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Final de ano é tempo de balanço, retrospectivas e projeções. Felizmente, a Medicina nos tem apresentado novas opções de tratamentos, embalados em esperança. No ano de 2023, para os pacientes oncológicos, a principal promessa chegou com novos medicamentos. E a expectativa é que eles continuem a multiplicar boas notícias em 2024.

“Para câncer de mama o advento dos anticorpos conjugados a droga, trastuzumabe deruxtecana e sacituzumabe govitecana representam os maiores avanços”, avalia o oncologista Antonio Buzaid, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer.

Debora Gagliato, integrante do Comitê Científico do Vencer o Câncer, oncologista especialista em câncer de mama, que atua na BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, considera essa classe de drogas como destaque em 2023. “São drogas alvo contra proteínas que são expressas no tumor e entregam dentro da célula um agente citotóxico bem potente quimioterápico. Com uma potência muito grande, com uma taxa de resposta e um prolongamento do controle da doença muito robusto. Sem dúvida nenhuma esse foi um ponto forte”, diz.

Ela considera ainda como destaque deste ano que chega ao fim a atualização de estudos muito importantes mostrando que imunoterapia em câncer de mama, aplicada ao subtipo triplo negativo, que em geral é mais agressivo, funciona muito bem e com seguimento mais prolongado. “Esse benefício vem se acentuando. Hoje pacientes com câncer de mama triplo negativo de mais alto risco sem dúvida nenhuma têm um benefício muito grande com a
imunoterapia”, afirma Debora.

“Para o próximo ano esperamos novidades em relação a novas classes de drogas, os anticorpos conjugados a droga, que conseguem realizar um tratamento personalizado, com quimioterapia sendo entregue diretamente ao tumor de forma inteligente”, avalia Marcelo Corassa, oncologista clínico e pesquisador, líder da Unidade de Câncer de Pulmão e Neoplasias do Tórax da BP. Ele considera que 2023 foi o ano de mais uma revolução no que tange a terapia-alvo, sobretudo em relação às mutações de EGFR.

“Tivemos a apresentação de vários estudos importantes no cenário de doença incurável, levando a melhora no tratamento dos nossos pacientes. Além disso, no cenário de tratamento adjuvante, ou seja, o tratamento de consolidação após a cirurgia, tivemos também importantes ganhos em terapia alvo, com dados consolidados em EGFR e também em outra alteração genética, o ALK”.

Corassa chama atenção para os avanços nas terapias antes e depois da cirurgia, chamadas de terapia neoadjuvante e adjuvante, respectivamente. “A imunoterapia, já consolidada em diversos aspectos do cenário incurável, trouxe perspectivas fantásticas para aumentar a possibilidade de cura dos nossos pacientes no cenário neoadjuvante, com estudos demonstrando aumento de taxas de cura!”, comemora.

Avanço na radioterapia traz mais conforto ao paciente

Um tratamento com mais conforto para o paciente, por ser mais curto e com menos quantidade de idas ao hospital. Esse é o resultado da novidade que tem melhorado o tratamento de radioterapia: a radioterapia hipofracionada. Médico especialista em radioterapia, Robson Ferrigno cita que este ano vários artigos científicos publicados ou apresentados em congressos confirmaram o benefício da utilização do método, que consiste em poucas sessões de radioterapia em dias seguidos, alternados ou duas vezes por semana, para tratar tumores de várias localizações ou lesões metastáticas em várias partes do corpo. Também membro do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, Ferrigno ressalta outras vantagens dessa opção, como o menor custo para o sistema de saúde e maior efetividade,
uma vez que são liberadas altas dose de radiação por sessão sobre o tumor primário ou metastático. “No entanto, para realização dessa estratégia é de fundamental importância que o serviço de radioterapia disponha de alta tecnologia para poder depositar essas altas doses de radiação de forma segura e sem comprometer as áreas do corpo que não necessitam receber radiação”.

Ele acrescenta que já é possível realizar radioterapia hipofracionada, em torno de cinco aplicações, para tratamento de vários tipos de câncer em fase inicial, como de mama, de próstata, de pulmão, além de metástases e outros tipos.

Robson Ferrigno é um dos autores do livro Vencer o Câncer de Pele e Melanoma, lançado no
último dia 12 de dezembro, pelo Instituto Vencer o Câncer  em que trata o papel da radioterapia nesse tipo de câncer.

Revolucionando a pesquisa no Brasil

“O ano de 2023 foi excepcionalmente positivo para o Vencer o Câncer, à medida que o poder de utilidade do Instituto, no sentido de trabalhar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento do câncer, se consolidou em projetos importantes”. A fala é do oncologista Fernando Maluf, cofundador do Instituto, e traz o registro de um projeto transformador da Oncologia no país, com criação e qualificação de centros de pesquisa em regiões que não tinham acesso a estudos e pesquisas, primariamente em hospitais públicos.

“O projeto permite que brasileiras e brasileiros, muitas vezes sem acesso ao tratamento básico, tenham a oportunidade de serem tratados com medicações inovadoras, em situações em que não existem mais terapias disponíveis, mesmo em locais sofisticados, como o tratamento padrão, ou que os tratamentos disponíveis tenham resultado potencialmente ruim”. Maluf avisa que esses protocolos podem ser uma esperança para pacientes receberem medicamentos que levem à cura ou ao controle de uma doença considerada incurável por muito tempo. “Esse projeto representa um carro-chefe, criando outra vez uma transformação na saúde do sistema público do país”.

