A leucemia linfocítica crônica, também chamada de leucemia linfoide crônica ou LLC, é mais comum em adultos mais velhos, com a mediana de idade de 70 anos. Ela é um câncer do sangue que surge nos linfócitos B, um tipo de glóbulo branco, e costuma evoluir lentamente. Ela pode se acumular no sangue, na medula óssea, nos linfonodos, no baço e no fígado, e muitas pessoas ficam sem sintomas por anos.
Na prática, isso significa que o diagnóstico nem sempre exige tratamento imediato e essas pessoas vão ficar no que chamamos de observação vigilante, com consultas e exames regulares. Muitos pacientes com LLC nunca vão precisar de tratamento, somente desse acompanhamento médico.
Para os pacientes que precisam ser tratados, embora a doença não tenha cura, ela pode ser muito bem controlada por longos períodos com terapias modernas, e muitos pacientes retornam à sua rotina normalmente.
Neste guia, você vai entender de forma clara o que é a LLC, quais células ela afeta, como ela é diagnosticada, quando precisa de tratamento e o que esperar da vida com a doença.
Pontos importantes
- A leucemia linfocítica crônica é um câncer que afeta principalmente linfócitos B maduros.
- A LLC costuma ter progressão lenta, e muitas pessoas permanecem sem sintomas por muitos anos.
- A cada dez pessoas que recebem o diagnóstico de LLC, somente duas apresentam sintomas naquele momento e terão necessidade de tratamento. As outras oito descobriram “por acaso” em exames de rotina. Dessas oito pessoas, ao longo da vida, pelo menos três pessoas nunca precisarão de qualquer tratamento para a LLC.
- O diagnóstico geralmente começa com hemograma e é confirmado por citometria de fluxo (imunofenotipagem), um exame que é feito no próprio sangue.
- Nem toda LLC precisa de tratamento imediato: a observação vigilante é uma conduta comum e segura em casos selecionados.
- O prognóstico varia conforme o estágio, os sintomas e os biomarcadores, como a mutação do TP53, del(17p) e IGHV.
- Mesmo sem tratamento, a pessoa com LLC apresenta imunidade suprimida e precisa ter maior cuidado com infecções, que podem se agravar rapidamente e levar à internação e até ao óbito. Como em qualquer paciente imunossuprimido, é extremamente importante que os pacientes com LLC (e seus familiares) estejam bem protegidos através das vacinas.
O que é leucemia linfocítica crônica (LLC)?
A leucemia linfocítica crônica é um câncer do sangue que surge quando um linfócito B, uma célula do sangue que deveria nos proteger, torna-se tumoral. Ninguém sabe, ainda, a causa dessa alteração. Essas células tumorais até se parecem maduras e normais, mas funcionam mal e sobrevivem por mais tempo do que deveriam. Começam a se multiplicar na medula óssea e dali vão para o sangue, podendo também ficar acumuladas em vários locais, como os chamados órgãos linfáticos (gânglios e baço), e até em outros órgãos, como o fígado.
Quais células a LLC afeta?
A LLC afeta os linfócitos B, células do sistema imunológico responsáveis por produzir anticorpos (proteínas que nos defendem de infecções). Em vez de amadurecer e funcionar normalmente, esses linfócitos B tornam-se clonais, ou seja, passam a ser cópias idênticas anormais de uma mesma célula que se tornou maligna e param de produzir os anticorpos normais. Por isso, as pessoas que têm LLC, mesmo que nunca precisem ser tratadas, são consideradas imunossuprimidas.
Com o tempo, essas células se acumulam na medula e, em muitos casos, em outros órgãos, podendo atrapalhar a produção normal de outras células do sangue. Isso ajuda a explicar sintomas como fadiga, anemia, infecções frequentes e aumento de linfonodos (gânglios linfáticos).
Por que ela é chamada de “crônica”?
A LLC é chamada de crônica porque costuma evoluir de forma lenta, ao contrário das leucemias agudas, que progridem rapidamente. Em muitos casos, a doença é descoberta em exame de rotina e pode permanecer estável por anos.
Isso não significa que a LLC seja “leve” em todos os casos. Significa apenas que sua velocidade de progressão costuma ser menor e que o tratamento pode ser adiado com segurança quando não há critérios clínicos para iniciar terapia. Muitos pacientes, inclusive, podem nunca precisar ser tratados.
LLC é câncer do sangue, da medula ou dos linfonodos?
A LLC é chamada de câncer do sangue porque é o local em que é detectada, mas ela surge dentro da medula óssea, que é a “fábrica” do sangue. As células seguem o fluxo das células normais e vão para o sangue e, em muitos casos, também podem se acumular em outros órgãos, como linfonodos, baço e fígado. Por isso, ela fica na fronteira entre leucemia e linfoma, já que esse último tem como característica o aumento de linfócitos doentes nos gânglios.
Quando as mesmas células anormais estão concentradas principalmente nos linfonodos, com muito poucas células doentes no sangue (linfócitos doentes com número total menor que 5.000/uL), aí a doença recebe o nome de linfoma linfocítico de pequenas células. Ambas são a mesma doença e recebem o mesmo tratamento, sendo somente manifestações diferentes da mesma doença biológica.
Como a LLC se desenvolve no organismo
A LLC se desenvolve quando linfócitos B anormais passam a sobreviver e se acumular de forma descontrolada no corpo. Esse acúmulo começa na medula e vai para o sangue, mas pode afetar os linfonodos eórgãos como baço e fígado.
Papel dos linfócitos B
Os linfócitos B fazem parte da defesa do organismo. Sua principal função é reconhecer agentes infecciosos e produzir anticorpos (um tipo de proteína) para combatê-los.
Na LLC, esses linfócitos B deixam de cumprir bem essa função. Embora estejam aumentados em número, eles não produzem anticorpos que oferecem proteção eficiente, o que contribui para um maior risco de infecções.
O que muda quando essas células se tornam anormais
Quando os linfócitos B se tornam anormais, eles passam a proliferar mais que as células normais e morrem menos, acumulando-se na medula óssea e indo para o sangue.. Isso altera todo o equilíbrio da medula óssea e do sistema linfático.
Como essas células vão ocupando o espaço da medula óssea, que é a “fábrica do sangue”, esse processo pode atrapalhar e reduzir a produção de glóbulos vermelhos, plaquetas e outros glóbulos brancos saudáveis. Quando vão para outros órgãos, também pode causar seu aumento, levando a linfonodos, baço e fígado de tamanho maior que o normal.
Onde a doença pode se acumular
A LLC pode se acumular em diferentes partes do corpo, e isso influencia os sintomas, os exames e o acompanhamento. Ela surge na medula óssea (a “fábrica do sangue”) e vai para o sangue, mas as células doentes também podem estar presentes e aumentar o tamanho dos linfonodos (gânglios linfáticos), baço e fígado.
A cada dez pessoas diagnosticadas com LLC, somente duas apresentam sintomas naquele momento e terão necessidade de tratamento. As outras oito descobriram o aumento dos linfócitos “por acaso” em um hemograma de rotina. Dessas oito pessoas, ao longo da vida, pelo menos três nunca irão precisar de qualquer tratamento para a LLC.
