Tratamento da leucemia linfocítica crônica

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Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.

Sumário

O tratamento da leucemia linfocítica crônica nem sempre começa logo após o diagnóstico. Em muitos casos, a conduta inicial é apenas acompanhamento regular, estratégia chamada de observação vigilante, vigilância ativa ou, em inglês, “watch and wait”.

O tratamento passa a ser indicado quando surgem sinais de progressão, como febre, suor noturno, perda de peso involuntária, anemia, redução das plaquetas, aumento importante de linfonodos ou duplicação rápida dos linfócitos.

Hoje, as principais opções incluem terapias-alvo, como ibrutinibe, acalabrutinibe, zanubrutinibe, pirtobrutinibe e venetoclax, além de anticorpos monoclonais (rituximabe, obinutuzumabe) e, em situações selecionadas, quimioimunoterapia (FCR, G-clorambucil ou R-clorambucil). A escolha depende da genética da doença, da idade, das comorbidades e do acesso ao tratamento.

O tratamento da leucemia linfocítica crônica mudou muito nos últimos anos e hoje é mais personalizado do que no passado. A doença costuma afetar adultos mais velhos, com idade mediana ao diagnóstico de 70 anos, e nem todo paciente precisa tratar imediatamente. Há muitos pacientes, inclusive, que nunca precisarão ser tratados.

Neste guia, você vai entender quando observar, quando tratar, quais exames orientam a decisão, quais são as principais terapias atuais e o que muda em casos com mutações do TP53, del(17p), recaída ou risco de infecção.

Pontos importantes

  • Nem todo paciente com leucemia linfocítica crônica precisa iniciar tratamento logo após o diagnóstico.
  • Observação vigilante (também chamado de vigilância ativa ou, em inglês, “watch and wait”) é uma conduta médica ativa, com consultas e exames periódicos, e não abandono terapêutico.
  • Critérios como anemia, redução de plaquetas, sintomas B, linfonodos volumosos (e, em alguns casos, progressão rápida da linfocitose) ajudam a definir o momento de tratar.
  • Terapias-alvo ganharam espaço e reduziram o uso rotineiro da quimioterapia em muitos perfis de pacientes.
  • Alterações como mutações do TP53 e del(17p) mudam a escolha do tratamento e costumam afastar esquemas clássicos de quimioimunoterapia por terem resultados muito inferiores.

O que é a leucemia linfocítica crônica

A leucemia linfocítica crônica é um câncer dos linfócitos B, um tipo de glóbulo branco do sistema imune. Na prática, essas células se acumulam no sangue, na medula óssea, nos linfonodos e no baço, podendo permanecer estáveis por anos ou progredir gradualmente.

A leucemia linfocítica crônica costuma ter evolução lenta, mas isso não significa que seja sempre igual para todos. Alguns pacientes convivem com a doença por longo período sem sintomas. Outros apresentam progressão mais rápida e necessidade de tratamento mais cedo.

A suspeita geralmente começa com linfocitose (aumento do número de linfócitos) no hemograma. Em geral, considera-se sugestivo quando há 5.000 ou mais linfócitos B clonais por mm³ (ou µL) no sangue periférico, persistentes por pelo menos três meses, com confirmação por imunofenotipagem (citometria de fluxo).

Como a LLC se comporta no organismo

A leucemia linfocítica crônica se comporta como uma doença de acúmulo celular. Os linfócitos B anormais vivem mais do que deveriam e passam a ocupar espaços da medula, do sangue e dos órgãos linfoides.

Com o tempo, isso pode causar aumento de linfonodos, baço aumentado, cansaço por anemia, queda de plaquetas e maior risco de infecções. Também pode haver redução de anticorpos, quadro chamado hipogamaglobulinemia, descrito em até dois terços dos pacientes em fontes técnicas consolidadas.

LLC é câncer de evolução lenta?

A leucemia linfocítica crônica frequentemente é um câncer de evolução lenta, mas não em todos os casos. Há pacientes com doença indolente e outros com perfil biológico mais agressivo, definido por exames como mutações do TP53, del(17p), del(11q) e IGHV.

Por isso, a velocidade da doença não deve ser presumida apenas pelo nome “crônica”. O comportamento real depende do estágio, dos sintomas, da resposta imune e das alterações genéticas.

LLC e SLL são a mesma doença?

A leucemia linfocítica crônica e o linfoma linfocítico de pequenas células, chamado SLL, são essencialmente a mesma doença em locais diferentes. Na LLC, o predomínio é no sangue e na medula. No SLL, o predomínio é nos linfonodos. Há outros textos nossos que explicam essas diferenças com mais detalhes.

