O HPV (papilomavírus humano) já é bastante conhecido como importante fator de risco para o câncer do colo do útero. Mas ele também está relacionado ao desenvolvimento de diversos outros tumores, entre eles o câncer de orofaringe, na região localizada no fundo da boca, que inclui as amígdalas, a base da língua, o palato mole e a úvula. A discussão ganha ainda mais importância durante o Julho Verde, mês de conscientização sobre os cânceres de cabeça e pescoço. Embora o tabagismo e o consumo de álcool continuem sendo importantes fatores de risco para esses tumores, o HPV tem assumido um papel cada vez mais relevante.
“O HPV é um vírus conhecidamente oncogênico, ou seja, ele aumenta o risco de câncer. À medida que a pessoa se infecta ao longo da vida, muitas vezes sem apresentar sintomas, alguns subtipos do vírus vão causando danos ao DNA das células durante anos ou até décadas. O acúmulo dessas alterações pode levar ao surgimento do câncer”, explica Maria Alzira Rocha, médica oncologista com foco em tumores de cabeça e pescoço, câncer de pulmão e tumores genito-urinários no Einstein Hospital Israelita e especialista do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer.
Segundo a oncologista, entre todos os tumores de cabeça e pescoço, o câncer de orofaringe é o que apresenta a associação mais consistente com a infecção pelo HPV. “Em outras regiões da cabeça e pescoço essa relação também pode existir, mas ela é muito menos frequente. A orofaringe é a localização mais característica dessa associação.”


Vacinação pode mudar a história da doença
A vacinação é uma das formas mais eficazes de evitar que o HPV provoque o desenvolvimento de cânceres. Maria Alzira destaca que os resultados observados em países que adotaram programas amplos de imunização mostram o potencial dessa estratégia para reduzir os tumores relacionados ao vírus. “A Austrália é um grande exemplo. Eles implantaram a vacinação há muitos anos e praticamente deixaram de diagnosticar câncer de colo do útero. Foi o primeiro câncer em que conseguimos observar claramente o impacto da vacinação. Depois começamos a entender que esse mesmo raciocínio também se aplica aos outros tumores relacionados ao HPV, incluindo os de cabeça e pescoço.”
Embora os resultados nos tumores de orofaringe também já estejam aparecendo, eles levam mais tempo para serem observados. Isso acontece porque esses cânceres costumam surgir décadas após a infecção pelo HPV, homens passaram a ser vacinados mais recentemente e diferentemente do câncer do colo do útero, não existe um programa de rastreamento populacional para o câncer de orofaringe, o que dificulta medir rapidamente o impacto da vacinação.
Quem deve se vacinar e outras formas de prevenção
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente a vacina tetravalente contra o HPV para os grupos previstos no Programa Nacional de Imunizações, incluindo meninos e meninas na faixa etária indicada e pessoas imunossuprimidas que se enquadram nos critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde (veja infográfico). Entre esses pacientes estão pessoas vivendo com HIV, pacientes oncológicos, transplantados, pessoas em hemodiálise e outras condições de imunossupressão.
Maria Alzira faz um alerta importante: quem já iniciou a vida sexual ou até mesmo já teve contato com o HPV também pode se beneficiar da vacinação. “Muitas pessoas acreditam que a vacina só funciona antes do início da vida sexual. Mas nós sabemos que, mesmo quando já houve contato com o vírus, a vacinação estimula o sistema imunológico e pode ter um efeito protetor importante em relação ao desenvolvimento dos cânceres relacionados ao HPV.” Nesses casos, porém, a vacinação normalmente está disponível apenas na rede privada.
Hoje também já existe a vacina nonavalente, que amplia a proteção contra um número maior de subtipos do vírus. Quanto maior a cobertura contra diferentes variantes do HPV, maior tende a ser a proteção da população ao longo do tempo.
