Quando a noite cai, as embarcações começam a deslizar pelos rios Branco (Roraima), Madeira e Negro (Amazonas). Pela manhã, chegam às comunidades ribeirinhas levando à sua população saúde, esperança e prevenção. É a Expedição Doutores das Águas, que dura um mês e é realizada anualmente há 15 anos, projeto liderado pela infectologista Rosana Richtmann.
Durante o dia, as equipes de voluntários realizam diversos atendimentos, fazem exames, transmitem orientações, escutam, avisam, compartilham. Quando o trabalho na comunidade está completo, é hora de voltar às águas dos rios e partir para a próxima comunidade, muitas sem qualquer acesso por terra. A iniciativa leva atendimento em saúde e educação a populações que enfrentam grande dificuldades de acesso aos serviços básicos, atendendo homens, mulheres e crianças; inclui ações de odontologia, reciclagem, compostagem e educação ambiental.
Em 2024 nasceu a ideia de ampliar o cuidado com a saúde das mulheres ribeirinhas, com um programa voltado especificamente para elas, com rodas de conversa, atendimento ginecológico e rastreamento do câncer do colo do útero por meio do teste molecular para detecção do HPV. Em 2026 foi realizada a terceira edição.
A Dra. Ailma Fabiani de Andrade Larre, cirurgiã e ginecologista especializada em câncer ginecológico, participa do projeto voltado à saúde da mulher desde sua criação e explica que o objetivo é oferecer não apenas o diagnóstico, mas também acompanhamento e encaminhamento para tratamento. A médica, que atua na BP – A Beneficências Portuguesa e no Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), é integrante da Aliança Nacional para Eliminação do Câncer do Colo do Útero, iniciativa liderada pelo Instituto Vencer o Câncer e o Grupo Mulheres do Brasil, em que ela também atua no Comitê de Saúde.
Ao todo, são visitadas 14 comunidades, sempre as mesmas, ressalta Ailma, o que permite criar vínculos duradouros com a população. “Começamos o programa de assistência à saúde da mulher ribeirinha, que consiste em rodas de conversa sobre assuntos relacionados à saúde em geral da mulher, atendimento ginecológico e coleta de exames preventivos, seguindo o rastreamento de câncer de colo”.
Teste molecular de DNA do HPV: uma grande conquista
A ginecologista acredita que uma das maiores conquistas foi conseguir levar às comunidades o teste molecular de DNA-HPV. “O novo rastreamento do câncer de colo é com teste molecular, porém, por ser um exame custo mais alto, a implementação está sendo gradual. A grande maioria das regiões do país ainda usa o Papanicolau. E, numa região isolada da Amazônia, levamos o teste que tem melhores resultados para a prevenção do câncer de colo”.


A iniciativa ganha ainda mais importância porque a região Norte registra a maior incidência da doença no país. Além disso, as dificuldades geográficas representam um obstáculo significativo ao acesso à saúde. “A maioria das vilas só tem acesso à cidade por barco. Isso representa um custo para elas e uma logística muito complicada”, detalha a especialista. “Então para a mulher que tem uma doença pelo HPV naquela região, é muito difícil se deslocar até a cidade e fazer o tratamento. Conseguimos melhorar ou otimizar esse trajeto dela através dos agentes comunitários de saúde e de centros de referências nas cidades próximas”.
Para enfrentar esse desafio, a equipe estruturou um sistema de acompanhamento que continua mesmo depois do fim da expedição. Os exames são analisados em São Paulo, e os resultados encaminhados aos agentes comunitários de saúde. “Para os resultados alterados, entramos em contato individualmente com cada mulher. Temos duas ginecologistas e duas enfermeiras. Cada mulher é direcionada para um centro de tratamento”, conta Ailma.
Em alguns casos, o encaminhamento é feito diretamente para centros especializados, reduzindo a necessidade de deslocamentos desnecessários. “A mulher manda por WhatsApp os exames dela com a nossa cartinha e vai para Manaus no dia do tratamento, já sabendo o que vai fazer; isso poupa toda essa fase de deslocamento”, relata.
Estudo, a importância dos apoios e os números da iniciativa
“Já temos mais de 500 DNAs HPV coletados”, comemora a médica. Os dados coletados também deram origem a um estudo desenvolvido em parceria com a BP, atualmente em fase de revisão para publicação científica.
A continuidade do projeto depende diretamente do apoio de instituições parceiras. Em 2024, os testes foram obtidos por meio de doação. Em 2025, a própria equipe precisou custear parte das despesas. Já em 2026, o grupo recebeu apoio de empresas privadas.
A dimensão da iniciativa impressiona:
- 15 anos de atuação
- 30 dias de expedição
- 14 comunidades atendidas
- Cerca de 40 profissionais das áreas de saúde e educação
- Mais de 500 testes de DNA-HPV coletados desde 2024.
Rodas de conversas criam espaço seguro e ajudam a quebrar tabus
Além da assistência médica, as rodas de conversa ocupam um papel central no trabalho. As atividades permitem esclarecer dúvidas, combater tabus e criar um espaço seguro para o diálogo, especialmente entre adolescentes. “As mulheres têm muitas dúvidas, muitos tabus a respeito de questões relacionadas ao universo feminino. As adolescentes também precisam de uma conversa, precisam desse apoio para tirar as dúvidas”.


Durante as Rotas de Conversa, a equipe utilizou como material de apoio às atividades as cangas produzidas para o projeto Juntos contra o HPV desenvolvido em São Paulo (SP), pelo Grupo Mulheres do Brasil com apoio técnico do Instituto Vencer o Câncer, gestores da Aliança para a Eliminação do Câncer de Colo de Útero. Com linguagem simples, ilustrações e mensagens acessíveis, elas apresentam informações sobre o HPV, formas de transmissão, vacinação e a importância do exame preventivo, além de ajudarem a esclarecer dúvidas sobre o tema. As cangas também estimulam o diálogo, tornando as rodas de conversa mais acolhedoras, participativas e favorecendo a troca de informações entre as participantes.
Para Ailma, além da permanência do projeto nas mesmas comunidades, que permite criar confiança ao longo dos anos, a principal força do Doutores das Águas está no trabalho voluntário. “É uma equipe com mais ou menos 40 profissionais da área da saúde e educação que deixam seu trabalho, suas casas e sua rotina para cuidar dessas pessoas”, afirma.
Ela também reforça a importância de ampliar a oferta de serviços e levar cada vez mais assistência às regiões mais distantes. “Esse projeto deixa muito evidente a força do voluntariado e como a gente pode fazer diferença na vida dessas pessoas. Então, tudo vale a pena. E, quanto mais a gente tiver apoio de instituições ligadas à saúde, mais conseguimos fazer.”
Texto de Vivi Griffon