Essa distinção importa para o diagnóstico, mas o raciocínio terapêutico costuma ser muito parecido. Em ambos, a decisão de tratar depende de atividade da doença e impacto clínico.

LLC tem cura?

A leucemia linfocítica crônica não é considerada curável com os tratamentos habituais, mas pode ser controlada por muitos anos. O transplante de medula óssea alogênico, que raramente é indicado por sua alta toxicidade e risco de morte e por só poder ser feito em pacientes muito mais novos, é a única terapia com possibilidade de cura até o momento.

O objetivo realista do tratamento é prolongar a sobrevida, controlar os sintomas, reduzir as complicações e preservar a qualidade de vida. Muitos pacientes, após ou durante o tratamento, recuperam a sua qualidade de vida e voltam a ficar sem qualquer sintoma.

A sobrevida varia bastante conforme o perfil biológico e o tratamento. É muito difícil estabelecer uma sobrevida mediana, ainda mais com muitos tratamentos sendo lançados nos últimos anos. Mas há uma certeza: houve um grande aumento do período e da qualidade de vida com essas novas terapias.

Quando a doença pode ser apenas acompanhada

A leucemia linfocítica crônica pode ser apenas acompanhada quando não há sintomas, citopenias (redução das células do sangue) relevantes, nem progressão clínica importante. Esse cenário é comum no diagnóstico inicial.

Estudos e diretrizes mostram que tratar precocemente, sem indicação clínica, não melhora necessariamente a sobrevida. Por isso, iniciar um remédio logo após descobrir a doença sem realmente precisar de tratamento nunca é a melhor escolha.

O que significa watch and wait ou observação vigilante

O watch and wait é uma estratégia de observação ativa, com consultas regulares, exame físico e hemogramas seriados. O objetivo é iniciar o tratamento no momento certo, evitando tanto atraso quanto excesso de tratamento.

Já explicamos sobre vacinas, então leia com atenção, porque elas realmente reduzem o risco de morte em pessoas com LLC!

Na prática, o médico monitora sintomas como febre, suor noturno, perda de peso, cansaço importante, infecções recorrentes e crescimento de linfonodos ou baço. A frequência das consultas varia conforme o caso, mas costuma ser mais próxima no início ou quando há sinais de mudança.

Quando iniciar o tratamento da leucemia linfocítica crônica

O tratamento da leucemia linfocítica crônica deve começar quando a doença passa a causar sintomas, queda das células do sangue ou progressão objetiva. Linfócitos altos isoladamente, sem outros sinais, geralmente não bastam para iniciar terapia.

Os critérios usados na prática clínica seguem recomendações internacionais, como as da iwCLL, e procuram evitar um excesso de tratamento. A decisão depende de conjunto de dados clínicos, laboratoriais e de imagem.

Critérios clínicos que indicam tratamento

O tratamento da leucemia linfocítica crônica costuma ser indicado quando há evidência clara de atividade da doença. Os principais critérios incluem:

  1. Sintomas constitucionais como: febre sem infecção, suor noturno importante ou perda de peso involuntária
  2. Anemia por infiltração medular ou progressão da doença
  3. Trombocitopenia (redução de plaquetas) por comprometimento da medula
  4. Aumento importante ou progressivo de linfonodos, baço ou fígado
  5. Progressão rápida da doença: esse motivo tem sido cada vez menos usado e os médicos só utilizam esse critério quando está associado aos explicados acima (aumento da linfocitose maior que 50% em 2 meses)
  6. Duplicação dos linfócitos em menos de 6 meses (só serve para quem tem mais de 30.000 linfócitos doentes/mm³ ou microlitro)

Sintomas constitucionais indicam que a leucemia linfocítica crônica deixou de ser apenas um achado laboratorial. Febre persistente, suor noturno e perda de peso involuntária são sinais clássicos de atividade relevante.

Esses sintomas precisam ser avaliados com cuidado, porque também podem ocorrer por infecção ou outra condição clínica (diabetes descompensada, alteração tireoidiana, infecções, dentre outros). O médico analisa o quadro completo antes de definir a indicação terapêutica.

Anemia e trombocitopenia

Anemia e trombocitopenia (redução de plaquetas) podem indicar grande infiltração da medula óssea pela LLC, que está atrapalhando as células normais de se desenvolverem. Sempre há células doentes, porque é onde a doença surge, mas não pode atrapalhar a produção normal. Quando a produção normal de células do sangue é prejudicada, o tratamento costuma ser necessário.