Além da vacinação, a prevenção também passa pela educação sexual, o uso de preservativos, a orientação sobre infecções sexualmente transmissíveis e o conhecimento sobre os fatores de risco. “O HPV é uma infecção sexualmente transmissível e ele não precisa ser um tabu por causa disso; faz parte da nossa vida. Hoje nós temos uma medida absolutamente revolucionária, que é a vacina, para prevenir a lesão antes mesmo que ela exista”, avisa.
Embora o vírus tenha uma participação importante no câncer de orofaringe, ele não explica todos os diagnósticos. A proporção varia entre os países, conforme o comportamento da população e a circulação do vírus. No Brasil, detalha a oncologista, estima-se que entre 20% e 30% dos casos de câncer de orofaringe estejam relacionados ao HPV, embora algumas séries apontem percentuais próximos de 40%.
Isso significa que muitos pacientes desenvolvem a doença por outros fatores, principalmente tabagismo e consumo de álcool. Ela ressalta que os fatores de risco não são excludentes: uma pessoa pode ser portadora do HPV e também fumar, aumentando ainda mais a probabilidade de desenvolver a doença. “Muitas vezes o paciente pensa: ‘Estou vacinado, então posso ficar tranquilo’. Mas os fatores não se excluem. Pelo contrário: eles podem até se somar.”
Por isso, prevenir o câncer de orofaringe envolve um conjunto de medidas, como vacinação, abandono do cigarro, redução do consumo de álcool e atenção aos sinais persistentes do organismo.
Quais sinais merecem atenção?
Ao contrário do câncer do colo do útero, que conta com um programa consolidado de rastreamento, o câncer de orofaringe ainda não possui um exame de rotina capaz de identificar precocemente a doença na população. Por isso, conhecer os sinais de alerta e procurar atendimento diante de sintomas persistentes faz toda a diferença.
- A orofaringe corresponde à região localizada no fundo da boca, formada pelas amígdalas, a base da língua, o palato mole e a úvula (a “campainha” da garganta).
Maria Alzira alerta que o câncer nessa região pode provocar diferentes manifestações, mas também pode permanecer completamente assintomático nas fases iniciais.
Entre os sintomas que merecem investigação estão:
- Feridas ou aftas que não cicatrizam.
- Dor persistente na garganta.
- Rouquidão.
- Dificuldade para engolir alimentos ou saliva.
- Sensação de alteração na movimentação da língua.
- Cansaço ao falar.
- Aparecimento de caroços no pescoço ou próximos à mandíbula.
“Existe essa forma clássica da gente fazer o diagnóstico. Muitas vezes você vê uma lesão ulcerada, uma ferida que não cicatriza. Mas o paciente pode ter várias queixas ou pode não ter queixa nenhuma. Esse é justamente um dos nossos desafios.” Ela lembra que nem todo sintoma significa câncer, mas alterações persistentes nunca devem ser ignoradas. “Você está com uma afta que não melhora? Muitas vezes será apenas uma afta, mas precisa buscar ajuda se não melhora, não pode assumir que é benigno apenas porque essa doença é relativamente rara.”
Outro aspecto importante a ser considerado é que o paciente nem sempre fica muito mal quando tem câncer. “Essa imagem acontece quando a doença já está muito avançada. Nós não esperamos que isso aconteça para fazer o diagnóstico, porque nesse contexto a chance de cura diminui muito.”
Como é feito o diagnóstico?
A investigação normalmente começa após o aparecimento de um sintoma persistente ou de uma alteração percebida pelo paciente ou pelo médico. Quando há suspeita clínica, o especialista pode solicitar exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética, de acordo com cada situação. Mas a confirmação depende da biópsia.
“Em oncologia, diagnóstico sem biópsia é absolutamente exceção. Não basta dizer que é um câncer. Hoje nós precisamos dar nome e sobrenome para a doença”, informa a oncologista. Além de confirmar o diagnóstico, a biópsia permite realizar testes que identificam se aquele tumor está relacionado ao HPV.
