O diagnóstico de câncer traz preocupações relacionadas à saúde, ao tratamento e às chances de cura. Para muitos pacientes, essa jornada tem ainda mais obstáculos: desafios financeiros, que envolvem custos com medicamentos, exames, deslocamentos, além da perda de renda, afastamento do trabalho e gastos não previstos.
Foi o que aconteceu com Marina Romiti, 50 anos. Diagnosticada com câncer de mama em 2012 e, posteriormente, com um câncer de pulmão e metástases, ela conta que o impacto financeiro passou a fazer parte da rotina ao longo dos anos. “Além de você ter que lidar com a doença, também precisa lidar com essa coisa de não ter dinheiro para pagar. Como é que vai ser? E se eu tiver mais alguma coisa? É um desespero”.
Para Aline do Vale, o desafio surgiu em meio ao tratamento de um câncer de mama triplo negativo, diagnosticado aos 32 anos. Recém-divorciada, ela viu o acordo que garantia a manutenção de seu plano de saúde ser interrompido durante a terapia oncológica. “No meio do meu tratamento, ele simplesmente parou de pagar meu plano de saúde”, relata.
O tema, conhecido como toxicidade financeira, ganha espaço nas discussões internacionais sobre câncer e motivou a economista Gabriela Tannus a escrever o livro Vencer o Câncer “Toxicidade Financeira – Entre a Vida e a Dívida”. Recém-lançada pelo Instituto Vencer o Câncer, a obra reúne informações práticas, orientações e reflexões sobre um aspecto da doença que ainda permanece invisível para muitas famílias.
“Escrever o livro nasceu de uma inquietação muito profunda: a percepção de que, muitas vezes, falamos sobre inovação, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento, mas ainda falamos pouco sobre o impacto financeiro real que o câncer provoca na vida das pessoas e de suas famílias”, afirma a autora.
Segundo Gabriela, o câncer produz consequências que vão muito além dos efeitos físicos da doença. “O câncer não afeta apenas o corpo. Ele reorganiza a rotina, o trabalho, a renda, os deslocamentos, os planos e, muitas vezes, a própria sensação de segurança de uma família.”
A proposta da obra é dar nome a uma dor que, como ressalta a autora, nem sempre aparece nos prontuários, mas acompanha milhares de pessoas durante e depois do tratamento, além de oferecer um material acessível para pacientes e familiares para que compreendam seus direitos, organizem suas informações, reconheçam sinais de sobrecarga financeira e possam buscar apoio de forma mais estruturada. “A toxicidade financeira não é apenas uma consequência econômica; ela é também emocional, social e prática. Ela pode influenciar decisões, atrasar cuidados, aumentar o sofrimento e tornar ainda mais pesada uma jornada que já é, por si só, extremamente desafiadora.”
Gabriela defende ainda que enfrentar a toxicidade financeira faz parte do cuidado oncológico. “Acredito que vencer o câncer também passa por enfrentar tudo aquilo que ameaça a continuidade do cuidado. E isso inclui olhar com seriedade para os custos invisíveis, para as perdas acumuladas e para o peso que recai sobre as famílias. Falar sobre toxicidade financeira é ampliar a conversa sobre cuidado oncológico. É reconhecer que tratar bem uma pessoa com câncer exige olhar para a vida inteira que existe ao redor do tratamento.”
Toxicidade financeira pode afetar 80% dos pacientes e prejudicar os desfechos clínicos
No prefácio da obra, o oncologista Fernando Maluf, cofundador do Instituto Vencer o Câncer, destaca que a toxicidade financeira não pode ser dissociada do cuidado integral ao paciente. “Falar sobre toxicidade financeira é falar sobre equidade, dignidade e cuidado integral.
Embora o tema ainda seja pouco discutido fora dos ambientes especializados, tem recebido atenção crescente da comunidade científica internacional. Segundo Maluf, durante o congresso anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO) de 2025, estudos reforçaram a dimensão do problema e seus efeitos sobre a vida dos pacientes.
“Os pesquisadores definiram este impacto como o conjunto de dificuldades econômicas enfrentadas pelos pacientes em decorrência dos custos médicos e das consequências indiretas do tratamento, como afastamento do trabalho, redução de renda e necessidade de reorganização completa da rotina familiar”, explica, ressaltando que os impactos vão além do orçamento doméstico e podem comprometer a qualidade de vida, dificultar a adesão ao tratamento e, em última instância, contribuir para piores desfechos clínicos.
Ele cita dados internacionais indicando que a toxicidade financeira afeta cerca de 25% das pacientes com câncer de mama em países de alta renda. Em países em desenvolvimento, esse percentual pode alcançar aproximadamente 80%. Para o médico, a realidade brasileira, com desigualdades sociais e regionais, torna a discussão ainda mais urgente.