Também é importante diferenciar citopenias (redução das células do sangue) por autoimunidade de citopenias por progressão da LLC (produção de anticorpos que destroem as células normais). Isso muda a conduta e pode exigir terapias específicas.

Progressão rápida da doença

Progressão rápida significa que a leucemia linfocítica crônica está acelerando seu comportamento clínico ou laboratorial. Dois critérios clássicos são aumento da linfocitose acima de 50% (atenção, não o número total dos linfócitos, só os doentes) em 2 meses (esse critério só serve para quem tem mais de 30.000 linfócitos doentes/mm³ ou μL) ou duplicação da contagem de linfócitos em menos de 6 meses, descritos por Abrale e pelo artigo da SciELO.

Esses números não devem ser interpretados isoladamente. Infecções, uso de corticoide e outros fatores podem interferir temporariamente no hemograma.

Quando não tratar imediatamente

A leucemia linfocítica crônica não deve ser tratada imediatamente quando o paciente está sem sintomas, com hemograma relativamente estável e sem sinais de progressão orgânica. Nessa situação, o benefício do tratamento precoce é baixo e a toxicidade pode ser desnecessária.

Isso vale mesmo quando o diagnóstico assusta. Em muitos casos, observar é a conduta mais segura e mais alinhada à evidência.

Linfócitos altos isoladamente significam tratar?

Linfócitos altos isoladamente não significam, por si só, iniciar tratamento da leucemia linfocítica crônica. O número absoluto importa menos do que a velocidade de crescimento, os sintomas e o impacto clínico.

É comum o paciente ver o hemograma subir e imaginar piora imediata. Na LLC, a decisão terapêutica é mais complexa e não se baseia apenas em um valor.

Quais exames ajudam a definir o melhor tratamento

Os exames ajudam a definir o melhor tratamento da leucemia linfocítica crônica porque mostram a extensão da doença, a velocidade de progressão e o risco biológico. Sem essa estratificação, a escolha terapêutica fica incompleta.

Hoje, além do hemograma e da imunofenotipagem, testes genéticos e moleculares têm papel central. Eles ajudam a prever a resposta e evitar tratamentos menos eficazes em certos perfis.

Hemograma, imunofenotipagem e citometria de fluxo

O hemograma mostra linfocitose, anemia e trombocitopenia. A imunofenotipagem por citometria de fluxo confirma que os linfócitos têm padrão típico de LLC. Leia o texto sobre Diagnóstico de LLC, que explica em mais detalhes.

Esses exames e avaliações são a base do diagnóstico. Depois, eles seguem úteis no acompanhamento para detectar progressão ou resposta ao tratamento.

Estadiamento Rai e Binet

Os sistemas Rai e Binet classificam a leucemia linfocítica crônica conforme linfocitose, linfonodos, aumento do fígado e do baço, anemia e contagem das plaquetas. Eles ajudam a estimar o risco e organizar o acompanhamento.

Hoje, esses sistemas continuam úteis, mas não bastam sozinhos. A biologia molecular da doença ganhou peso decisivo na escolha terapêutica.

Biomarcadores e genética: mutação do TP53, del(17p), del(11q) e status do IGHV

A mutação do TP53 ou a presença del(17p) são marcadores de alto impacto porque indicam pior resposta à quimioterapia. IGHV mutado ou não mutado ajuda a estimar prognóstico. Antes de iniciar qualquer tratamento, é fundamental pesquisar a deleção do cromossomo 17p e a mutação do gene TP53, pois essas alterações influenciam diretamente a escolha da terapia.

O que muda na prática com esses resultados

Os resultados genéticos mudam a prática porque ajudam a decidir entre terapias-alvo, tratamento contínuo e esquemas antigos. Pacientes com TP53 alterado ou del(17p), por exemplo, geralmente não são bons candidatos a quimioimunoterapia (quimioterapia combinada com imunoterapia), porque os resultados são, comprovadamente, piores.

Isso torna a decisão mais individualizada. O melhor tratamento da leucemia linfocítica crônica não é o mesmo para todos.

Principais opções de tratamento para LLC

As principais opções de tratamento para LLC incluem terapias-alvo, anticorpos monoclonais, quimioimunoterapia (quimioterapia combinada com imunoterapia) e, em situações específicas, radioterapia, transplante e CAR-T. Hoje, terapias-alvo e imunoterapia ocupam o centro da estratégia moderna.

A escolha depende do perfil genético, do momento da doença, da tolerância esperada e do acesso. Em muitos casos, a quimioterapia perdeu espaço.

