A redução da mortalidade por câncer de mama nas últimas duas décadas, o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes e a possibilidade de identificar tumores cada vez menores estão entre os avanços alcançados graças à pesquisa clínica. Mais do que oferecer novas alternativas terapêuticas, os estudos produzem conhecimentos que beneficiam não apenas as pacientes que participam das investigações, mas também aquelas que enfrentarão a doença no futuro.
Neste Outubro Rosa, a oncologista clínica Heloisa Rezende, coordenadora do Centro de Pesquisa do Hospital Universitário H.FOA – Hospital da Fundação Oswaldo Aranha, em Volta Redonda (RJ), integrante da Rede Vencer o Câncer de Pesquisa Clínica, destaca a importância desse trabalho para toda a humanidade. “A pesquisa clínica nos possibilita encontrar melhores alternativas de enfrentar o câncer”, destaca.
Ela explica que os resultados das investigações científicas podem ser observados na evolução do enfrentamento do câncer de mama. A mortalidade pela doença é significativamente menor do que há 20 anos, enquanto as expectativas de cura aumentaram. Essas conquistas, ressalta, não se restringem à descoberta de novos medicamentos, mas envolvem diferentes etapas do cuidado, desde o diagnóstico até o acompanhamento após o tratamento.
“Ainda existe uma distância grande entre a ciência e as pessoas. No Brasil, a maioria das pacientes nunca ouviu falar que pode participar de um estudo clínico. Muitas não sabem que essa é uma possibilidade segura, ética e acompanhada de perto. E quem mora longe dos grandes centros, muitas vezes, nem chega a ter a chance de perguntar”, afirma a gerente-executiva de pesquisa clínica do Instituto Vencer o Câncer, Juliana Mauri. “É aí que o Vencer o Câncer escolheu atuar: levar a pesquisa clínica para perto de quem precisa, como um direito, e não como privilégio”, afirma, referindo-se ao projeto Rede Vencer o Câncer de Pesquisa Clínica. (link)
Diagnóstico precoce, conhecimento dos diferentes tipos de câncer e tecnologias promissoras
Um dos avanços proporcionado pelas pesquisas e destacados por Heloisa é o aperfeiçoamento dos métodos diagnósticos. A evolução de exames complementares à mamografia, como a tomossíntese, a ressonância magnética e a ultrassonografia de melhor qualidade, ampliou a capacidade de identificar tumores menores. “Os resultados em câncer de mama melhoraram porque fazemos diagnósticos mais precoces e isso é possível porque temos exames melhores”.
Outra conquista importante foi a identificação dos subtipos moleculares do câncer de mama. Ela explica que a observação do comportamento clínico das pacientes durante as pesquisas permitiu compreender que diferentes expressões genômicas dos tumores estavam associadas a comportamentos distintos da doença. Esse conhecimento tornou possível diferenciar os tipos de câncer de mama de acordo com suas características e identificar a qual grupo cada tumor pertence, orientando a escolha do tratamento mais adequado.
Entre as tecnologias mais promissoras, a oncologista cita estudos envolvendo a análise de DNA circulante, que utiliza um exame de sangue para investigar alterações relacionadas ao tumor e que possibilita saber se a paciente tem células tumorais circulando. Ela explica que diversos protocolos de pesquisa clínica estão avaliando essa tecnologia, que poderá contribuir para identificar a presença e disseminação da doença e orientar estratégias terapêuticas.
Avanços: Imunoterapia, novos medicamentos e terapia-alvo
No campo terapêutico, Heloisa aponta avanços importantes para diferentes subtipos. Um deles é a imunoterapia para pacientes com câncer de mama triplo negativo, já incorporada à prática clínica, que vem transformando a evolução da doença e proporcionando ganhos expressivos de sobrevida. Outra conquista envolve os inibidores de ciclina, uma classe de medicamentos utilizada em associação à hormonioterapia nos tumores com receptores hormonais positivos, que traz impacto na sobrevida global e nas perspectivas de cura.