Sangue
No sangue, a LLC costuma aparecer como linfocitose, ou seja, aumento do número total de linfócitos. A suspeita diagnóstica geralmente surge quando há linfocitose absoluta pelos linfócitos B doentes acima de 5.000/uL, conforme descrito pelo MSD Manuals. A contagem absoluta de células é o número total de células por microlitro (uL) ou milímetro cúbico (mm³), não importando a porcentagem dos leucócitos. É importante explicar que não tem como saber, em um simples hemograma, quantos dos linfócitos totais são doentes, porque todos têm o mesmo aspecto no microscópio. Somente o exame de imunofenotipagem de sangue periférico (citometria de fluxo) é que consegue diferenciar as subpopulações (linfócitos B normais ou doentes, linfócitos T e linfócitos NK). Perceba que, através de exames no sangue, como a imunofenotipagem, é possível dar o diagnóstico da LLC, ao contrário de quase todas as outras leucemias, em que a medula óssea deve ser obrigatoriamente avaliada. Na LLC, quase nunca é necessário fazer a avaliação medular.
Medula óssea
A medula óssea, onde todas as células sanguíneas são fabricadas e onde a LLC surge, a infiltração pelas células doentes pode atrapalharr a produção normal das outras células sanguíneas. Isso pode levar à anemia, à fadiga e à redução das plaquetas, às vezes com aumento de sangramento ou do surgimento de manchas roxas e maior facilidade de desenvolver infecções.
Linfonodos
Conforme dados da MSD, mais da metade dos pacientes com LLC apresentam aumento do tamanho dos linfonodos (gânglios linfáticos), e isso ocorre pelo acúmulo das células doentes. Os gânglios podem estar aumentados em qualquer região do corpo, podendo ser visíveis ou palpáveis, como no pescoço, na axila e na virilha ou mesmo dentro do tórax ou abdome.
Baço e fígado
O acúmulo das células da LLC também pode levar a aumento do tamanho do baço e do fígado. Se o baço estiver muito aumentado, pode haver desconforto abdominal e até sensação de “estômago cheio”, mesmo após pequenas refeições, pela compressão desse órgão, que fica próximo.
Quem tem mais risco de desenvolver LLC?
A LLC é mais comum em adultos mais velhos, especialmente em homens, e é extremamente rara em asiáticos, mesmo os que se mudaram para outros países. Não se sabe a causa do desenvolvimento da LLC, mas idade e fatores biológicos (como exposição à radiação) influenciam o risco. Entretanto, não é uma doença hereditária e não há qualquer orientação para investigação genética ou familiar quando uma pessoa recebe o diagnóstico.
Faixa etária mais comum
A LLC afeta principalmente idosos. A mediana de idade ao diagnóstico é de 70 anos, mas pode ocorrer em pacientes mais jovens. A doença é muito incomum em adultos jovens e extremamente rara em crianças.
Em pessoas com mais de 65 anos, a incidência (a descoberta de um novo caso de LLC) descrita em revisão científica é de 21 casos (de LLC) por 100.000 pessoas (não doentes) por ano. Para se ter ideia, a Organização mundial de Saúde define como doença rara aquela que tem um número de casos novos (incidência) abaixo de 65 por 100.000 habitantes, o que faz da LLC uma doença rara.
Diferenças por sexo e origem populacional
A LLC é mais frequente em homens do que em mulheres. Em revisão publicada na SciELO, a razão homem:mulher foi em torno de 2:1 nos Estados Unidos (ou seja, a cada três pacientes diagnosticados, dois são homens e somente um é mulher).
A American Cancer Society descreve a LLC como a leucemia mais comum em adultos em países ocidentais, sendo muito rara no Oriente. Mesmo quando os pacientes orientais se mudam para outros países, continuam tendo muito poucos casos de LLC, então essa “proteção” tem alguma relação genética que ainda não foi descoberta.
LLC é hereditária ou familiar?
É muito raro ocorrer casos familiares de LLC, e, na maioria dos casos, a doença não é herdada, como ocorre em algumas síndromes genéticas raras. Ter um familiar com LLC pode levar a um aumento muito pequeno do risco, mas não há nem mesmo uma orientação para pesquisar em todos os parentes. Na verdade, o que os médicos orientam é que qualquer pessoa faça seus exames de rotina pelo menos uma vez ao ano, e o hemograma, que é usado para diagnóstico dessa e de outras doenças, sempre deve ser feito.
O que significa “LLC familiar”
LLC familiar é o termo usado quando pelo menos dois membros da mesma família têm a doença. Esse padrão sugere que há alguma predisposição genética naquela família, mas ainda não compreendemos os mecanismos exatos e as alterações que levam a isso.. Assim sendo, em pessoas da família sem alteração no hemograma e sem queixas, não devem ser feitos testes genéticos para avaliar o risco desse tipo de câncer, até porque não há uma alteração genética única que apareça em todos os casos dessa doença.
Ter um parente com LLC aumenta o risco?
Um estudo sueco, citado na revisão da SciELO, mostrou que parentes de primeiro grau de quem tem LLC (pais, filhos e irmãos, somente) tiveram risco relativo de 7,53 para LLC. Mesmo assim, é muito importante entender que a LLC é muito variável de acordo com a origem da população, sendo extremamente rara em orientais. Assim sendo, o que se encontrou nos dados da Suécia podem não representar o mesmo no Brasil. Ou seja, os casos familiares (quando há dois ou mais casos de LLC na mesma família próxima) existem, mas são raros e não devem ser feitos exames fora da rotina, e nem testes genéticos para familiares saudáveis sem sinais clínicos ou laboratoriais.
Quais são os sintomas da leucemia linfocítica crônica?
A cada dez pessoas diagnosticadas com LLC, somente duas apresentam sintomas naquele momento e terão necessidade de tratamento. As outras oito descobriram “por acaso” em exames de rotina. Dessas oito pessoas, ao longo da vida, pelo menos três nunca precisarão de qualquer tratamento para a LLC.
Os sintomas mais comuns da leucemia linfocítica crônica costumam incluir fadiga, linfonodos (gânglios linfáticos) aumentados, infecções frequentes, febre baixa no final do dia (sem infecções associadas), suor noturno em grande quantidade, perda de peso acentuada em um período curto de tempo e aumento do baço. A intensidade dos sintomas varia muito entre os pacientes.
Quando a LLC pode não causar sintomas
A grande maioria das pessoas que descobrem estar com LLC nunca sentiu nada: somente duas a cada dez pessoas apresentam sintomas naquele momento e terão necessidade de tratamento. As outras oito descobriram a doença “por acaso” em exames de rotina.
Dessas oito pessoas, ao longo da vida, pelo menos três nunca precisarão de qualquer tratamento para a LLC e continuarão em acompanhamento médico, que chamamos de observação vigilante. Esse nome reforça que os médicos não estão simplesmente “observando” os pacientes, mas sim fazendo avaliações periódicas e orientações clínicas.
