O Ministério da Saúde anuncia um novo protocolo nacional para o rastreamento do câncer colorretal no Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta prevê a adoção do Teste Imunoquímico Fecal (FIT, em inglês) como exame de referência para homens e mulheres assintomáticos entre 50 e 75 anos.
O exame é simples e não invasivo. O paciente recebe um kit para coleta em casa e deve retirar uma pequena amostra das fezes com uma haste específica, acondicionada em um tubo coletor. Em seguida, o material é encaminhado para análise laboratorial.
Com a medida, o Ministério da Saúde pretende ampliar o diagnóstico precoce do câncer de cólon e reto, um dos tumores mais frequentes entre homens e mulheres no país. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer, o Brasil deverá registrar mais de 53,8 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028.
O oncologista Dr. Lucas Vieira dos Santos, da Rede Américas e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, considera positiva a decisão do Ministério da Saúde de disponibilizar o teste para sangue oculto nas fezes no SUS, mas ressalta que é importante compreender as diferenças entre os métodos de rastreamento do câncer colorretal.
“Embora seja uma boa notícia a disponibilização do teste fecal de hemoglobina química para pacientes do Sistema Único de Saúde, pois amplia o acesso ao rastreamento, nós precisamos conhecer bem a diferença entre os métodos de rastreamento. Esse teste se baseia num princípio: o câncer do intestino sangra e, se você identificar a presença de hemoglobina dentro das fezes, isso indica que você precisa procurar algum tipo de neoplasia no tubo digestivo. Então esse é o princípio básico”, explica.
Segundo o especialista, entretanto, o exame padrão para rastreamento continua sendo a colonoscopia.
“A colonoscopia tem a vantagem de, além de identificar o câncer propriamente dito, conseguir remover pólipos, que são lesões pré-tumorais. Quando fazemos a colonoscopia, temos a oportunidade, ao mesmo tempo, de retirar esses pólipos, tratar essas lesões e, consequentemente, reduzir o risco e a incidência de um câncer colorretal no futuro”, afirma.
Lucas Vieira dos Santos destaca que o teste fecal pode funcionar mais como um sinal de alerta.
“O teste fecal é mais ou menos como se fosse um alarme. Se ele apitou, o paciente vai ter de realizar a colonoscopia para fazer a sua investigação e o seu diagnóstico. O problema é que mesmo os pacientes com teste fecal negativo poderiam se beneficiar da realização de colonoscopia”, pondera.
De acordo com o oncologsita, isso acontece porque a colonoscopia permite interromper a evolução de lesões que podem se transformar em câncer futuramente.
“O teste vai selecionar pacientes de risco maior, mas ao mesmo tempo ele não vai induzir os pacientes que têm um teste negativo façam a colonoscopia e, consequentemente, tratem o pólipo que poderia se transformar num câncer no futuro. Então essa é a grande diferença”, diz.
O oncologista reconhece que a adoção do teste fecal pode ampliar o acesso ao rastreamento no SUS, mas afirma que ainda prefere recomendar a colonoscopia na maioria das situações.
“Entendo que se queira uma forma com menor custo e mais amplamente disponível, que se consiga aumentar o acesso dos pacientes a métodos de rastreamento, embora eu, particularmente, prefira recomendar colonoscopia na maioria das vezes”, comenta.
O médico também chama atenção para a discussão sobre a idade ideal para rastreamento do câncer colorretal.
“Hoje as pessoas estão vivendo mais tempo e, se elas vivem mais tempo, por que não eventualmente considerar o rastreamento em pessoas mais velhas? Ao mesmo tempo, inúmeras estatísticas internacionais têm mostrado uma redução da incidência de câncer colorretal de forma geral, porém pessoas abaixo de 50 anos têm tido um aumento de incidência, em alguns casos até de 800%”, ressalta.
Para ele, esse cenário reforça a necessidade de ampliar a discussão sobre estratégias de rastreamento.
“Dito isso, por que não oferecer o teste para pessoas abaixo dos 50 anos, já que ele é um teste de rastreio e de baixo custo? Então eu acho que ficam essas perguntas que a gente deve fazer como sociedade, e a comunidade científica deve buscar estas respostas”, conclui.