A imunoterapia também está sendo investigada para outros tipos de câncer de mama, além do triplo negativo. Essas aplicações ainda estão em fase experimental, mas, de acordo com Heloisa, os resultados são promissores.
Entre as transformações expressivas também têm importância o desenvolvimento das terapias-alvo, medicamentos que atuam sobre alterações específicas relacionadas ao câncer. Um dos principais exemplos é o câncer de mama HER2 positivo, caracterizado pela hiperexpressão do gene HER2.
Heloisa conta que a identificação dessa característica permitiu desenvolver tratamentos direcionados a esse subtipo e avisa que já existem pelo menos três moléculas inovadoras que aumentaram significativamente a sobrevida e transformaram as perspectivas das pacientes, inclusive pela capacidade de erradicar a doença. Uma das vantagens, avalia, é a seletividade dessas terapias. Como atuam sobre alterações genéticas específicas, podem apresentar menor toxicidade por não atingir da mesma maneira as células que não possuem essas alterações.
Pesquisa também busca melhorar a vida após o tratamento
A contribuição da pesquisa clínica não termina quando a paciente conclui o tratamento oncológico. Heloisa lembra que muitas mulheres, mesmo sem sinais da doença e já em acompanhamento, precisam lidar durante anos com consequências das terapias recebidas e é essencial desenvolver alternativas que melhorem as condições de vida nessa fase também.
Entre os possíveis efeitos estão a perda de densidade óssea, a osteopenia e a interrupção da menstruação, que pode provocar manifestações relacionadas à menopausa, como ondas de calor, ganho de peso e insônia. Também há protocolos clínicos com investigação de estratégias para ajudar as pacientes a enfrentar as sequelas e os efeitos colaterais.
Brasil ainda participa de uma parcela pequena dos estudos clínicos
Apesar dos avanços científicos, Heloisa identifica um desafio importante: ampliar a participação brasileira nas pesquisas internacionais e, consequentemente, a oferta de protocolos às pacientes. “Temos dados de que atualmente o Brasil participa de apenas 2% dos estudos”. Essa presença reduzida, avisa, limita as oportunidades de participação em pesquisas que poderiam acompanhar diferentes momentos da jornada das pacientes.
No Brasil, predominam os estudos de fase 3, realizados em etapas mais avançadas do desenvolvimento de medicamentos, geralmente comparando novas opções terapêuticas com tratamentos já existentes. No câncer de mama, boa parte desses protocolos envolve pacientes que recebem quimioterapia associada a medicamentos como imunoterapia ou terapias-alvo.
Em outros países há maior oferta de estudos de fases 1 e 2, quando novas moléculas começam a ser investigadas em pacientes. “Fora do Brasil, as pessoas têm acesso a mais pesquisa clínica numa fase mais precoce do desenvolvimento da molécula”. Isso significa que, enquanto determinados medicamentos já estão sendo estudados em outros países nas etapas iniciais de desenvolvimento, a participação brasileira frequentemente acontece apenas quando as investigações alcançam a fase 3, mais próxima da aprovação para comercialização.
Para Heloisa, ampliar a presença do país nas diferentes fases da pesquisa permitiria aumentar a diversidade de protocolos disponíveis e oferecer mais oportunidades de participação.
Benefícios para pacientes: acompanhamento rigoroso e acesso a novas terapias
A participação em um estudo clínico pode proporcionar um acompanhamento mais próximo. Segundo a oncologista, existem dados que mostram melhores resultados de controle da doença e expectativa de sobrevida entre pacientes que participam de pesquisas, inclusive quando recebem o mesmo tratamento utilizado fora dos estudos. Ela atribui parte dessa diferença à atenção oferecida durante o acompanhamento. “Na pesquisa a paciente passam por uma rotina rigorosa de avaliações e exames, permitindo que a equipe médica acompanhe e perceba todas as oscilações individuais e com isso os tratamentos podem ser adaptados.”