Uma das coisas mais importantes do período de observação vigilante é fazer com que o paciente e sua família entendam que a pessoa com LLC é imunossuprimida, ou seja, que tem muito mais facilidade de adquirir infecções ou de elas complicarem.
Sintomas mais comuns
Os sintomas mais comuns da LLC estão ligados ao acúmulo de células anormais no corpo e à queda da função normal do sistema imunológico e da produção da medula óssea.
Fadiga
A fadiga ou cansaço que não passa com o descanso é um dos sintomas mais frequentes. Ela pode estar relacionada à anemia, à própria atividade da doença ou ao impacto inflamatório do câncer no organismo.
Linfonodos aumentados
Os linfonodos, também chamados de gânglios linfáticos, podem estar aumentados em qualquer região do corpo, podendo ser visíveis ou palpáveis, como no pescoço, na axila e na virilha ou mesmo presentes dentro do tórax ou abdome.
Eles não doem, não ficam quentes, vermelhos e nem apresentam saída de pus. Nem sempre o paciente que apresenta aumento de gânglios precisa de tratamento da doença, somente quando eles podem causar algum prejuízo para o organismo, como será explicado abaixo.
Febre, suor noturno e perda de peso
Esses sintomas são chamados de sintomas “B” ou sintomas constitucionais. Mas cuidado, é preciso entender melhor sobre todos eles:
- A febre não é ’qualquer febre’: ela não está nunca associada a uma infeção, é uma febre bem baixa (ou só um leve aumento da temperatura, com sensação de febre), geralmente acontece no final da tarde ou início da noite e não precisa acontecer todos os dias;
- O suor noturno é bem parecido no horário e na frequência, e não se associa a febre ou a atividade física. Ele é um aumento importante da quantidade em que uma pessoa sua. Mulheres no climatério (período próximo à menopausa) ou pessoas com outras doenças, como diabetes ou alteração tireoidiana que estejam descontrolados, também podem apresentar esse sintoma;
- A perda de peso é chamada de sintoma B quando ela é importante: precisa ser de mais de 10% do peso da pessoa em um período menor que seis meses. Um exemplo: uma pessoa que pesava 70 kg e que perdeu mais de 7 kg nesse período. Igual aos outros sintomas, não pode ter qualquer outra causa, senão não é considerada um sintoma B.
A causa desses sintomas está relacionada a certas substâncias inflamatórias que as células da LLC lançam no sangue. Quando os pacientes apresentam qualquer um desses sintomas e eles são comprovadamente causados pela doença, quer dizer que ela está ativa e é necessário começar o tratamento.
Baço aumentado e “sensação de estômago cheio”
O baço é um órgão que fica do lado esquerdo da barriga, logo abaixo das costelas. Quando ele está muito aumentado, pode causar um desconforto na barriga e “empurrar” os órgãos que estão ao seu lado, como o estômago. Isso pode fazer a pessoa ficar com a sensação de barriga cheia, como se tivesse comido muito, mesmo com pouca quantidade.
Infecções frequentes
A LLC reduz a eficiência do sistema imunológico, já que a célula doente, o linfócito B, faz parte desse sistema. Ele para de ativar outras células e, mais importante, para de fabricar os anticorpos, que são proteínas que nos defendem contra microorganismos e também são chamadas de gamaglobulinas. A redução dos anticorpos no sangue é, portanto, também chamada de hipogamaglobulinemia (hipo: baixa; gamaglobulinas: anticorpos; e a parte final significa “no sangue”).
O MSD Manuals descreve que isso ocorre em dois a cada três pacientes com LLC, o que ajuda a explicar porque são considerados imunossuprimidos e porque têm infecções frequentes, principalmente respiratórias.
Sinais de alerta que exigem avaliação médica
Alguns sinais que os pacientes com LLC podem apresentar exigem atendimento médico mais rápido:
- febre persistente (mesmo sem causa)
- falta de ar persistente ou que só piora
- sangramentos ou manchas roxas aumentadas sem explicação
- perda de peso sem qualquer motivo
- suor noturno intenso (ler acima a explicação)
- aumento rápido de linfonodos
- dor abdominal importante
- infecções repetidas ou graves (que podem acontecer até sem febre!)
Como a LLC é diagnosticada?
A LLC é diagnosticada pela combinação de hemograma com confirmação pelo exame chamado imunofenotipagem (ou citometria de fluxo), que é feito no sangue periférico. É extremamente raro que precise ser feito exame da medula óssea nesses casos.
Somente quando o paciente for ser tratado (todas as vezes) devem ser feitos exames do material hereditário da célula doente (testes genéticos e moleculares). Esses exames, feitos no sangue do paciente, são uma análise detalhada da leucemia e mostram quais defeitos (ou mutações) existem nessas células e nos ajudam a prever o comportamento da doença e a escolher o melhor tratamento para cada paciente.
Quando o hemograma levanta suspeita
O hemograma costuma ser o primeiro exame a levantar suspeita. No sangue, a LLC costuma aparecer como linfocitose, ou seja, aumento do número total de linfócitos. A suspeita diagnóstica geralmente surge quando há linfocitose absoluta pelos linfócitos B doentes acima de 5.000/uL (ou 5.000/mm³), conforme descrito pelo MSD Manuals. A contagem absoluta de células é o número total de células por microlitro (uL) ou milímetro cúbico (mm³), não importando a porcentagem dos glóbulos brancos. É importante explicar que não tem como saber, em um simples hemograma, quantos dos linfócitos totais são doentes, porque todos têm o mesmo aspecto no microscópio. Somente o exame de imunofenotipagem do sangue (citometria de fluxo) consegue diferenciar as subpopulações (linfócitos B normais ou doentes, linfócitos T e linfócitos NK).
Perceba que, através de exames no sangue periférico, como a imunofenotipagem, é possível dar o diagnóstico da LLC, ao contrário de quase todas as outras leucemias, em que a medula óssea deve ser obrigatoriamente avaliada. Na LLC, quase nunca é necessário fazer a avaliação medular. É importantes entender que outras condições também podem causar linfocitose (aumento do número de linfócitos no sangue), como infecções virais e algumas outras doenças hematológicas (por exemplo, alguns tipos de linfomas não Hodgkin, como o linfoma de células do manto, ou outras leucemias, como a tricoleucemia ou leucemia de células cabeludas). A imunofenotipagem e outros exames auxiliam nessa diferenciação.
Exames que confirmam o diagnóstico
A confirmação da LLC depende de identificar que os linfócitos aumentados são linfócitos B doentes e pertencem a um clone anormal de LLC. O principal exame para isso é a imunofenotipagem (ou citometria de fluxo), que explicamos abaixo.
Hemograma e esfregaço periférico
O hemograma mostra a quantidade de células do sangue. Já o esfregaço periférico permite observar a aparência dessas células ao microscópio. Acima, explicamos melhor sobre o número de células necessário para suspeitar da doença.