Impacto financeiro vai muito além das contas: desgaste, desafio de reconstruir a carreira e incertezas sobre a continuidade do tratamento


A história de Marina Romiti ajuda a ilustrar como a toxicidade financeira se manifesta na prática. Foi tomando banho, em 2012, que ela descobriu o carocinho que levou ao seu diagnóstico de câncer de mama. Apesar do impacto emocional, conseguiu manter parte da rotina profissional porque trabalhava na empresa da família, uma gráfica de embalagens, o que lhe permitiu flexibilizar horários durante o longo período de quimioterapia e radioterapia. “Quando eu me sentia bem, ia trabalhar. Se eu não me sentia, podia ficar em casa.”
Ainda assim, os desafios começaram cedo. Com a imunidade comprometida pelo tratamento, precisou utilizar um medicamento que inicialmente não foi autorizado pelo plano de saúde. “Eu tive que entrar com uma liminar para o seguro aprovar. Você imagina o desgaste emocional”. Depois tomou tamoxifeno por oito anos. Em 2020, recebeu um novo diagnóstico: um câncer de pulmão sem relação com o tumor anterior. Em plena pandemia, passou a frequentar hospitais diariamente para realizar quimioterapia e radioterapia simultaneamente.
Nos anos seguintes vieram as metástases. Primeiro nos ossos, depois no rim e, mais recentemente, no ovário. A partir desse momento, ela percebeu que o impacto financeiro passava a ocupar um espaço cada vez maior em sua vida. “Quando você tem metástase, não acaba. E aí você fala: vou ter que ser tratada a vida toda.”
Além da continuidade dos tratamentos, surgiram despesas que exigiam desembolso imediato, cirurgias que precisavam ser pagas antes de serem reembolsadas pelo plano de saúde. “Você tem que pagar primeiro para depois eles reembolsarem.”
Ao longo da jornada, precisou realizar duas cirurgias relacionadas ao uso de um cateter duplo J, retirar útero e ovários e passar por diversos procedimentos complementares. Embora tenha conseguido reaver posteriormente parte dos valores, lamenta que nem todos os pacientes possuem recursos para antecipar esses custos.
Ela ressalta, porém, que o impacto financeiro vai muito além das contas. “Tem coisas que são mensuráveis, como as cirurgias. Mas tem coisas que não são mensuráveis, que é o tempo, o desgaste, você ter que fazer conta, pensar como vai pagar aquilo.”
A sequência de tratamentos e complicações segue ao longo da jornada. Marina chegou a fraturar o fêmur, precisou passar por cirurgia e, mesmo um ano depois, talvez precise fazer um enxerto. Atualmente convive com uma rotina intensa de exames, consultas e tratamentos. Faz exames de sangue mensalmente, além de avaliações periódicas para monitorar a evolução da doença. “A minha vida é pautada pelo câncer.”
Para ela, uma das consequências menos visíveis da toxicidade financeira é a dificuldade de reconstruir a vida profissional enquanto o tratamento continua. “Como é que eu faço para ganhar dinheiro?”. Conta que a doença impôs limitações que dificultam a manutenção de atividades profissionais regulares e a necessidade constante de comparecer a consultas, exames e tratamentos reduz a disponibilidade para assumir compromissos de longo prazo. “É muito difícil. E eu tenho esses dois problemas: eu sou mais velha e eu tenho câncer.”
Apesar das dificuldades, Marina afirma que nunca permitiu que questões financeiras determinassem suas decisões de tratamento. Ainda assim, reconhece o peso emocional. “Afeta muito, dá muita insegurança.”
Após 14 anos convivendo com o câncer, transformou parte da experiência acumulada em um projeto de apoio a outros pacientes: criou o Mapa da Jornada, material que reúne informações sobre tratamentos, exames e termos frequentemente encontrados ao longo do cuidado oncológico. A iniciativa surgiu da própria experiência como paciente e da percepção de que o medo do desconhecido é um dos maiores desafios após o diagnóstico. “Quando você não sabe o que vai acontecer, é aterrorizante”, avalia. Para ela, o acesso à informação confiável ajuda a reduzir a ansiedade e traz mais segurança durante o tratamento. “A informação correta, dada da maneira correta, dá um acolhimento no coração.”
