Pesquisa Clínica em Primeira Pessoa: Uma escolha que também pode ajudar muita gente

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Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.
Tratamento de câncer pode estar na pesquisa clínica.

por Michelly Zullo

Quando meu médico me convidou para participar de uma pesquisa clínica, eu nem sabia direito do que se tratava. Ele me explicou que era um medicamento novo, ainda em estudo, e que, além de ter a chance de receber um tratamento que poderia ser melhor, eu estaria contribuindo para que outras pessoas pudessem se beneficiar no futuro.

Isso teve um significado muito grande para mim. Depois do câncer, tudo muda na vida. Eu passei a sentir uma necessidade muito forte de conscientizar outras pessoas, principalmente as mulheres, sobre a importância de cuidar da saúde. Saber que, participando da pesquisa, eu também poderia ajudar alguém no futuro me trouxe esse sentimento de estar fazendo algo bom, deixando a minha marca, plantando uma sementinha.

A minha decisão foi muito rápida. Pensei: eu não tenho certeza do amanhã e não tenho nada a perder. Se meu médico acredita nesse medicamento, vou confiar nele. Aceitei.

Um diagnóstico aos 33 anos

Descobri o câncer de mama em 2020, durante a pandemia, aos 33 anos.  Cerca de um ano antes, eu havia feito exames para colocar prótese de silicone e estava tudo bem. Uns dez meses depois, acordei durante a noite com uma pontada muito forte na mama direita e quando coloquei a mão no local senti um nódulo muito grande. Nos dias seguintes, comecei a prestar atenção naquele caroço, conversei com minha mãe e minha tia, que eram enfermeiras, procurei um médico e fiz os exames.

Eu achava que poderia ser um nódulo de gordura por causa do silicone. Nem imaginava que fosse câncer, porque não tenho histórico da doença na família, era muito nova, fazia atividade física e me alimentava bem. Por isso, quando veio o diagnóstico, foi um choque. Já estávamos vivendo a pandemia, todo mundo fechado em casa, e pensei: “Meu Deus, além da pandemia, agora isso também”.

O tumor tinha entre sete e oito centímetros. Fiz a mastectomia da mama direita e depois vieram 16 sessões de quimioterapia e 15 de radioterapia. Perdi o cabelo, perdi uma mama e passei por todo aquele processo. Meu câncer era do tipo luminal B, hormônio-dependente, o que levou ao tratamento com também com hormonoterapia, além de receber uma medicação injetável. O tratamento induziu a menopausa quando eu ainda tinha 33 anos e com ela vieram dores articulares e, mais tarde, também desenvolvi osteoporose.

O convite que mudaria a minha vida

Em 2024, meu oncologista disse que eu me enquadrava no perfil de um estudo com uma nova hormonoterapia e me convidou para participar. Explicou que era um estudo confiável, que haveria uma equipe grande acompanhando o meu caso, que eu faria exames frequentes e seria muito bem assistida. Ele me passou muita segurança, o que me tranquilizou e me fez sentir que estava nas mãos certas e no caminho certo.

Conversei com a minha família, todos me incentivaram e aceitei de primeira, começando a pesquisa em setembro de 2024.

Hoje percebo como ainda sabemos pouco sobre pesquisa clínica. Eu mesma não tinha ideia até receber o convite, buscar informações e entender melhor.  Depois do câncer, passei a falar muito sobre a importância de cuidar da saúde. Para mim, saúde não é sorte; precisamos fazer a nossa parte, nos cuidar, ter boa alimentação e fazer tudo que estiver ao nosso alcance. 

Eu vi que participando da pesquisa eu também poderia contribuir para o futuro. Saber que estou ajudando a produzir conhecimento que poderá beneficiar outras pessoas me faz sentir que também estou cumprindo um pouco dessa missão.

A segurança de ser acompanhada de perto

A rotina da pesquisa exige bastante compromisso para cumprir as datas estabelecidas de consultas e exames. Tenho que seguir o protocolo corretamente e fazer as anotações do dia e do horário em que tomo a medicação.

No primeiro ano, fiz muitos exames, com um acompanhamento geral do meu corpo, incluindo até avaliação oftalmológica. A equipe também mantém contato comigo e pergunta como estou. O que mais me marca é justamente esse cuidado.

Eu já era muito bem cuidada pelo meu oncologista e continuo sendo, independentemente da pesquisa. Mas, dentro do estudo, também me sinto muito acolhida pela equipe e acompanhada de perto.

Outro aspecto importante é como meu corpo está reagindo ao novo medicamento. As dores articulares que eu já sentia por causa do tratamento hormonal e da menopausa induzida continuam, mas estão menores do que eram com a medicação anterior. Eu me sinto segura e muito confiante.

Uma dúvida que quase me fez desistir

Pouco antes de começar a pesquisa, vivi uma situação que me marcou muito. Eu estava com um grupo de mulheres que também tiveram câncer de mama e comentei, toda feliz, que participaria de uma pesquisa clínica. Uma delas disse que eu poderia estar tomando placebo e aquilo me desestabilizou.

Até aquele momento, essa dúvida nem existia para mim. Eu confiava no meu médico, estava segura da decisão e, de repente, comecei a pensar: “Meu Deus, será que vou tomar placebo?”.

Nos dias seguintes, voltei ao hospital e perguntei diretamente ao meu médico. Foi uma experiência que me mostrou o quanto precisamos ter cuidado com informações e opiniões de pessoas que não conhecem o estudo. Por alguns dias, aquele comentário quase me fez desistir, mas consegui entender que aquela era a visão de outra pessoa, não a minha. Eu acreditava que estava em boas mãos e decidi seguir. E estou aqui, firme e forte.

Por isso, quando alguém recebe um convite para participar de uma pesquisa clínica, minha mensagem é: busque informação. Se surgir medo ou dúvida, investigue, procure médicos que conheçam pesquisa clínica, busque informações confiáveis e entenda o estudo antes de tomar uma decisão. Não deixe que comentários de pessoas que não conhecem o assunto façam você desistir de uma oportunidade.  A informação salva vidas.

Eu sei o que significa estar dentro de uma pesquisa porque vivo isso na pele. Para mim, a pesquisa trouxe acompanhamento, segurança e a possibilidade de participar do desenvolvimento de um tratamento que pode representar um avanço não apenas para mim, mas para outras pessoas. E saber que posso dar essa contribuição tem um significado enorme.

Ping Pong

Pesquisa clínica para você, em uma palavra: Avanço.

O que você sentiu quando começou? Esperança.

O que mais te surpreendeu? A eficácia e a inteligência de todas as partes envolvidas.

O que você leva de lição para a vida? Confie no seu médico, ouça a sua intuição e busque informações.

Hoje, esperança significa: Viver, mas viver com qualidade de vida.

Resuma sua participação nessa pesquisa: Futuro, esperança e dignidade.

Publicação: 25/09/2026 | Atualização: 25/09/2026

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