As informações ajudam não apenas a confirmar a origem do tumor, mas também a orientar o prognóstico e individualizar o tratamento.
Tratamento depende do estágio da doença
Assim como acontece com outros tipos de câncer, quanto mais cedo o diagnóstico é realizado, maiores são as chances de cura, melhores as opções de tratamento e resultados. Nas fases iniciais, a cirurgia costuma ser a principal opção terapêutica. Dependendo das características encontradas após a operação, o paciente pode precisar complementar o tratamento com radioterapia ou com quimioterapia.
Quando a doença já se apresenta mais extensa ou a cirurgia não é considerada a melhor alternativa, o tratamento costuma ser feito com quimioterapia associada à radioterapia. Em alguns casos, a equipe médica também pode indicar um ciclo inicial de quimioterapia antes da radioterapia.
Maria Alzira esclarece que essa estratégia pode melhorar outros aspectos do tratamento, como o planejamento da radioterapia, embora os estudos não tenham demonstrado aumento da sobrevida global. “Fazemos principalmente quando a doença é muito extensa, porque existem outros ganhos.”
A definição do tratamento é sempre feita por uma equipe multidisciplinar, envolvendo cirurgiões de cabeça e pescoço, oncologistas clínicos, radioterapeutas, radiologistas e patologistas.
Imunoterapia abre novas perspectivas
Nos casos de doença avançada ou metastática, a imunoterapia já faz parte das opções terapêuticas e vem modificando o tratamento de muitos pacientes. Além dos medicamentos atualmente disponíveis, diversas pesquisas investigam estratégias ainda mais sofisticadas, incluindo novas formas de imunoterapia, vacinas terapêuticas e abordagens baseadas em engenharia genética.
A oncologista afirma que os resultados iniciais são bastante promissores. “A imunoterapia já é uma realidade para a doença avançada. E existem estudos em andamento indicando que ela também pode trazer benefícios para pacientes em fases mais iniciais.” Essas novas estratégias ainda não fazem parte da prática clínica de rotina e seguem em investigação.
Para muitos pacientes, as sequelas provocadas pela doença ou pelo tratamento podem afetar funções essenciais, como falar, mastigar, engolir e até a interação social. Por isso, ela recomenda a discussão desses temas durante o acompanhamento médico. “Converse com o oncologista sobre as sequelas. Dependendo do que você faz, do seu trabalho, da sua voz, da sua mastigação, da sua capacidade de engolir, tudo isso faz parte do tratamento.”
Muitas vezes o paciente pode precisar do acompanhamento de outros profissionais, como fonoaudiólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e psicólogos. “Os pacientes tratados para câncer de cabeça e pescoço têm uma demanda por psicoterapia muito maior do que pacientes tratados para outras malignidades. Mas eles trazem muito pouco essa demanda durante a consulta.”
- Cuidar da saúde emocional e da qualidade de vida também faz parte do tratamento oncológico.
Embora a prevenção e o diagnóstico precoce sejam fundamentais, Maria Alzira lembra que ninguém deve carregar culpa por descobrir a doença em um estágio mais avançado. “Eu acho muito importante dizer aos pacientes que não tenham culpa. Esses fatores são complexos na nossa vida. Existem vários profissionais treinados para tratar vocês. Essas doenças têm tratamento e têm cura, mesmo quando acontecem em fases de diagnóstico mais tardias”, diz, acrescentando que informação, prevenção, vacinação e acesso ao tratamento caminham juntos.
“Quando falamos em prevenção e diagnóstico precoce, isso nunca é para excluir quem já recebeu o diagnóstico. Pelo contrário. O tratamento bem feito também inclui cuidar da parte emocional, da funcionalidade e da qualidade de vida de quem enfrenta ou já enfrentou o câncer”, conclui.
Texto de Vivi Griffon