A diretora Institucional do Instituto Vencer o Câncer, Ana Maria Drummond, destaca que 2023 foi um ano de extrema importância para a estrutura da organização, especialmente com a elaboração do planejamento estratégico realizado pela consultoria Bain & Company. “Este é o momento de agradecer todos os parceiros que estão conosco, que doaram seu tempo e talento para contribuir com o Vencer o Câncer”, afirma. “O ano de 2024 será o início da implementação desse planejamento, mantendo o DNA do Instituto, focando na contribuição para fortalecer o Brasil no cenário de pesquisa clínica e trabalhando fortemente para disseminar todas as estratégias de prevenção e melhoria do tratamento contra o câncer” completa Ana Maria.

Pacientes relatam desafios e realizações

“A vida é passageira por si mesmo e o maior desafio é viver, não ter a vergonha de ser feliz independente de quaisquer condições”. Esse é o otimismo que o paciente Victor Gomes busca espalhar. Laringectomizado há 16 anos, atua como voluntário da ACBG Brasil – Associação Brasileira de Câncer de Cabeça e Pescoço.

Ele considera que o importante é saber viver da melhor forma possível com o objetivo de buscar uma melhor qualidade de vida e voz. “Sempre respeitando e sendo grato a cada conquista que venha acontecer por conta da nossa sabedoria em fazer o bem sem ver a quem e procurar estar feliz com a felicidade do outro e com verdadeira gratidão a Deus”. Para ele, só assim é possível ter paz de espírito e ser mais firme e forte para superar os desafios da vida. “Sermos cada vez melhores, nos superarmos muito mais além do que imaginávamos, pois a dificuldade de uma pessoa laringectomizada é própria. Mas o importante é ser feliz”.

Ana Tunussi, paciente de linfoma não Hodgkin, começou o ano de 2023 precisando enfrentar uma negativa do seu convênio para fazer transplante de medula óssea. “Meus maiores desafios de 2023 foram lidar com problemas de convênio, quimioterapia, tratamentos e afins, além dos medos e angústias e tudo que a gente passa em um transplante de medula”, avalia. Ela precisou recorrer à ANS – Agência Nacional de Saúde Suplementar para realizar seu transplante.

Apesar dos obstáculos, avalia que foi um desafio concluído com sucesso, com poucos efeitos colaterais e se mantendo positiva. “Infelizmente, no meio do ano, mesmo após o transplante de medula, meu câncer recidivou”. Ela se viu de volta à quimioterapia e precisou travar outro embate com o convênio para fazer terapia CAR-T Cell, um tratamento novo no país.“O convênio negou, tivemos que entrar com liminar, um processo longo que durou de agosto ao
começo de novembro. Mas graças a Deus foi vitorioso e em 29 de novembro eu comecei a primeira fase do CAR-T Cell, que é a coleta de células. Estou muito feliz de ter superado esse desafio”.

Para 2024 a expectativa é receber de volta as células. “E, se Deus quiser, conquistar a tão sonhada remissão da doença sem recidiva, sem nada. Esse é meu maior sonho para 2024. Depois do tratamento o hematologista falar: ‘Ana, você está em remissão’. E eu poder voltar um pouco mais para a minha rotina, fazer um pouco mais do que fazia antes, poder me sentir um pouquinho mais eu mesma. Porque apesar de me manter positiva, me manter sempre bem, a gente sente falta às vezes de algumas rotinas que, sabemos, o paciente oncológico não pode ter”. E nesse clima de esperança Ana deseja um feliz Natal e Ano novo para todos. “Um ano de muitas realizações paz e amor”.

2024 vem aí!! Confira as perspectivas dos médicos na Oncologia:

Antonio Buzaid

Para melanoma metastático, tivemos a recente aprovação da combinação de imunoterapia com relatlimabe e nivolumabe. Esta combinação deve estar disponível no início de 2024 para prescrição.
Para câncer de mama avançado, uma droga nova chamada capivasetibe com Fulvestranto deve ser aprovada em futuro próximo no Brasil. Foi aprovada pelo FDA há pouco tempo.

Debora Gagliato

Para 2024, as perspectivas são aprimorar e consolidar os benefícios dos tratamentos novos sistêmicos, desde os anticorpos droga-conjugada (ADCs), imunoterapia, inibidores de ciclina para câncer de mama localizado. São medicamentos que vêm corroborar os melhores desfechos possíveis para mulheres com câncer de mama. Os estudos vão sendo atualizados e esses benefícios, felizmente, vão se aprofundando para as pacientes.
Outro ponto importante também é trazer essas novas drogas, os novos ADCs, para o cenário de doença localizada de mais alto risco. É fundamental porque eles tiveram muito sucesso no cenário metastático.

Marcelo Corassa

O ano de 2023 foi muito prolífico! Contudo, as novidades demoram ainda para chegar no Brasil e esperamos que em 2024 tenhamos a aprovação dos vários novos esquemas para utilização no Brasil.

Robson Ferrigno

Todos os avanços tecnológicos da radioterapia no mundo se encontram em boa parte dos serviços de radioterapia do Brasil. No entanto, vários ainda estão atrasados na implementação de novas tecnologias, principalmente os que atendem exclusivamente pacientes do SUS. Esperamos que as autoridades governamentais tenham a sensibilidade de olhar a radioterapia com a devida importância e investir nessa área, uma vez que em torno de 60 a 70% dos pacientes com câncer diagnosticados vão precisar de radioterapia em pelo menos uma fase do tratamento para ter a sua curabilidade assegurada. E a qualidade da radioterapia é importante tanto para garantir um adequado controle da doença, como também evitar complicações dessa forma de tratamento.

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