Terapias-alvo

As terapias-alvo bloqueiam mecanismos específicos de sobrevivência das células da leucemia linfocítica crônica. Elas costumam ser mais direcionadas do que a quimioterapia e mudaram o padrão de tratamento. Veja abaixo quais são:

Inibidores de BTK

Os inibidores de BTK bloqueiam uma via essencial para a sobrevivência dos linfócitos B malignos. Em geral, são tratamentos contínuos, tomados enquanto estiverem funcionando e forem tolerados. Eles podem ser combinados com os inibidores de BCL2 para tratamento por período fixo. Há vários estudos sobre isso, como CLL17, GLOW, CAPTIVATE e AMPLIFY. Sozinhos, o uso dos inibidores de BTK é contínuo, sem interrupções.

Ibrutinibe

O ibrutinibe foi um dos primeiros grandes marcos da terapia-alvo na LLC. No estudo E1912, ibrutinibe mais rituximabe mostrou superioridade em sobrevida livre de progressão versus FCR em pacientes com menos de 70 anos. Os estudos RESONATE e RESONATE-2 também foram essenciais. Atualmente, não se associa o ibrutinibe ao rituximabe.

Apesar da eficácia, o ibrutinibe pode causar fibrilação atrial, hipertensão, sangramentos e diarreia. Por isso, hoje muitas vezes se discute alternativas com melhor tolerabilidade.

Acalabrutinibe

O acalabrutinibe é um inibidor de BTK mais seletivo e costuma ter perfil de tolerabilidade melhor em comparação ao ibrutinibe em estudos comparativos, como o ELEVATE-RR. Também mostrou eficácia em primeira linha com obinutuzumabe no estudo ELEVATE-TN e na recaída no ELEVATE-RR, dentre outros.

Cefaleia, infecções e citopenias (redução das células do sangue) podem ocorrer, mas eventos cardíacos tendem a ser menos frequentes do que com ibrutinibe.

Zanubrutinibe

O zanubrutinibe é outro inibidor de BTK com bom desempenho e tolerabilidade. Estudos como ALPINE e SEQUOIA reforçaram sua relevância em LLC recidivada e em primeira linha.

Na prática, ele vem sendo considerado uma opção moderna quando disponível, especialmente em pacientes nos quais o perfil de segurança cardiovascular pesa na decisão.

Pirtobrutinibe

O pirtobrutinibe é um inibidor não covalente de BTK e surge como opção em pacientes previamente tratados, inclusive após falha de um inibidor de BTK covalente. O estudo BRUIN mostrou atividade importante nesse cenário.

Ele ainda é mais ligado a contextos avançados e selecionados, mas representa um avanço para casos refratários.

Inibidor de BCL-2

O venetoclax bloqueia a proteína BCL-2, que ajuda a célula da LLC a sobreviver. Diferentemente dos inibidores de BTK, ele pode ser usado em estratégia de tempo fixo em alguns esquemas.

Venetoclax

O venetoclax com obinutuzumabe é uma opção de primeira linha com duração fixa de 12 meses, conforme o estudo CLL14. Isso atrai muitos pacientes que preferem um tratamento com começo, meio e fim definidos. Na recaída, a associação é com o rituximabe, estudado no MURANO.

O principal cuidado é o risco de lise tumoral, especialmente no início. Por isso, a dose sobe gradualmente e pode ser necessário hidratação, exames frequentes e, em alguns casos, internação para monitoramento.

Anticorpos monoclonais / imunoterapia

Os anticorpos monoclonais reconhecem proteínas na superfície das células B e ajudam o sistema imune a combatê-las. Na LLC, rituximabe e obinutuzumabe são os mais conhecidos.

O obinutuzumabe é muito usado em combinação com venetoclax ou acalabrutinibe. O rituximabe aparece em alguns esquemas, inclusive em recaída.

Ambos os anticorpos são também associados à quimioimunoterapia, explicada abaixo.

Quimioimunoterapia

A quimioimunoterapia combina quimioterapia com anticorpos monoclonais. Hoje, ela tem papel mais restrito do que no passado, mas ainda é muito usada no Brasil devido à dificuldade de acesso às novas drogas.

FCR (fludarabina, ciclofosfamida e rituximabe) para os mais jovens e, para os mais velhos, clorambucil com rituximabe (R-clorambucil) ou obinutuzumabe (G-clorambucil) ainda podem ser considerados em nichos específicos, mas perderam espaço para as terapias-alvo. A dificuldade no Brasil ocorre em relação ao acesso aos medicamentos novos.

Radioterapia

Radioterapia não é o tratamento de rotina da leucemia linfocítica crônica, mas pode ser útil em situações muito particulares. A radioterapia pode aliviar massas localizadas. É uma medida complementar e não substitui o controle sistêmico da doença.

