Rede Vencer o Câncer – programa modifica o cenário da pesquisa clínica no país

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Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.
Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.

Enquanto grandes centros concentram parte importante dos estudos clínicos no Brasil, iniciativas em expansão pelo país começam a mudar essa realidade. Ao completar cinco anos, o projeto da Rede Vencer o Câncer de Pesquisa Clínica já soma 344 estudos distribuídos em 20 centros de pesquisa, com 313 pacientes recrutados.

O trabalho dos centros possibilita aproximar pacientes de terapias inovadoras, acelerar o acesso a tratamentos ainda indisponíveis no mercado e ampliar a diversidade de perfis incluídos nos estudos. 

No mês dedicado à conscientização sobre a importância da pesquisa clínica, pesquisadores que participam do projeto falam sobre os desafios de consolidar estruturas fora dos grandes eixos tradicionais, formar equipes e desmistificar a visão ainda cercada de receios sobre a participação em estudos clínicos.

“Queremos fazer com que o paciente do interior tenha acesso à pesquisa clínica, ao invés dele precisar se deslocar para ir até a pesquisa”, resume Heloisa Rezende, oncologista clínica coordenadora do centro de pesquisa do hospital universitário H.FOA – Hospital da Fundação Oswaldo Aranha, em Volta Redonda (RJ). 

“A pesquisa clínica mudou totalmente minha forma de olhar o paciente”, afirma o oncologista clínico Diego Gonçalves, coordenador da residência de Oncologia Clínica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC UFG), mestrando em Ciências da Saúde pela UFG.

Volta Redonda aposta em recrutamento e consolidação de centro no interior

Rede Vencer o Câncer – programa modifica o cenário da pesquisa clínica no país

Em Volta Redonda, no interior do Rio de Janeiro, um centro ligado ao ecossistema de saúde e educação da UniFOA participa atualmente de um estudo internacional de fase 3 em câncer de mama no cenário de tratamento de doença inicial, com potencial curativo, chamado adjuvante. O processo de qualificação começou em julho do ano passado. Após visitas de acreditação e avaliação do centro, a aprovação veio em setembro e a ativação ocorreu em dezembro. Mesmo entrando meses depois de outros serviços brasileiros, o centro conseguiu acelerar o recrutamento.

“Os outros centros foram ativados em julho e nós em dezembro, e mesmo assim tivemos recrutamento do nível dos maiores”, comemora Heloisa, comentando o estudo que avalia um medicamento novo com possibilidade de bons resultados. “Esse estudo está trazendo uma medicação inovadora que, com base nos resultados preliminares e estudos anteriores, tem potencial de aumentar a chance de cura e também trazer menos eventos adversos do que os tratamentos atualmente padronizados”, explica.

“O centro está muito maduro e faz parte de um ambiente universitário, muito apropriado para receber pesquisa clínica”, complementa a especialista. Ela destaca que um dos maiores desafios foi conquistar a confiança inicial da indústria farmacêutica para receber um estudo internacional de grande porte, considerando um marco conseguir ser qualificado para esse estudo de fase 3.

Outro desafio envolve a localização. Sem aeroporto na cidade, a logística para visitas técnicas e monitorias se torna mais complexa. “O grande desafio é mostrar que o que nós temos em potencial de recrutamento e na qualidade dos dados vai superar e muito essa dificuldade da distância.” Para Heloisa, a expansão da pesquisa clínica no interior também ajuda a ampliar a diversidade de pacientes incluídos nos protocolos. 

  • “Ao longo da minha carreira, sempre acreditei que a pesquisa clínica é um veículo de inovação. Ela mantém os médicos atualizados e engajados, com equipes mais qualificadas. Todos ganham: a equipe, que recebe mais treinamento e consegue fazer uma assistência de mais qualidade; e ganha o paciente, porque tem acesso a terapias inovadoras e uma assistência mais dedicada e individualizada.”

Heloisa Rezende, oncologista clínica

Novo centro em Goiás inicia estruturação com foco em formação de equipes e ampliação do acesso a estudos clínicos

Rede Vencer o Câncer – programa modifica o cenário da pesquisa clínica no país

A implantação de um novo centro de pesquisa clínica em oncologia e hematologia em Goiás, em parceria com a Rede Vencer o Câncer de Pesquisa Clínica, marca uma nova etapa para a expansão dos estudos clínicos na região. Ainda em fase inicial de estruturação, o serviço reúne profissionais com experiência prévia em outras instituições, entre eles, o oncologista Diego Gonçalves, que também atua em um centro público federal já consolidado na condução de estudos. 

A experiência em diferentes cenários ajuda a dimensionar os principais desafios desta fase, que passam pela formação das equipes, organização dos processos e conscientização de pacientes e profissionais sobre o papel da pesquisa clínica na assistência oncológica.

O novo centro vive um momento inicial de estruturação, mas já conta com médicos especializados, inclusive em transplante de medula óssea, além de estrutura física instalada, banco de sangue e parcerias com clínicas de imagem. Exclusivamente voltada para oncologia e hematologia, a instituição criou este ano seu Instituto de Ensino e Pesquisa e iniciou a organização do comitê de ética e dos processos necessários para condução de estudos clínicos.

“O Instituto de Ensino e Pesquisa começou agora, apesar do ensino já ser uma marca da instituição”, afirma. A instituição já recebia alunos de graduação e contava com profissionais que atuam como professores e preceptores de residência médica, mas ainda não havia uma estrutura formalizada para pesquisa. 

Ele explica que parte da equipe possui alguma experiência prévia com estudos clínicos, mas que a formação dos profissionais será um dos principais desafios desta fase. Acredita que a parceria com o Instituto Vencer o Câncer terá papel importante nesse processo de orientação e capacitação. “Nossa perspectiva com a parceria é justamente clarear a visão do que precisamos.”

Outro foco importante será conscientizar pacientes e profissionais de saúde sobre o papel da pesquisa clínica, especialmente em uma região onde ainda há pouca tradição de estudos no setor privado. “Desmistificar a visão de cobaia que muitos pacientes têm”, resume, lembrando que também será necessário sensibilizar outros médicos para encaminharem pacientes elegíveis para estudos clínicos.

A experiência de Diego Gonçalves com a pesquisa clínica começou ainda durante a residência médica, quando participou do atendimento de pacientes incluídos em estudos, e transformou completamente sua visão sobre o tema, inclusive passando a entender melhor a importância das padronizações para ter o resultado mais fidedigno, puro e livre de viés possível.

Um dos benefícios da pesquisa clínica, avalia, é o acesso, sendo muitas vezes a única forma do paciente receber um bom tratamento, tanto no sistema público quanto privado. “O pior braço ainda é o melhor tratamento que está disponível para esse paciente e, em muitos casos, o tratamento oferecido dentro de um protocolo de pesquisa ainda demoraria anos para chegar ao mercado ou ao acesso convencional”.

Para o oncologista, além do avanço científico, a pesquisa clínica representa também uma oportunidade concreta de ampliar possibilidades terapêuticas e garantir um acompanhamento altamente qualificado aos pacientes. 

“A assistência médica oferecida na pesquisa clínica, a preparação dos coordenadores, da equipe, é sensacional. O paciente fica muito bem avaliado e acompanhado.” Diego Gonçalves


Texto de Vivi Griffon

Publicação: 25/05/2026 | Atualização: 25/05/2026

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