Ela compartilha sua experiência e inspira outros pacientes em seu perfil do Instagram @vivercommetastase
Entre diagnósticos errados e a necessidade de reconstruir a vida, uma vaquinha mostra que o apoio pode surgir de locais inesperados


Aos 32 anos, em janeiro de 2023, Aline do Vale se preparava para colocar próteses mamárias quando um nódulo identificado nos exames pré-operatórios foi considerado benigno. A avaliação foi confirmada por diferentes profissionais e ela seguiu com a cirurgia. Meses depois, porém, percebeu que o nódulo continuava crescendo. Mesmo após novos exames, voltou para casa ouvindo que não havia motivo para preocupação.
Em setembro o nódulo já tinha o tamanho de um limão, ela retornou ao consultório e, desta vez, ouviu do médico: “Aline, reza para que seja benigno.” A biópsia confirmou o diagnóstico de câncer de mama triplo negativo em estágio 3. Poucas semanas depois, iniciou o tratamento.
A jornada incluiu 16 sessões de quimioterapia, imunoterapia, cirurgia e radioterapia. O processo durou mais de um ano e exigiu adaptações constantes. As últimas sessões de quimioterapia foram especialmente difíceis e chegaram a atrasar o cronograma previsto.
Ao mesmo tempo em que enfrentava os efeitos físicos da doença, Aline precisou conviver com mudanças profundas em sua vida pessoal e profissional. Lidando com o impacto do divórcio, que aconteceu pouco antes da descoberta da doença, viu a estabilidade financeira desaparecer justamente quando mais precisava de segurança para atravessar o tratamento.
Sem conseguir manter o ritmo de trabalho, precisou encerrar as atividades da loja de roupas que administrava e passou a depender de recursos que rapidamente se tornaram insuficientes. A situação se agravou com disputas judiciais relacionadas à separação, enquanto as despesas e preocupações continuavam crescendo. Para conseguir concluir essa etapa da jornada, recorreu à ajuda das pessoas que acompanhavam sua história nas redes sociais. “Eu fiz uma vaquinha morrendo de vergonha. É muito constrangedor”, lembra. “Falamos muito do tratamento oncológico em si, mas não se fala como é sobreviver a tudo isso.”.
Ela acredita que compartilhar a própria trajetória ajudou a criar uma rede de apoio inesperada e inspira outros pacientes em seu perfil @alinedovale.oficial no Instagram. Ao mostrar a realidade do tratamento, o fechamento da loja, a queda de cabelo e os desafios do dia a dia, passou a se conectar com outras mulheres que enfrentavam situações semelhantes. O perfil cresceu rapidamente e permitiu que ela encontrasse suporte para concluir o tratamento sem interrupções.
Mas os impactos econômicos continuaram no período pós-câncer, que trouxe novas dificuldades, incluindo a necessidade de reorganizar a vida financeira, encontrar uma nova fonte de renda, mudar hábitos e reconstruir a própria identidade. “Eu passei por um câncer e sobrevivi, mas e agora?”
A recuperação emocional foi tão desafiadora quanto o tratamento. A necessidade de mudar de casa, rever despesas, cuidar das filhas e planejar um novo futuro trouxe um sentimento de insegurança que culminou em um período de depressão. Com apoio psicológico e o acolhimento de uma ONG de pacientes oncológicos, começou a encontrar novos caminhos.
Hoje, ao conversar com outras mulheres que passaram pela mesma experiência, percebe que o retorno ao mercado de trabalho é uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos sobreviventes de câncer. “É impossível você passar por um tratamento oncológico e voltar a ser a mesma pessoa”, afirma. “As empresas não estão preparadas realmente para receber um paciente oncológico de volta com as sequelas que ficaram.”
A partir da própria experiência, Aline passou a atuar em iniciativas voltadas ao empreendedorismo e ao recomeço profissional de mulheres em situação de vulnerabilidade. Para ela, a toxicidade financeira não termina com a última sessão de tratamento. Em muitos casos, continua presente justamente no momento em que o paciente tenta retomar a vida. Essa é uma realidade que, acredita, ainda recebe pouca atenção, apesar de fazer parte da jornada de milhares de pessoas que convivem com o câncer.
Toxicidade Financeira – Entre a Vida e a Dívida
Com o objetivo de ampliar o debate sobre um dos impactos menos visíveis do câncer, o Instituto Vencer o Câncer lançou o livro Vencer o Câncer – Toxicidade Financeira: Entre a Vida e a Dívida, escrito pela economista da saúde Gabriela Tannus.
A obra reúne informações e orientações práticas para ajudar pacientes e familiares a compreender e enfrentar os desafios financeiros que podem surgir ao longo do tratamento, reconhecendo que esse aspecto também influencia a qualidade de vida, a continuidade do cuidado e o bem-estar durante toda a jornada da doença.
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Texto de Vivi Griffon