Imunofenotipagem / Citometria de fluxo
A imunofenotipagem identifica algumas proteínas que estão presentes na parte de fora (superfície) das células. Dependendo do tipo de combinação dessas proteínas, ela consegue dizer se são células normais ou doentes, de que família são e até o tipo da doença.
Nesse caso, a grande maioria dos pacientes com LLC têm a confirmação por esse exame e somente com a análise do sangue periférico. Alguns casos menos frequentes exigem a retirada de um gânglio para análise e, muito raramente, é preciso avaliar a medula óssea.
Outros exames importantes
Alguns exames não são obrigatórios para confirmar a LLC, mas são muito úteis para avaliar o risco e planejar o tratamento. É importante explicar que eles são feitos somente nas células de LLC, e que as alterações genéticas avaliadas não estão nas células normais da pessoa com a doença. Assim sendo, não são transmitidas pelos espermatozoides ou óvulos para as gerações seguintes.
Vários exames serão citados aqui nessa seção, mas os essenciais são: 1) a pesquisa da deleção do 17p (del17p); 2) a análise da mutação do gene TP53; e 3) o status de mutação do IGHV.
Atenção: os exames abaixo somente devem ser feitos em pacientes que irão iniciar o tratamento da LLC. Fazer esses exames sem necessidade só irá causar mais estresse desnecessário e não vai ajudar em nada. O resultado não vai indicar a necessidade de começar o tratamento, além de poder mudar no momento em que a pessoa realmente precisa começar o tratamento.
Avaliação genética da doença: FISH e citogenética (cariótipo)
Os exames genéticos ajudam a identificar alterações presentes nas células da leucemia. Essas informações são importantes porque ajudam a prever o comportamento da doença (seu prognóstico) e a resposta a determinados tratamentos, podendo influenciar a escolha das melhores opções para cada paciente.
Cada exame avalia aspectos diferentes do material genético da célula doente. Ambos os exames são muito importantes, mas, se tivermos que escolher, o FISH para a busca da del17p é mais importante.
O FISH é um teste que procura alterações específicas nos cromossomos, que são estruturas dentro do núcleo da nossa célula onde se encontra uma grande quantidade de material genético do nosso corpo. Temos 46 cromossomos em cada célula.
As alterações podem ser de diversas formas, como a perda ou o ganho de pequenos pedaços dos cromossomos. Entre as alterações mais importantes na LLC estão a perda de parte do cromossomo 17, chamada de deleção 17p [del(17p)], e a perda de parte do cromossomo 11, chamada de deleção 11q [del(11q)]. Explicaremos abaixo sobre a deleção 17p e sobre a mutação do gene TP53, que fica dentro desse cromossomo.
A deleção 11q [del(11q)] pode indicar uma evolução mais rápida em alguns casos, mas esse marcador não é mais tão usado atualmente, já que a maioria das terapias consegue melhorar esse resultado. Em geral, os pacientes que possuem essa alteração têm mais gânglios e baço de tamanho maior.
Já o teste chamado de citogenética convencional (cariótipo) permite avaliar os cromossomos dos linfócitos da LLC de forma mais ampla, identificando alterações mais complexas que podem não ser detectadas pelo FISH. As alterações cromossômicas nas células doentes não são raras, mas quando há vários tipos diferentes na mesma célula, isso se chama cariótipo complexo, o que leva a uma doença um pouco mais resistente a alguns tipos de tratamento.
Testes moleculares e biomarcadores
Biomarcadores são características biológicas da leucemia que nos ajudam a compreender melhor o comportamento da doença, avaliar seu prognóstico e escolher o tratamento mais adequado para cada paciente.
Os testes moleculares avaliam alterações menores e mais específicas do material genético das células da leucemia, complementando os resultados dos exames citogenéticos e do FISH que já explicamos acima.
Um dos biomarcadores mais importantes na LLC é a mutação do gene TP53, que fica no cromossomo 17. Os genes são pedacinhos do DNA, a molécula que contém as instruções para o funcionamento das células do nosso organismo. O cromossomo é uma estrutura onde grande quantidade do material genético do nosso corpo se encontra, e temos 46 deles em cada célula.
O TP53 é um dos genes mais importantes porque ele atua como um mecanismo natural de proteção contra o câncer, ajudando a reparar danos no material genético (DNA) ou a eliminar células anormais. Ele é o chamado “guardião do genoma”.
A avaliação para saber se esse gene está ativo precisa ser feita por meio de dois testes: 1) FISH, explicado acima, para checar se o gene está presente (avaliando o cromossomo 17); e 2) por sequenciamento da região em que o TP53 está dentro do DNA da célula doente, para ver se houve uma mutação.
O TP53 fica no braço curto do cromossomo 17 e, quando ele é perdido (ou deletado) – o que é detectado no FISH com a del17p, como explicado acima – o efeito é o mesmo da mutação: a perda da proteção.
Quando perdemos essa proteção do TP53, seja porque ele foi “retirado” pela perda do pedaço do cromossomo 17 [deleção do 17p ou del17p] ou por mutação do gene TP53, as células da leucemia ficam “livres” e podem se multiplicar mais facilmente e sobreviver por mais tempo. Essas células são mais resistentes à quimioterapia e apresentam um resultado muito melhor ao tratamento com os medicamentos novos. Cerca de 1 a cada 10 pessoas que acabaram de descobrir a doença perderam essa proteção do TP53, enquanto que, a cada vez que a doença recai, vão aumentando as chances de possuir essa alteração, chegando a ser 3 a 4 indivíduos com a alteração a cada 10 pessoas com LLC, ao longo de vários tratamentos da doença. É, então, muito importante que esses dois testes sejam feitos (em quem não possui a alteração), a cada vez que for começar um novo tratamento, porque, se desenvolver essa alteração, é importante rever o tipo de tratamento a ser feito.
Além do TP53, outros biomarcadores podem ser avaliados na LLC. Entre eles, destaca-se o status da mutação do IGHV, que ajuda a estimar a velocidade de evolução da doença e sua resposta a determinados tratamentos. O IGHV é um gene que mostra em que fase do amadurecimento do linfócito B que a célula ficou doente. Esse é um teste importante e pode influenciar na escolha de alguns tipos de tratamento. Esse teste não precisa ser repetido porque ele fala da primeira célula que ficou doente, e as outras todas vão seguir essa genética original, ao contrário dos outros testes que explicamos aqui.
Apesar de não serem feitos de rotina no Brasil, vale a pena saber que outros genes, como NOTCH1, SF3B1 e BIRC3, também podem apresentar alterações associadas ao comportamento da LLC, embora tenham menor impacto nas escolhas atuais do tratamento.
Atualmente, a pesquisa de alterações do TP53 (a mutação ou a del17p) e a avaliação do IGHV são consideradas exames fundamentais antes do início do tratamento da LLC.
Quando a medula óssea é ou não necessária
Raramente deve ser feita a biópsia de medula óssea, porque a célula sanguínea é exatamente igual à da medula. Ela pode ser solicitada em situações muito específicas, como quando há alterações no hemograma que não são explicadas somente pela LLC, antes de certos tratamentos ou quando há dúvidas diagnósticas.