Heloisa detalha que dependendo do tipo da pesquisa nem todas as participantes recebem necessariamente o medicamento experimental. Em determinados protocolos, um grupo utiliza a nova terapia investigada, enquanto outro recebe o tratamento já estabelecido. Entretando, mesmo nesse segundo grupo, as pacientes são acompanhadas com o rigor previsto no estudo, benefício que Heloisa considera relevante para a assistência.
Outro aspecto importante é a possibilidade de receber medicamentos que ainda não estão disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou pelos planos de saúde. Dependendo do protocolo, a participação em uma pesquisa pode oferecer acesso a uma opção terapêutica que não estaria disponível para aquela paciente fora do estudo.
A pesquisa também qualifica médicos e equipes de saúde
A oncologista pontua que a oportunidade de oferecer acesso a medicamentos inovadores tem grande importância na prática médica, já que os profissionais buscam sempre garantir as alternativas mais eficazes de tratamento aos seus pacientes. E cita outros benefícios que a pesquisa traz para os profissionais envolvidos: a participação em estudos clínicos também representa uma oportunidade de aprimoramento e de manter contato com especialistas e líderes internacionais, acompanhar o desenvolvimento de novos tratamentos e participar de um processo permanente de atualização científica.
Esse intercâmbio, ela acredita, também estimula a motivação profissional. “Participando dessa rede o médico se torna motivado, ele vê melhores resultados com melhores estratégias”, afirma, acrescentando que o contato com novas possibilidades terapêuticas contribui para formar médicos mais qualificados e interessados em aperfeiçoar continuamente a assistência. Os benefícios se estendem a toda a equipe envolvida na condução dos estudos: profissionais de enfermagem, coordenação de pesquisa, recepcionistas, biomédicos e radiologistas recebem treinamentos específicos para atuar nos protocolos.
Ela avalia que essa formação também repercute no atendimento prestado fora do ambiente de pesquisa, já que os conhecimentos adquiridos em cursos, treinamentos e intercâmbios passam a integrar a prática cotidiana dos profissionais.
Rede Vencer o Câncer leva a pesquisa clínica para além dos grandes centros
Para Heloísa, uma das iniciativas capazes de transformar o cenário brasileiro é a expansão de redes que levem a pesquisa clínica a regiões onde a população tem menos oportunidades de participar dos estudos. A oncologista destaca o trabalho da Rede Vencer o Câncer de Pesquisa Clínica, que reúne centros em diferentes localidades, incluindo cidades do interior, regiões mais afastadas e o Nordeste.
“A iniciativa amplia as possibilidades de participação para pacientes que vivem longe dos grandes centros e, ao mesmo tempo, permite que profissionais dessas regiões tenham acesso às pesquisas, aos treinamentos e ao intercâmbio científico”, diz.
🡪 “A Rede Vencer o Câncer de Pesquisa Clínica está contribuindo para transformar a história da pesquisa clínica no Brasil.”
Outro ponto é citado pela especialista é o efeito de fortalecimento progressivo das instituições participantes, já que quando um centro recebe um estudo, realiza o trabalho e demonstra capacidade de conduzir o protocolo, aumenta suas possibilidades de participar de novas investigações. A experiência adquirida contribui, assim, para qualificar as equipes, fortalecer os centros regionais e ampliar as oportunidades futuras para os pacientes. “Esse movimento tende a ganhar força à medida que mais instituições se consolidem na realização de pesquisas, beneficiando tanto os profissionais quanto a população”, conclui.
Neste Outubro Rosa, a ampliação do acesso à pesquisa clínica acrescenta uma dimensão importante ao enfrentamento do câncer de mama. Os avanços que hoje permitem diagnósticos mais precoces, tratamentos mais direcionados e melhores perspectivas de sobrevida são resultado de investigações científicas. Levar essas oportunidades a mais regiões do Brasil significa permitir que mais pacientes participem desse processo e que os benefícios do desenvolvimento da ciência alcancem uma parcela cada vez maior da população.
Texto de Vivi Griffon