Transplante de células-tronco e CAR-T

O transplante alogênico de células-tronco hoje é raro na LLC e fica reservado a casos muito selecionados, geralmente jovens, de alto risco e com doença refratária, conforme descrito pela Abrale.

O CAR-T anti-CD19 também aparece como opção avançada em pacientes muito tratados. O estudo com lisocabtagene maraleucel mostrou atividade relevante, mas esse recurso ainda não faz parte da rotina da maioria dos pacientes e não está aprovado no Brasil no momento.

Como escolher entre as opções de tratamento

A escolha entre as opções de tratamento da leucemia linfocítica crônica depende de quatro fatores: doença, doente, droga e disponibilidade. Esse raciocínio evita decisões simplistas baseadas apenas no nome do remédio.

Em outras palavras, o melhor tratamento é o que combina eficácia, segurança, praticidade e acesso para aquele paciente específico.

Tratamento contínuo vs. tratamento por tempo fixo

Tratamento contínuo significa usar a medicação enquanto houver benefício e tolerância, como ocorre com muitos inibidores de BTK. Tratamento por tempo fixo significa seguir um esquema com duração definida, como venetoclax mais obinutuzumabe, ibrutinibe mais venetoclax ou acalabrutinibe mais venetoclax por 12 meses.

EstratégiaExemploDuraçãoVantagem principalPonto de atenção
Tratamento contínuoIbrutinibe, acalabrutinibe, zanubrutinibe, pirtobrutinibeIndeterminadaSimplicidade de uso oral contínuoToxicidade cumulativa e custo prolongado
Tratamento por tempo fixoVenetoclax + obinutuzumabe, venetoclax + rituximabe, ibrutinibe + venetoclax, acalabrutinibe + venetoclax12 mesesPossibilidade de pausa terapêutica (ficar sem o tratamento até que a doença retorne e precise ser tratada)O uso do venetoclax exige o aumento progressivo da dose do medicamento para prevenção de lise tumoral e monitoramento inicial

Idade, comorbidades e fragilidade

Idade isolada não define o tratamento da leucemia linfocítica crônica, mas comorbidades e fragilidade influenciam muito. Doença cardíaca, uso de anticoagulante, função renal e risco de infecção podem pesar na escolha.

Por exemplo, em pacientes com histórico cardiovascular, o perfil de toxicidade dos inibidores de BTK precisa ser analisado com mais cautela. Em quem tem função renal reduzida e alta carga tumoral, o início de venetoclax exige planejamento rigoroso.

Pacientes com del(17p) ou mutação TP53

Pacientes com del(17p) ou mutação TP53 costumam ter pior resposta à quimioterapia. Nesses casos, terapias-alvo geralmente são preferidas.

Esse é um dos cenários em que o exame genético muda diretamente a conduta. Por isso, testar TP53 antes de tratar é essencial.

Primeira linha vs. recaída/refratariedade

Primeira linha é o primeiro tratamento da leucemia linfocítica crônica após surgir indicação de iniciar terapia. Recaída significa retorno ou progressão após resposta anterior. Refratariedade significa falha em responder ou perda muito precoce da resposta.

A escolha na recaída depende do que foi usado antes, de quanto tempo durou a resposta e da tolerância prévia. Após inibidor de BTK, venetoclax pode ser opção. Após venetoclax, um inibidor de BTK pode entrar no planejamento, se ainda não tiver sido usado. Isso precisa ser discutido em detalhes com seu médico, porque cada caso é totalmente diferente do outro, mesmo que pareçam iguais!

Nem sempre o retorno da doença indica que precisa ser tratada! São usados, de novo, os mesmos critérios para reiniciar o tratamento. Há pacientes nos quais a doença recai, mas que ficam longos períodos sem tratar de novo.

Tratamento inicial e recaída na LLC

O tratamento inicial da LLC hoje costuma priorizar terapias-alvo e combinações com anticorpos monoclonais. A quimioimunoterapia ficou mais restrita a situações selecionadas ou à dificuldade de acesso.

Na recaída, a lógica é reaproveitar classes (tipos de tratamento) ainda não usadas ou trocar por mecanismos diferentes. Também é nessa fase que cresce a atenção para a transformação da doença.

O que costuma ser usado hoje

Em muitos pacientes, as escolhas atuais mais discutidas incluem:

  • acalabrutinibe com ou sem obinutuzumabe (quase sempre é usado sem associar com obinutuzumabe)
  • zanubrutinibe
  • ibrutinibe
  • pirtobrutinibe na recaída (após uso dos outros inibidores de BTK)
  • ibrutinibe + venetoclax na primeira linha
  • acalabrutinibe + venetoclax na primeira linha
  • venetoclax com obinutuzumabe na primeira linha
  • venetoclax com rituximabe em recaída

A escolha exata depende do perfil clínico, genético e do acesso no Brasil.