Quando fazer a retirada (biópsia) de um linfonodo (gânglio linfático)?
A explicação é muito parecida com a fornecida acima: somente se o teste feito pelo sangue não conseguir dar o diagnóstico. Isso pode acontecer em alguns casos, e a análise do gânglio retirado (análise anatomopatológica e imunohistoquímica) vai ajudar a definir qual o tipo da doença.
Outra indicação é a suspeita de que a LLC transformou-se em algum linfoma agressivo. Isso é muito raro, mas pode ocorrer em alguns casos e se chama transformação de Richter, que é a transformação de algumas células da LLC em células de um linfoma agressivo. É um quadro em que o restante da doença continua sem aumento ou com piora lenta, mas um ou mais gânglios começam a se comportar de maneira agressiva, crescendo muito rapidamente. Esses precisam ser retirados através de uma biópsia e analisados pelo médico patologista, sendo feita a análise anatomopatológica e imunohistoquímica.
É importante lembrar que a LLC, assim como a maioria dos linfomas e leucemias, não se cura com a retirada cirúrgica dos gânglios ou do baço.
LLC e linfocitose B monoclonal (MBL): qual a diferença?
A linfocitose B monoclonal é uma condição em que existe uma pequena família (clone) de células linfoides (linfócitos) B semelhante ao da LLC, mas o diagnóstico não “fecha” para a doença, pois é preciso ter mais de 5.000/uL linfócitos B doentes no sangue e não ter gânglios aumentados (porque aí seria linfoma linfocítico, outra manifestação da LLC).
A progressão da MBL para LLC ocorre em cerca de 1% a 2% ao ano, segundo estudos de acompanhamento. Não recomendamos que seja buscado ativamente esse diagnóstico, nem mesmo em parentes de quem tem a LLC, pois a grande maioria dos casos nunca desenvolverá a doença.
Como a LLC é classificada e acompanhada
A classificação prognóstica é uma tentativa de dividir os pacientes em grupos para tentar prever como a doença irá se comportar ao longo do tempo e como irá responder aos tratamentos. Uma das maneiras de se classificar os pacientes é utilizando-se dos sistemas clínicos de Rai e Binet e também de biomarcadores que mostram o risco biológico da doença. Essa combinação ajuda a estimar o prognóstico e a decidir quando tratar.
Entretanto, ao longo do tempo, alguns fatores que previam uma resposta ruim foram mudando, porque o tratamento também se modificou, então aqui vamos fazer uma explicação geral, mas nada substitui a conversa detalhada com seu médico, porque há muitas questões envolvidas nessas considerações, que devem ser específicas para cada paciente.
Estadiamento clínico de Rai e Binet
Os Drs. Kanti Rai e Jaques-Louis Binet foram hematologistas que, nos EUA e na Europa, respectivamente, criaram sistemas simples para dividir os pacientes com LLC em algumas categorias baseadas no hemograma e no exame físico, já que há muitas maneiras de o paciente apresentar-se com a doença. Isso facilitou o entendimento médico sobre a evolução da LLC e até a indicação de tratamento, em alguns casos.
Estadiamento Rai
O sistema Rai foi criado em 1975 e ainda é muito usado nos Estados Unidos. Ele classifica a LLC em estádios de 0 a IV com base em linfocitose (aumento do número de linfócitos no sangue), aumento de linfonodos, aumento de baço ou fígado, anemia e plaquetas baixas.
Estadiamento Binet
O sistema Binet, de 1977, é mais usado na Europa e no Brasil. Ele considera quantas áreas linfáticas estão acometidas e se há anemia ou trombocitopenia (plaquetas baixas).
Biomarcadores que influenciam o prognóstico e o tratamento
Biomarcadores são características biológicas da leucemia que ajudam a compreender melhor o comportamento da doença (por exemplo, uma evolução mais ou menos rápida para precisar de tratamento), avaliar o seu prognóstico e escolher o tratamento mais adequado para cada paciente.Acima, nesse mesmo texto, foi explicado com mais detalhes sobre esses biomarcadores descritos abaixo, dentre outros. Aqui, só iremos citar os mais importantes:
As alterações do gene TP53, que são encontrados na deleção do 17p [del(17p)] ou na mutação do próprio gene [mutação do TP53].
Essas alterações estão associadas a um pior prognóstico e a uma menor resposta à quimioterapia tradicional. Por isso, esses testes são especialmente importantes antes de iniciar o tratamento.
O estado mutacional do gene IGHV
O status mutado ou não mutado de IGHV ajuda a estimar o comportamento da LLC. Em geral, IGHV mutado está associado a uma evolução mais favorável.
del(11q) e outros achados
A del(11q) também pode indicar um curso mais agressivo em alguns casos, mas esse marcador não é mais tão usado atualmente, já que a maioria das terapias consegue melhorar esse resultado.
Como já explicado, o conjunto desses achados, associados a outras características, é o que guia a decisão clínica Entender isso é muito importante, além de conversar com seu médico sobre essas questões.
Toda LLC precisa de tratamento imediato?
Não. A cada 10 pessoas que descobrem a doença, somente duas, em geral, precisam de tratamento. Dessas, cerca de três pessoas nunca precisarão receber nenhum tratamento para LLC, pois a doença não evolui. Não há qualquer benefício em tratar a doença quando não existem sintomas, porque, dessas dez pessoas que descobrem que têm LLC, cerca de três nunca precisarão receber nenhum tratamento. Vários estudos com medicamentos antigos e novos já foram feitos e não houve nenhum benefício.
O que é observação vigilante (chamada, em inglês, “watch and wait”)
Observação vigilante é o acompanhamento regular sem iniciar qualquer medicamento naquele momento. Isso inclui consultas, exame físico, hemogramas e avaliação de sintomas, além da indicação de vacinas (leia essa parte importante nesse mesmo texto) e das orientações para cuidar precocemente de infecções.
É importante também que a pessoa com LLC faça avaliações de rotina para câncer de próstata ou de mama e útero, assim como câncer de pele e outros, pois ela tem mais chance de apresentá-los.
Adquirir ou manter hábitos saudáveis é também muito importante, inclusive porque, caso seja preciso tratamento, a pessoa estará muito melhor fisicamente.
Também é relevante entender que esse acompanhamento não significa “abandono”. Significa evitar tratamento antes da hora, quando ainda não há nenhum benefício comprovado através de vários estudos, tanto com medicamentos antigos como novos.
Quando observar é a melhor conduta
A observação costuma ser indicada quando o paciente está sem sintomas significativos, sem anemia, sem plaquetas baixas e sem aumento rápido da doença. Em estágios iniciais, muitos pacientes podem ficar anos nessa fase ou nunca evoluir para uma apresentação da doença. Leia a seção seguinte para entender melhor.
Quando o tratamento passa a ser indicado
O tratamento da LLC passa a ser indicado quando há sinais claros de progressão (evolução) da doença, sintomas importantes ou comprometimento da medula óssea pela doença, atrapalhando a formação de células normais de outras linhagens (famílias).
