tá bom. ‘Eu faço tratamento de câncer contínuo.’ Pronto, aí já não dá.”

Depois de dois anos tentando se recolocar, a certeza de que deveria falar começou a ser substituída pela dúvida. “Eu fico pensando: meu Deus, como é que eu tenho que abordar isso? Vou fazer uma entrevista, falo que eu tenho câncer ou não? Será que não é melhor eu não falar nada?”.

Ela não está sozinha nessa insegurança, que ultrapassa a barreira dos países. No levantamento de 2024 da Cancer and Careers com a Harris Poll, realizado nos Estados Unidos com 500 adultos que trabalharam durante o tratamento, 49% disseram ter medo de revelar o diagnóstico no ambiente profissional. O relatório internacional de 2025 encontrou proporções muito semelhantes entre participantes na Alemanha (52%), Reino Unido (49%) e França (48%). A dúvida sobre revelar o diagnóstico também está entre as perguntas mais frequentes recebidas pela Cancer and Careers. 

A medicina avança contra o câncer, mas o mercado de trabalho ainda fecha portas para os pacientes

Nos Estados Unidos, explica Sinclair, o candidato não é obrigado a fornecer informações médicas durante um processo seletivo, e o entrevistador não deveria questioná-lo sobre isso. “Mesmo que você entrasse em uma entrevista de emprego careca e com um acesso intravenoso no braço, legalmente eles não deveriam perguntar.”

Há, porém, candidatos que preferem contar, porque ainda estão em tratamento, sabem que terão uma cirurgia ou não se sentem confortáveis omitindo uma situação relevante. Nesses casos, a recomendação da organização é avaliar o momento. 

“Recomendamos esperar um pouco mais antes de trazer esse assunto para a conversa, deixar o processo avançar para que a empresa conheça primeiro o candidato como profissional, suas competências e personalidade. Na maioria dos casos, nada disso tem relação com o diagnóstico.”  Scott Sinclair

Para o senior manager of Programs da Cancer and Careers, em uma fase mais avançada, como uma entrevista final, o candidato que desejar pode apresentar uma necessidade concreta, explicando, por exemplo, que terá de se afastar para uma cirurgia, e já mostrar como pretende organizar o trabalho, antecipar tarefas ou buscar apoio. 

Os efeitos do tratamento na rotina no trabalho: empresas precisam aprender a lidar com o câncer

A permanência ou o retorno ao emprego pode ser dificultado por efeitos físicos e cognitivos do tratamento. Entre os problemas relatados à Cancer and Careers estão fadiga, neuropatias e alterações de concentração e memória. “Algumas pessoas têm neuropatia nas mãos, o que pode tornar determinadas tarefas mais difíceis”, pondera Sinclair.

A comunicação no ambiente profissional também pode se tornar um desafio. Quem escolhe trabalhar para manter parte da rotina anterior ao diagnóstico às vezes não quer passar o dia respondendo perguntas sobre a doença. A organização orienta pacientes sobre formas de conduzir essas conversas e redirecioná-las para questões profissionais quando esse for o desejo da pessoa.

Nos últimos anos, a Cancer and Careers ampliou o trabalho com empresas: realiza grupos focais com funcionários, leva necessidades identificadas às áreas de Recursos Humanos e à direção e oferece treinamento para gestores. Para Sinclair, ocupar um cargo de chefia não significa necessariamente estar preparado para lidar com situações como um diagnóstico de câncer na equipe. 

Quando um empregado comunica o diagnóstico, os gestores podem não saber o que fazer. “Treinamos diretamente esses gestores, abordando algumas perguntas que podem fazer, formas de oferecer apoio e necessidades nas quais talvez eles nem tenham pensado.” No levantamento internacional de 2025, 84% dos participantes norte-americanos usados como comparação disseram acreditar que o treinamento para apoiar um funcionário que trabalha com câncer deveria ser obrigatório para supervisores; o índice foi de 85% no Reino Unido e 77% na França e na Alemanha.

O apoio no trabalho aparece associado, na percepção dos entrevistados, a diferentes dimensões da experiência com a doença. Entre os participantes dos Estados Unidos que se sentiram apoiados durante o tratamento, 68% relataram impacto positivo na recuperação e 67% na capacidade de realizar ou aderir ao tratamento. O relatório também aponta efeitos positivos sobre equilíbrio entre vida e trabalho, saúde mental e senso de propósito ou identidade.