O que significa recaída e refratariedade

Recaída é quando a leucemia linfocítica crônica volta a progredir após um período de controle. Refratariedade é quando ela não responde adequadamente ou progride logo após o tratamento.

Esses conceitos importam porque mudam o prognóstico e a estratégia seguinte. Doença refratária costuma exigir abordagem mais especializada.

Quando suspeitar de síndrome de Richter

A síndrome de Richter é a transformação da LLC em um linfoma agressivo, geralmente linfoma difuso de grandes células B. Ela ocorre em cerca de 2% a 10% dos casos, segundo a American Cancer Society.

Os sinais de alerta incluem piora rápida, febre, perda de peso, linfonodo crescendo muito depressa, dor e aumento importante da desidrogenase lática (DHL). Esse quadro exige investigação urgente.

Efeitos colaterais, infecções e monitoramento

Os efeitos colaterais do tratamento da leucemia linfocítica crônica variam conforme a classe terapêutica e exigem monitoramento ativo. O acompanhamento correto reduz os riscos e melhora a continuidade do tratamento.

Além da toxicidade dos remédios, a própria LLC aumenta o risco de infecções. Por isso, suporte clínico e prevenção são parte do tratamento.

Efeitos adversos mais comuns

Entre os principais efeitos adversos, destacam-se:

  • inibidores de BTK: diarreia, sangramento, hipertensão, fibrilação atrial, cefaleia, infecções
  • venetoclax: neutropenia, lise tumoral e infecções
  • anticorpos monoclonais: reação à infusão e infecções
  • quimioterapia: náusea, queda de células do sangue, fadiga e infecções

Procure a equipe médica rapidamente em caso de febre, falta de ar, sangramento, palpitações, confusão, queda importante do estado geral ou sinais de infecção.

Hipogamaglobulinemia e imunoglobulina

A hipogamaglobulinemia é a redução dos anticorpos no sangue e pode ocorrer em até dois terços dos pacientes com LLC. Isso aumenta a chance de infecções respiratórias e bacterianas.

A reposição de imunoglobulina pode ser indicada para pacientes com hipogamaglobulinemia associada a infecções bacterianas recorrentes, após avaliação individualizada pelo hematologista.

Vacinas recomendadas e vacinas a evitar

As vacinas são uma das medidas que mais salvam vidas na LLC. Qualquer pessoa com LLC, mesmo os pacientes que nunca receberão tratamento, apresentam mais infecções que o resto da população e, também, maior risco de morrer por causa delas.

É muito importante que quem recebe o diagnóstico de LLC, mesmo sem tratar, procure um hematologista e receba uma vacinação ampla, porque isso pode até reduzir o risco de morte.

As vacinas contra gripe e COVID-19 anualmente são indicadas para o paciente e para todos que entram em contato com ele. A Abrale cita vacina da gripe anual e vacina pneumocócica (só a pneumo13) com reforço a cada 5 anos.

Só são proibidas as vacinas de vírus vivos atenuados, como febre amarela, dengue, sarampo, rubéola e outras. Converse com seu médico.

A recomendação dos infectologistas é que os pacientes recebam:

  • Para gripe: a vacina de influenza de alta dose (ou a tetravalente, de preferência, ou a trivalente, se única disponível) anualmente
  • Vacina contra COVID-19 (de qualquer marca) pelo menos uma vez ao ano. Os infectologistas recomendam, para quem estiver tratando, receber a cada 6 meses
  • Vacina contra o vírus sincicial respiratório A+B (uma única vez na vida)
  • Vacina pneumocócica: a pneumo 20 (uma única vez na vida) ou a pneumo13, depois pneumo23 e pneumo23 a cada 5 anos
  • Depois, recomenda-se as vacinas contra herpes zoster (mas só a recombinante, não as de vírus vivos). As vacinas contra Hemophilus B e meningococo ACWY também são recomendadas, dentre outras

O calendário precisa ser individualizado, então converse com seu hematologista ou, se for o caso, com um infectologista.

Hepatites, HIV e sífilis

É importante pesquisar essas doenças de rotina, porque ficam muitos anos sem dar qualquer sintoma ou sinal, e podem piorar muito rapidamente, eventualmente com risco de vida nos pacientes com LLC e outras doenças hematológicas. As hepatites são a B e a C, mas é importante avaliar se a pessoa está imunizada contra a hepatite A (a IgG para essa hepatite precisa ser positiva).