Sintomas constitucionais e sintomas B
Os sintomas B são três e já foram explicados em detalhes acima, nesse mesmo texto: febre sem infecção, suor noturno intenso e perda de peso sem motivo. Eles também são chamados de sintomas constitucionais. É essencial que seja feita uma investigação médica para ter certeza de que eles são realmente causados pela LLC e não por outras causas (outros tumores, infecções ocultas, menopausa, diabetes descompensado, alterações de tireoide, rim, fígado, dentre outros). Às vezes os pacientes ficam angustiados porque os médicos fazem essa investigação e pode demorar um pouco para iniciar o tratamento, mas é melhor do que tratar sem necessidade.
A presença de somente um desses sintomas já diz que o paciente “tem sintoma B” e já indica tratamento (se for, realmente, pela LLC).
A fadiga importante não é um sintoma B, somente um sintoma constitucional e, sozinha, não indica tratamento.
Progressão da doença
O crescimento progressivo de linfonodos (gânglios linfáticos) com compressão de alguma estrutura do corpo ou aumento importante do baço com sintomas podem sinalizar a necessidade de tratamento, mas cada caso é um caso. Há pacientes com gânglios visíveis que nunca precisarão de tratamento!
Há, também, casos em que os gânglios aumentam e, depois de algum tempo, apresentam redução, e depois aumentam e reduzem. Há vários pacientes que referem isso mesmo sem tratar. E é preciso lembrar que gripes ou outras infecções também levam, normalmente, a aumento de gânglios, e em pacientes com LLC isso não é diferente.
Sobre o hemograma, é importantíssimo entender: quando os números dos linfócitos estão aumentando cada vez mais, nem sempre é preciso de tratamento. Muitas vezes eles aumentam sem necessidade de tratamento, porque os médicos usam mais outros fatores (que já explicamos aqui) para iniciar o tratamento.
É importante entender também: não há um número de linfócitos no hemograma que indique tratamento. Há pacientes com 400 mil linfócitos/uL (ou mais) e que nunca precisarão tratar e há pacientes com 25 mil/uL que apresentam febre, perda de peso ou outras condições e, assim, precisam de tratamento. Em geral, os médicos esperam por outras alterações para que o paciente inicie o tratamento.
Essa questão do número dos linfócitos no hemograma é importantíssima de ser entendida. A maioria dos pacientes fica muito preocupada com esses números, mas isso não é o suficiente para iniciar tratamento. Inclusive, há pacientes que apresentam aumento por um período e depois isso estabiliza, sem qualquer prejuízo, ou até reduz.
Uma coisa que os médicos sempre avaliam é que, se esse aumento realmente significar que o paciente vai precisar tratar, o paciente vai ter outras alterações, como anemia ou plaquetas baixas SEM outras causas, sintomas B ou outros.
Anemia ou plaquetas baixas
A LLC começa na medula óssea, mas nem sempre atrapalha a produção de outras células, ficando “quietinha” por lá. Mas, se a doença evoluir e as células aumentarem tanto que começam a atrapalhar a produção de outras células, aí vão aparecer anemia ou plaquetas baixas, e o tratamento geralmente deixa de ser opcional e passa a ser necessário.
Mas é essencial que se tenha certeza de que essas alterações são realmente porque a LLC está atrapalhando a medula óssea e não por outras causas. Uma avaliação clínica geral, com exames de sangue, geralmente já ajuda a detectar. As causas não podem ser outras. Ou seja, para a anemia, tem que ser afastado falta de ferro, B12 ou ácido fólico, sangramentos, destruição do próprio sangue ou alterações tireoidianas ou renais.
Na anemia, os níveis para indicar tratamento são, geralmente, uma hemoglobina abaixo de 10 g/dL, não relacionado a outras causas, como já explicado. Alguns médicos já indicam tratamento abaixo de 11 g/dL. Em geral, depende muito de como era a hemoglobina do paciente antes dessa queda.
Nas plaquetas, as causas de falta de produção também têm que ser afastadas, mas pode haver um pouco de destruição pelo próprio corpo, sem precisar de tratamento. Em geral, indicava-se tratamento quando as plaquetas estavam abaixo de 100.000/uL. Atualmente, os médicos observam outros fatores: se as plaquetas estiverem abaixo desse valor, mas não houver anemia, eles esperam para começar a tratar. A explicação é que a anemia, quase sempre, começa antes da redução das plaquetas.
Linfonodos, fígado ou baço aumentados
Órgãos aumentados que causam sintomas, desconforto ou começam a apertar outras estruturas (comprimindo) também entram entre os critérios para iniciar terapia.
Doenças auto-imunes
Algumas doenças autoimunes, como anemia hemolítica (causada pela destruição do próprio corpo) e plaquetopenia autoimune, que precisam de tratamento, não indicam obrigatoriamente o tratamento da LLC. Em geral, os médicos primeiro tratam essas doenças (geralmente com corticoide, às vezes com outros tratamentos específicos). Somente nos casos em que não há resposta adequada é que a LLC também precisa ser tratada.
Observar x tratar: quando cada conduta faz sentido
| Situação clínica | Observação vigilante | Tratamento |
|---|---|---|
| Sem sintomas | Sim | Não |
| Hemograma estável | Sim | Não |
| Anemia (causada, com certeza, pela LLC) | Não | Sim* |
| Plaquetas baixas (associadas à anemia e causadas, com certeza, pela LLC) | Depende* | Depende* |
| Linfonodos ou baço crescendo rapidamente | Depende* | Depende* |
| Febre, suor noturno, perda de peso – só um deles, que seja, com certeza, pela LLC | Não | *Sim |
*Leia as explicações nos tópicos anteriores.
Como é o tratamento da leucemia linfocítica crônica?
Mais importante do que saber com o que tratar, é saber quando precisa tratar. Por isso, leia atentamente o texto acima sobre isso antes dessa parte.
O tratamento da leucemia linfocítica crônica depende de vários fatores, como o estadio da doença, dos sintomas, da idade, das doenças associadas (comorbidades) e dos biomarcadores. Hoje, a base do tratamento moderno inclui terapias-alvo, imunoterapia e, em situações específicas, quimioimunoterapia (quimioterapia combinada com imunoterapia).
Principais opções terapêuticas
As opções atuais são muito mais individualizadas do que no passado. A escolha depende tanto da biologia da LLC quanto das características do paciente.
Leia, antes dessa seção, as explicações sobre diagnóstico e prognóstico da LLC.
Terapias-alvo
As terapias-alvo bloqueiam mecanismos específicos da célula tumoral e os citados abaixo atuam em proteínas que ficam dentro das células. Entre os exemplos estão os inibidores de BTK, como ibrutinibe, acalabrutinibe e zanubrutinibe, e, mais recentemente, o pirtobrutinibe. Outro exemplo é o inibidor de BCL-2, o venetoclax, que geralmente é usado associado à imunoterapia contra o CD20, uma proteína que fica na parte de fora das células, o obinutuzumabe ou o rituximabe. Atualmente, são muito usadas também as associações entre os inibidores de BTK e de BCL2, como os protocolos ibrutinibe ou acalabrutinibe + venetoclax.