Para Sinclair, o ponto de partida pode ser simples: ouvir. “Começar ouvindo os funcionários e entendendo suas necessidades já seria um grande passo. E também ter empatia pelo que eles estão vivendo.” A flexibilidade, acrescenta, pode envolver mudanças relativamente pequenas, como permitir que alguém saia mais cedo em um dia fixo para fazer tratamento e reorganize parte das tarefas com a equipe.

A Cancer and Careers lembra que substituir uma pessoa no trabalho pode ser difícil, demorado e caro. “Dizemos que se um funcionário é valorizado, esperamos que a empresa queira mantê-lo e faça aquilo que estiver ao seu alcance para apoiá-lo.” Mas apoio não significa decidir antecipadamente o que aquele profissional conseguirá ou não fazer. “Pergunte o que a pessoa precisa, não faça suposições, porque cada pessoa será diferente”, indica. Retirar determinada atividade por presumir incapacidade pode produzir o efeito contrário: aquela pode ser justamente a parte do trabalho que a pessoa gosta e ainda consegue desempenhar. Em outro momento, o próprio funcionário pode dizer que precisa de ajuda. “Ter uma conversa aberta e não presumir o que a pessoa consegue ou não consegue fazer é um excelente ponto de partida.”

Nos Estados Unidos, algumas pessoas com câncer podem solicitar as chamadas reasonable accommodations, adaptações razoáveis previstas pela legislação para pessoas com deficiência. Na prática, explica Sinclair, nem sempre são mudanças complexas ou caras. Um caixa de supermercado que passa o dia inteiro em pé pode, por exemplo, precisar de um banco para lidar melhor com a fadiga. “Normalmente são coisas simples assim.”

Em outros casos, a adaptação pode envolver mudança de horário, equipamento ou um programa de computador que permita realizar melhor as funções. A lógica é preservar a capacidade de trabalho, adaptando aspectos que se tornaram mais difíceis durante o tratamento ou a recuperação, sempre a partir da necessidade concreta daquele profissional.

Da conscientização às oportunidades concretas

A própria experiência levou Tania a pensar em caminhos para transformar apoio institucional em oportunidade de trabalho. Uma de suas sugestões é que empresas que já patrocinam iniciativas relacionadas ao câncer possam criar vagas ou programas voltados à reinserção profissional de pacientes aptos a trabalhar. “Seria uma parte desse compromisso da empresa traduzido em oportunidades concretas para reinserção profissional.”

Para além das empresas diretamente ligadas à causa, ela sugere que pessoas em tratamento oncológico também entrem com mais clareza nas discussões de diversidade, inclusão, ESG e responsabilidade corporativa. “Já que o câncer está matando menos, é preciso tentar proporcionar vagas que deem oportunidade para essas pessoas.”

Na Cancer and Careers, essa aproximação com as empresas faz parte da estratégia. A organização criou uma iniciativa para identificar companhias que adotam medidas concretas de apoio a trabalhadores com câncer. Entre as citadas por Sinclair estão Google, Marriott, Nestlé e Sanofi, que, segundo ele, demonstraram estar tomando medidas significativas para apoiar pessoas com diagnóstico de câncer no ambiente profissional.

O relatório internacional de 2025 reforça a demanda por estruturas desse tipo. Entre os entrevistados que trabalharam durante o tratamento, 81% na França, 77% na Alemanha e 71% no Reino Unido disseram que são necessários recursos ou programas específicos para lidar com preocupações relacionadas a câncer e trabalho.

Quando a medicina prolonga a vida, o que vem depois?

Tania chama atenção para a necessidade de uma nova visão inclusive na assistência médica. Em conversas com outros pacientes, conta ouvir críticas a consultas excessivamente concentradas nos exames e pouco abertas às demais dimensões da vida. “A consulta é super-rápida e ao invés de olhar para o humano e as dimensões que essa pessoa com câncer está enfrentando, o médico fica examinando o papel.” Tania resume a cena: “Você leva os papéis dos resultados e ele te dá os papéis dos novos pedidos.”

Para ela, a maior sobrevida exige perguntas novas. “O médico precisa assimilar que está consultando uma pessoa que tem uma dimensão muito maior. Desde que alguns cânceres passam a ser tratados como doenças crônicas, é preciso pensar também em como essas pessoas serão vistas e incluídas na sociedade.”

A Cancer and Careers nasceu justamente de uma pergunta parecida: o que acontece com a vida profissional depois do diagnóstico? Duas décadas e meia depois, a resposta envolve condições concretas para que cada pessoa possa escolher como, quando e em que medida deseja continuar trabalhando.

Texto de Vivi Griffon

Publicação: 04/09/2026 | Atualização: 04/09/2026

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