Prognóstico e tratamento da LLC no Brasil

O prognóstico da leucemia linfocítica crônica depende do estágio, da idade, das comorbidades, da genética e da resposta ao tratamento. As terapias-alvo melhoraram o cenário e ampliaram as opções de controle prolongado.

No Brasil, o acesso ainda varia conforme SUS, convênio, região e disponibilidade do centro de tratamento. Isso influencia a decisão real tanto quanto fatores biomédicos.

Como as terapias-alvo mudaram o cenário

As terapias-alvo, além de aumentar a sobrevida em muitos pacientes, também contribuíram para melhorar a qualidade de vida e reduzir a necessidade de quimioterapia, porque aumentaram as opções para pacientes idosos, frágeis, com TP53 alterado ou com del(17p). Também reduziram a dependência de quimioterapia em muitos casos.

Isso não significa que todos terão o mesmo benefício ou acesso imediato. Mas o padrão de cuidado ficou mais individualizado e mais eficaz em muitos perfis.

Acesso pelo SUS e pela saúde suplementar

O acesso ao tratamento da leucemia linfocítica crônica no Brasil varia. A saúde suplementar costuma incorporar opções com mais rapidez, enquanto o SUS depende de uma avaliação regulatória mais rigorosa.

Em 2024, a CONITEC publicou relatório sobre ibrutinibe para LLC recidivada ou refratária, mostrando como o tema segue ativo nas decisões de política pública.

Quando vale buscar uma segunda opinião

Vale buscar uma segunda opinião quando houver dúvidas que não estejam resolvidas com o seu médico original. Também faz sentido quando existem barreiras de acesso e necessidade de discutir alternativas equivalentes.

Perguntas para levar à consulta com o hematologista

Levar perguntas objetivas ajuda muito na consulta. Exemplos úteis:

  • Eu preciso tratar agora ou posso seguir em vigilância ativa (também chamada de observação vigilante ou watch and wait)?
  • Meu exame mostrou mutação do TP53, del(17p)?
  • Qual tipo de IGHV a minha doença tem, mutado ou não mutado?
  • Este tratamento é contínuo ou por tempo fixo?
  • Quais efeitos colaterais são mais prováveis no meu caso?
  • O que devo fazer se eu tiver febre ou infecção?
  • Este tratamento está disponível no SUS ou no meu convênio?

Perguntas frequentes sobre tratamento da leucemia linfocítica crônica

LLC sempre precisa de tratamento?

Não. Muitos pacientes com leucemia linfocítica crônica ficam apenas em observação por meses ou anos. O tratamento começa quando há sintomas, citopenias ou progressão clara da doença.

Qual é o melhor tratamento para leucemia linfocítica crônica?

Não existe um único melhor tratamento para todos. A escolha depende de idade, comorbidades, características da doença (como mutação do TP53, presença da del17p e tipo do IGHV), das condições clínicas do paciente, dos tratamentos prévios e do acesso às diferentes opções terapêuticas, além de fatores importantes, como a preferência por terapia contínua ou por tempo fixo, a possibilidade de ir ao hospital ou à clínica para tratar-se, a presença de um acompanhante e, é claro, o acesso aos tratamentos. Há muitos outros fatores em cada caso que fazem o médico decidir por determinado tipo de terapia.

O que é watch and wait na LLC?

Watch and wait, também chamado de vigilância ativa ou observação vigilante, é um acompanhamento médico sem tratamento imediato. O paciente faz consultas e exames regulares para detectar o momento certo de iniciar a terapia, se isso se tornar necessário.

Ibrutinibe, acalabrutinibe, zanubrutinibe e pirtobrutinibe: qual a diferença?

Os quatro são inibidores de BTK usados no tratamento da leucemia linfocítica crônica. Eles diferem em seletividade, perfil de efeitos colaterais, interações medicamentosas e dados clínicos comparativos, especialmente em segurança cardiovascular. O ibrutinibe é o mais antigo (primeira geração), o acalabrutinibe e o zanubrutinibe são de segunda geração e o pirtobrutinibe é de terceira geração.

Venetoclax é tratamento por tempo fixo?

Pode ser. Venetoclax pode ser combinado com obinutuzumabe, com rituximabe, com ibrutinibe ou acalabrutinibe, sendo usados em esquema fixo de 12 meses em diversos estudos, como explicamos acima. Isso é diferente dos inibidores de BTK usados sozinhos, que são contínuos.

Quem tem leucemia linfocítica crônica pode tomar vacina?