Imunoterapia
A imunoterapia na LLC inclui anticorpos monoclonais como obinutuzumabe e rituximabe, geralmente combinados com outras drogas. Eles ajudam o sistema imune a reconhecer e atacar as células da LLC. Eles podem ser usados junto do venetoclax, descrito acima, ou junto da quimioterapia.
Quimioimunoterapia
A quimioimunoterapia (quimioterapia combinada com imunoterapia) perdeu muito espaço com a chegada das terapias-alvo, que são menos tóxicas, mas ainda pode ser considerada em cenários selecionados. Os tratamentos usados são o chamado FCR (fludarabina, ciclofosfamida e rituximabe), usado em pacientes mais jovens, e o G-clorambucil (obinutuzumabe + clorambucil) ou o R-clorambucil (rituximabe + clorambucil).
Sobre a maneira de tratar: o que é tratamento finito e em quais casos pode ser usado
Tratamento finito é aquele com duração programada, em vez de uso contínuo até a doença perder a resposta e progredir novamente. Esquemas com venetoclax associado a obinutuzumabe ou rituximabe, ibrutinibe ou acalabrutinibe + venetoclax, além das quimioimunoterapias são exemplos de abordagem finita.
Esse conceito importa porque pode reduzir o tempo total em tratamento e facilitar o planejamento de rotina. A escolha depende de muitas questões da doença e também dos pacientes, e é importantíssimo conversar com seu médico para ver qual tratamento está mais indicado para você. O tema também aparece em materiais voltados ao paciente, como o guia da AbbVie.
Como o médico escolhe o tratamento
A decisão considera:
1. A presença ou ausência de sintomas
2. Idade, doenças associadas (comorbidades), medicamentos em uso e estado geral
3. Função renal e outras doenças
4. Alterações da célula da LLC, como mutações do gene TP53 e del(17p)
5. Status da mutação do gene IGHV
6. Preferência do paciente por tratamento contínuo ou finito, quando aplicável
7. Fatores como facilidade do paciente de ir ao centro de tratamento, distância de sua casa, presença de um cuidador, dentre outros.
Infelizmente, uma condição que não pode ser esquecida é saber o acesso a quais medicamentos o paciente possui, pois nem todos os brasileiros conseguem ter acesso a terapias que não sejam a quimioimunoterapia (ou até somente quimioterapia).
Tratamento de suporte
Além do controle da LLC, muitos pacientes precisam de medidas para prevenir complicações e manter qualidade de vida.
Prevenção e manejo de infecções
A LLC afeta a imunidade, por isso, mesmo que a pessoa não esteja fazendo tratamento, são considerados imunossuprimidos. Portanto, a vacinação (importante! Sugerimos fortemente a leitura do texto acima), a avaliação rápida de febre (que pode não aparecer mesmo em infecções graves) e o cuidado com infecções, principalmente respiratórias, fazem parte do manejo. É importante entender que as infecções nesses pacientes não costumam se comportar como nas outras pessoas e podem precisar de uma avaliação médica, até de pronto socorro, com maior frequência. Não espere piorar para procurar ajuda médica!
Imunoglobulina em casos selecionados
Pacientes com infecções recorrentes e hipogamaglobulinemia importante podem receber reposição de imunoglobulina pela veia em situações selecionadas. Leia sobre essa baixa de anticorpos, melhor explicada no texto acima.
Transfusões e suporte hematológico
Anemia e plaquetas baixas podem exigir transfusões ou outras medidas de suporte, dependendo da gravidade e da fase da doença. Converse com seu médico para entender melhor.
LLC tem cura?
A LLC não é curável com as terapias convencionais atuais. Alguns pacientes poderiam ficar curados com transplante alogênico de células tronco hematopoéticas (chamado ainda de “transplante de medula óssea”), mas esse é um tratamento que tem toxicidade elevada e que nem todos aguentam. A grande maioria dos pacientes fica bem com outros tratamentos, já explicados acima.
Mesmo sem cura, uma parte dos pacientes jamais precisará de tratamento e outra parte terá um ótimo controle da doença, podendo retomar sua vida com qualidade.
Diferença entre controle da doença, remissão e cura
Controle significa reduzir ou estabilizar a LLC para evitar sintomas e complicações. Remissão significa que a doença ficou muito reduzida após o tratamento. Cura significa eliminação definitiva, algo que não é a expectativa usual na LLC.
O que esperar da evolução da LLC hoje
A evolução é muito variável e difícil prever, pois as pessoas possuem muitas características individuais. Com os novos tratamentos, há pessoas que vivem o mesmo número de anos que viveriam sem a doença. Mesmo para quem não precisa tratar, as vacinações que vão levar à redução do risco de infecções já auxilia no aumento da expectativa de vida.
É muito importante entender que há aumento de vários tumores nos pacientes com LLC, tanto na frequência como na gravidade. Os tumores de pele (não melanoma) e os cânceres de próstata são exemplos.
Prognóstico: por que varia tanto entre pacientes
O prognóstico depende de estágio, idade, comorbidades, velocidade de progressão e biomarcadores. Algumas pessoas vivem muitos anos sem tratamento; outras precisam de terapia mais cedo. Outras, ainda, jamais precisarão de qualquer tratamento para a doença.
Viver com LLC: dúvidas práticas do paciente
Viver com LLC geralmente significa acompanhamento regular, atenção a infecções e boa comunicação com o onco-hematologista. Em muitos casos, a rotina pode ser mantida com adaptações e monitoramento.
Como costuma ser o acompanhamento
O acompanhamento inclui consultas periódicas, exame físico, hemograma e, quando necessário, outros exames. A frequência varia conforme a fase da doença e o tratamento em curso.
O paciente com LLC tem risco de outras doenças?
Sim. Há aumento dos casos de outros cânceres, como os de pele e próstata, então os pacientes devem ficar atentos e fazer exames de rotina. No caso do câncer de próstata, não somente o PSA, mas também o exame de toque da próstata ajuda a detectar tumores mais cedo.
LLC afeta a imunidade?
Sim. A LLC afeta a imunidade tanto pela própria doença quanto por alguns tratamentos. Isso aumenta o risco de infecções e exige atenção redobrada à febre, tosse persistente e outros sinais infecciosos.
Vacinas e prevenção de infecções
Vacinação faz parte do cuidado. Mesmo sem tratamento, a pessoa com LLC é imunossuprimida e precisa ter maior atenção a infecções, que podem se agravar rapidamente e levar à internação e até ao óbito. Como em qualquer paciente imunossuprimido, é extremamente importante que os pacientes com LLC (e seus familiares) estejam bem protegidos através das vacinas.
