por Camila Tademos Silva Amaral
Depois de apenas dois ciclos de tratamento em uma pesquisa clínica, recebi uma notícia que me trouxe muita esperança: meus tumores tinham diminuído ou parado de crescer. Com tudo que passei desde que descobri um câncer de mama metastático, foi uma resposta importante.
Quando surgiu a possibilidade de participar da pesquisa, sabia que seria um tratamento com efeitos colaterais intensos. Mas também que era uma oportunidade única de ter acesso a uma medicação inovadora, ainda não disponível no Brasil. Pensei que poderia conseguir uma estabilidade maior da doença e até redução dos tumores. Resolvi arriscar e não me arrependo: fui a primeira brasileira a receber essa quimioterapia.
Diagnóstico depois da maternidade
Minha filha ainda tinha pouco mais de um ano quando eu descobri o câncer em maio de 2024. Vinha percebendo uma diferença na mama esquerda, mas como estava amamentando, achei que fosse leite empedrado. Eu havia passado por um período muito difícil: tive gêmeas e uma delas morreu. Foram momentos de muita correria, UTI, tantas coisas acontecendo que acabei deixando meus exames de rotina de lado por quase três anos.
Quando percebi que o formato da mama estava ficando cada vez mais estranho, marquei uma mamografia. O exame não mostrou nada, mas na ultrassonografia a especialista estranhou a alteração e recomendou que eu procurasse minha médica para fazer uma biópsia urgente.
O resultado confirmou um câncer de mama luminal A, tipo considerado mais indolente, que raramente apresenta metástases, e por isso fiquei mais tranquila. Foi um susto quando os exames para avaliar a extensão da doença apontaram que já havia metástases, com múltiplos tumores no fígado e muitas lesões ósseas, inclusive em um pequeno osso na parte superior do peito. A médica chegou a se surpreender porque, com a extensão da doença, eu não sentia dor. Aquilo me derrubou, entrei em uma depressão profunda e perdi dez quilos.
Como meu câncer era hormonal e já havia metástases, comecei o tratamento com medicamentos, sem cirurgia ou quimioterapia. Tomava comprimidos, medicação para os ossos e uma injeção para bloquear a menstruação, provocando uma menopausa induzida. Esse tratamento conseguiu controlar a doença durante dois anos.
A oportunidade da pesquisa
Em maio deste ano, os exames mostraram uma progressão no fígado. Como eu nuncia tinha feito quimioterapia, minha oncologista me apresentou a possibilidade de participar de uma pesquisa no Hospital Paulistano. Explicou que o estudo envolvia uma medicação desenvolvida nos Estados Unidos, que ainda levaria anos para estar disponível no Brasil. Um tratamento de custo muito alto, ao qual eu dificilmente teria acesso. Se eu começasse outra linha de tratamento, poderia perder a possibilidade de me candidatar ao estudo.
Era uma decisão importante e eu precisava pensar muito bem. Quando perguntei a opinião do meu marido, ele respondeu que a decisão era minha, e me apoiaria no que eu decidisse. Pensei nas dificuldades, já que teria que ir a um hospital mais distante e enfrentar uma quimioterapia com efeitos colaterais mais intensos. Também havia a possibilidade de perder o cabelo, uma coisa que, querendo ou não, mexe muito com a gente. Considerei também a oportunidade única de tentar controlar melhor a doença.
No dia seguinte, respondi à minha oncologista que aceitava. O processo de seleção levou cerca de dois meses. Fiz vários exames e, durante esse período, fiquei sem medicação, o que levou os tumores a crescerem um pouco.
Em agosto, fui ao consultório da médica responsável pelo estudo. Havia duas possibilidades de tratamento: a medicação nova, ainda em pesquisa, ou uma medicação mais antiga, em comprimidos. A definição seria feita por sorteio, ali mesmo, no consultório. Graças a Deus, fui sorteada para receber a medicação do estudo. Depois de dois ciclos, os primeiros exames de imagem mostraram redução de parte dos tumores e estabilização dos demais; nenhum deles havia crescido. Agora estou chegando ao quinto ciclo.
Cuidado e qualidade do atendimento fazem a diferença
Além da resposta ao tratamento, uma das coisas que mais me impressionam na pesquisa é a qualidade do atendimento. Eu já fazia acompanhamento pelo convênio, mas a experiência no estudo é muito diferente.
🡪 Para ter uma ideia, a enfermeira me liga ou manda mensagem para saber como estão as veias do meu braço. Tenho o telefone da oncologista disponível 24 horas por dia. Não enfrento filas, os exames e atendimentos são organizados rapidamente e, quando sinto alguma coisa, recebo uma resposta. É um cuidado muito próximo.
Isso faz uma diferença enorme para quem está enfrentando uma doença como a minha. Saber que existe uma equipe acompanhando tudo e disponível quando preciso me traz muita segurança. É um tratamento maravilhoso.
Claro que também existem dificuldades. Os efeitos colaterais são a parte mais complicada. Não fiquei careca, mas perdi cerca de 30% do cabelo, além de ter bastante mal-estar e cansaço. É desconfortável, embora suportável, mas quando penso na oportunidade que recebi, nos resultados que já apareceram e em toda a assistência que tenho, sinto que fiz a escolha certa.
Hoje, se eu pudesse conversar com uma pessoa com câncer que recebeu um convite para participar de uma pesquisa clínica, diria para considerar essa possibilidade com muita atenção. Uma pesquisa pode oferecer acesso a um tratamento inovador, que ainda não está disponível pelos caminhos habituais. No meu caso, foi a possibilidade de receber uma medicação que eu provavelmente não conseguiria pelo convênio e está me trazendo uma resposta positiva.
Acredito que os pacientes precisam conversar com seus oncologistas, perguntar sobre estudos clínicos e procurar saber se existe alguma pesquisa para a qual possam se candidatar. Isso vale tanto para quem é atendido pelo SUS quanto para quem tem convênio. Não é preciso esperar que a oportunidade apareça; também podemos perguntar e buscar informações.
Enquanto o tratamento estiver funcionando, continuarei recebendo a medicação e sendo acompanhada pela equipe da pesquisa. Hoje, aos 48 anos, continuo trabalhando na minha loja, seguindo o tratamento e valorizando muito a vida.
O câncer mudou muita coisa na minha história. Tive medo, passei por momentos difíceis e ainda enfrento os efeitos do tratamento. A pesquisa clínica me trouxe uma nova possibilidade de controlar a doença, com acesso a uma medicação inovadora e um acompanhamento que considero excepcional. Sou muito grata por essa oportunidade.
Ping Pong
Pesquisa clínica, em uma palavra: Esperança.
O que você sentiu quando começou? Ansiedade.
O que mais te surpreendeu? Que existe vida após o câncer.
O que você leva de lição para a vida? Fé.
Hoje, esperança significa: A vida. É pura vida. Hoje eu dou valor à vida.
Sua participação nessa pesquisa: Gratidão.