Pode, mas o calendário deve ser individualizado. As vacinas são uma das medidas que mais salvam vidas na LLC. Qualquer pessoa com LLC, mesmo os pacientes que nunca receberão tratamento, apresentam mais infecções que o resto da população e, também, maior risco de morrer por elas.

É muito importante que quem recebe o diagnóstico de LLC, mesmo sem tratar, procure um hematologista e receba uma vacinação ampla, porque isso pode até reduzir o risco de morte.

As vacinas contra gripe e COVID-19 anualmente são indicadas para o paciente e para todos que entram em contato com ele. A Abrale cita vacina da gripe anual e vacina pneumocócica (só a pneumo13) com reforço a cada 5 anos.

Só são proibidas as vacinas de vírus vivos atenuados, como febre amarela, dengue, sarampo, rubéola e outras. Converse com seu médico. Pacientes com leucemia linfocítica crônica podem e devem discutir vacinação com a equipe médica.

A recomendação dos infectologistas é que os pacientes recebam:

  • Para gripe: a vacina de influenza de alta dose (ou a tetravalente) anualmente
  • Vacina contra COVID-19 (de qualquer marca) pelo menos uma vez ao ano. Os infectologistas recomendam, para quem estiver tratando, receber a cada 6 meses
  • Vacina contra o vírus sincicial respiratório A+B (uma única vez na vida)
  • Vacina pneumocócica: a pneumo 20 (uma única vez na vida) ou a pneumo13, depois pneumo23 e pneumo23 a cada 5 anos
  • Depois, recomenda-se as vacinas contra herpes zoster (mas só a recombinante, não as de vírus vivos). As vacinas contra Hemophilus B e meningococo ACWY também são recomendadas, dentre outras

Vacinas com vírus vivos geralmente devem ser evitadas em pacientes imunossuprimidos. O calendário precisa ser individualizado, então converse com seu hematologista ou, se for o caso, com um infectologista.

Quando o transplante é indicado na LLC?

O transplante alogênico hoje é raro na leucemia linfocítica crônica. Ele costuma ser reservado para pacientes selecionados com doença de alto risco, refratária ou com falha de múltiplas linhas de tratamento.

O que é doença residual mínima?

Doença residual mínima ou doença residual mensurável (DRM) é a medida de quantas células da LLC ainda existem após o tratamento. Pode haver uma quantidade muito pequena de células da LLC que pode permanecer no organismo após o tratamento, mesmo quando exames comuns parecem normais.

Importante: não deve ser usado para acompanhar os pacientes, para avaliar o resultado do tratamento e, principalmente, não deve ser usado para iniciar ou reiniciar o tratamento. Somente em casos muito raros e específicos essa pesquisa deve ser feita. Mesmo positiva, não vai alterar a imensa maioria dos tratamentos e pode causar angústia e até levar a desânimo perante o tratamento.

LLC pode virar linfoma?

Pode. A transformação mais conhecida é a transformação de Richter, antigamente chamada de síndrome de Richter, em que a LLC se transforma em um linfoma agressivo. Embora incomum, esse quadro exige avaliação rápida.

O tratamento da leucemia linfocítica crônica está disponível no SUS?

Parte dos tratamentos está disponível, mas o acesso varia conforme incorporação, protocolo e centro de referência. Em casos complexos, vale discutir com seu médico e, às vezes, pensar em uma segunda opinião médica, e alternativas terapêuticas disponíveis no sistema público ou suplementar.

Foto de Dr. Antonio Carlos Buzaid

Dr. Antonio Carlos Buzaid

Destacado oncologista clínico, graduado pela Universidade de São Paulo, com experiência internacional nos EUA, onde foi diretor de centros especializados em melanoma e câncer de pulmão, além de professor na Universidade de Yale. No Brasil, foi membro do comitê gestor do Centro de Oncologia do Einstein e dirigiu centros de oncologia nos hospitais Sírio Libanês e BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Atualmente é Diretor Médico Geral do Centro de Oncologia dos Hospitais Nove de Julho e Samaritano Higienópolis. CRM 45.405

Foto de Dr. Fernando Cotait Maluf

Dr. Fernando Cotait Maluf

Renomado oncologista clínico, graduado pela Santa Casa de São Paulo, com doutorado em Urologia pela FMUSP. Ele foi chefe do Programa de Residência Médica em Oncologia Clínica do Hospital Sírio Libanês e atualmente é diretor associado do Centro de Oncologia do hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, além de membro do Comitê Gestor do Hospital Israelita Albert Einstein e professor livre-docente na Santa Casa de São Paulo. CRM: 81.930

Publicação: 24/04/2025 | Atualização: 24/07/2026

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