Assim sendo, os pacientes com LLC devem receber as vacinas para gripe (todos os anos), vírus sincicial respiratório (dose única), pneumococo (depende do tipo) e COVID-19 (essa com reforço a cada 6 a 12 meses!), além de precisar receber outras, como a vacina recombinante para evitar o herpes zoster, dentre outras.
O paciente nunca pode receber vacinas contendo vírus vivos atenuados (vírus vivos “defeituosos”), como a de febre amarela, sarampo, caxumba, rubéola (tríplice viral), dengue, rotavírus, dentre outras.
Sempre pergunte à equipe médica que o acompanha, antes de receber a sua próxima vacinação.
Quando procurar atendimento com urgência
Procure atendimento com urgência em caso de:
- febre
- falta de ar
- sangramento importante
- confusão mental
- dor intensa
- queda importante do estado geral
Perguntas para levar à consulta
Levar perguntas prontas ajuda a entender melhor o diagnóstico. Um bom ponto de partida é usar materiais de apoio ao paciente, como o guia da AbbVie para conversa com o seu médico.
Perguntas úteis incluem:
- Minha LLC precisa de tratamento agora?
- Se não precisa, o que eu posso fazer para me manter mais saudável?
- Já que tenho mais chance de apresentar infecções e de elas complicarem, o que posso fazer para reduzir essas chances?
- Já que vou ter que tratar, quais exames faltam para ajudar na escolha do tipo do tratamento?
- Tenho alguma alteração na célula da LLC que vai mudar o tratamento, como a mutação do TP53, a del(17p) ou o IGHV não mutado?
- Como será o tratamento que vou precisar fazer?
- Meu tratamento será contínuo ou vou usar por um tempo finito?
- Quais os efeitos colaterais do tratamento?
- Quais sinais devem me fazer procurar um atendimento de urgência?
LLC, linfoma linfocítico de pequenas células e leucemias agudas: qual a diferença?
LLC, SLL e leucemias agudas são doenças diferentes, embora possam causar confusão pelo nome. A principal diferença está no local predominante da doença, na velocidade de progressão e no tipo de célula envolvida. Ainda há a leucemia mieloide crônica (LMC), com quadro clínico, diagnóstico e tratamento totalmente diferentes.
LLC vs linfoma linfocítico de pequenas células (SLL)
A LLC e SLL são biologicamente muito parecidas. A LLC surge na medula óssea e vai para o sangue, enquanto o SLL se manifesta mais nos linfonodos e tem menos de 5.000 células linfoides B doentes por microlitro de sangue periférico. As duas condições são consideradas formas da mesma doença e devem receber o mesmo tipo de tratamento, caso precisem ser tratadas.
LLC vs leucemias agudas
As leucemias agudas progridem rapidamente e exigem tratamento imediato. São emergências hematológicas. A LLC geralmente evolui de forma lenta e pode ser apenas observada em vários casos.
O que é a transformação de Richter?
A transformação de Richter ocorre quando a LLC se transforma em um linfoma mais agressivo. Apenas algumas células são afetadas e apresentam aumento rápido do tamanho, enquanto o restante da doença continua a se comportar da mesma maneira. É necessária a retirada do gânglio (ou de pedaço dele) através de uma biópsia e sua avaliação pelo médico patologista, sendo feitas as análise anatomopatológica e imunohistoquímica. Isso ocorre em cerca de 2% a 10% dos casos, segundo dados do MSD Manual, e exige reavaliação rápida.
Tabela: LLC x SLL x leucemias agudas
| Doença | Local predominante | Velocidade | Tratamento imediato |
|---|---|---|---|
| LLC | Sangue e medula óssea | Geralmente lenta | Nem sempre |
| SLL | Linfonodos | Geralmente lenta | Nem sempre |
| Leucemias agudas | Sangue e medula óssea | Rápida | Sim, urgente |
Perguntas frequentes sobre leucemia linfocítica crônica
O que é leucemia linfocítica crônica?
A leucemia linfocítica crônica é um câncer do sangue que afeta linfócitos B e costuma evoluir lentamente. Ela pode ficar sem sintomas por anos e nem sempre exige tratamento imediato. Não se sabe a causa. Muitos pacientes jamais precisarão de tratamento.
Leucemia linfocítica crônica é hereditária?
Apesar de haver alguns casos descritos no mundo, a grande maioria não é hereditária, embora alguns estudos mostrem aumento do risco familiar (como um estudo sueco). Ter um parente de primeiro grau (pais ou irmãos) com LLC aumenta o risco, mas não é indicação de investigação da doença em pessoas sem sintomas.
LLC aparece em crianças?
Não é o padrão. A LLC é uma doença típica de adultos mais velhos e é raríssima em crianças e adolescentes.
Quem tem LLC sempre faz quimioterapia?
Não. Muitos pacientes com LLC jamais precisarão de qualquer tratamento e, dos que precisam, muitos hoje recebem as chamadas terapias-alvo e imunoterapia, que são tratamentos “inteligentes” que alcançam e bloqueiam ou destroem a célula doente, afetando muito pouco as outras células do organismo.
O hemograma sozinho confirma leucemia linfocítica crônica?
Não. O hemograma levanta a suspeita, mas a confirmação costuma depender da imunofenotipagem do sangue periférico (feita por citometria de fluxo), que determina de que família são as células doentes e se elas são do mesmo clone (ou seja, todas idênticas a partir de uma célula tumoral).
O que significa observação vigilante na LLC?
Significa acompanhar a doença com consultas e exames, sem iniciar tratamento naquele momento. É uma estratégia ativa, segura e baseada em critérios médicos.
LLC tem cura?
A LLC não é considerada curável com as terapias convencionais atuais. Alguns pacientes poderiam ficar curados com transplante alogênico de células tronco hematopoéticas (chamado ainda de “transplante de medula óssea”), mas esse é um tratamento que tem uma elevada toxicidade que nem todos aguentam, e a maioria dos pacientes fica bem com tratamentos muito mais leves.
Mesmo sem cura, uma parte dos pacientes jamais precisará de tratamento e outra parte terá um ótimo controle da doença, podendo retomar sua vida com qualidade.
É possível viver muitos anos com leucemia linfocítica crônica?
Sim. Muitos pacientes vivem por longos períodos, especialmente quando a doença tem comportamento indolente e bom perfil biológico. Há estudos mostrando que alguns tipos de tratamento fazem com que a pessoa viva o mesmo tempo que viveria se não tivesse a doença.
É importante lembrar que vários fatores podem ajudar a pessoa com LLC a viver mais, além do tratamento da leucemia. Estratégias como vacinações, alimentação adequada, exercício físico, medidas para saúde mental e emocional e outras também podem e devem ser utilizadas.
Qual a diferença entre LLC e o linfoma linfocítico de pequenas células (SLL, do inglês small lymphocytic lymphoma)?
A LLC surge na medula óssea e vai para o sangue, enquanto o SLL se manifesta mais nos linfonodos e tem menos de 5.000 células linfoides B doentes por microlitro de sangue periférico. As duas condições são consideradas formas da mesma doença e devem receber o mesmo tratamento, caso precisem ser tratadas.


