A projeção do Instituto Nacional do Câncer (INCA) divulgada este mês, com a estimativa sobre o câncer no Brasil para o triênio 2026-2028, aponta aumento de pouco mais de 10% na incidência, passando de 704 mil para 781 mil novos casos anuais de câncer no país. Mesmo quando se exclui o câncer de pele não melanoma, tradicionalmente retirado das estatísticas pela alta incidência e seu comportamento menos letal, o crescimento permanece relevante: de 483 mil para 518 mil novos casos por ano, também na ordem de quase 10%.
O que dizem os números do INCA?
- Crescimento acima da média do tumor colorretal, inclusive em pacientes mais jovens
- Estabilização do câncer de pulmão, possivelmente refletindo redução do tabagismo
- Persistência do alto número de casos de câncer de colo do útero
- Manutenção dos cinco tumores mais incidentes em homens e mulheres
- Números refletem envelhecimento, estilo de vida e desigualdade estrutural
- Estimativas demandam ação rápida e decisões imediatas de gestão
Entretanto, alerta o oncologista Fernando de Moura, membro do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, esse aumento no número de casos não ocorre de forma homogênea. Ele destaca a expansão acelerada do câncer colorretal e a manutenção de tumores associados a desigualdades estruturais, como o de colo do útero. Em contraponto, houve a estabilização do câncer de pulmão, reflexo de ações para redução do tabagismo nas últimas décadas.
“O câncer vem crescendo de modo exponencial no Brasil e no mundo”, afirma o oncologista Fernando Maluf, um dos fundadores do Instituto. Ele destaca que o fenômeno não é explicado por um único fator, mas resulta da combinação entre envelhecimento populacional, piora dos hábitos de vida, expansão de fatores de risco e desigualdades sociais que impactam tanto a prevenção quanto o diagnóstico precoce. Por ser multifatorial, exige uma leitura que vá além das estatísticas anuais.
A diretora do Instituto, Ana Maria Drummond, acredita que os novos dados do INCA nos convidam a ir além dos números. “O câncer evidencia as forças e escancara as falhas do nosso sistema de saúde. As diferenças regionais são especialmente reveladoras”, avalia, reforçando que os dados deixam claro que existe uma relação direta entre desigualdade social, acesso à saúde e desfechos em câncer. “Diante desse cenário, é urgente repensar como alocamos os recursos em saúde. Estratégias como a compra centralizada de medicamentos oncológicos de uso mais universal, aliadas ao uso inteligente de dados e tecnologia, podem gerar ganhos de escala, reduzir custos e ampliar o acesso ao tratamento adequado”.
Ela ainda lembra que a prevenção segue sendo a principal medida, associada ao combate à desinformação. “São estratégias necessárias que promovemos desde o início do Instituto Vencer o Câncer. Há uma urgência grande e um problema que demanda uma resposta em escala.”
Gabriela Tannus, especialista em estratégias econômicas e leitura de políticas públicas na saúde, colaboradora do Instituto Vencer o Câncer, reforça a urgência da situação. “O crescimento projetado nos casos impõe decisões imediatas de gestão: organizar a rede, proteger quem já está em tratamento e otimizar a compra de medicamentos.”
Obesidade, tabagismo, má alimentação e sedentarismo: o combo de risco
Um dos fatores mais evidentes para o crescimento dos números, pondera o médico oncologista Fernando Maluf, é o aumento da expectativa de vida. Com mais pessoas vivendo por mais tempo, cresce naturalmente a incidência de doenças crônicas, entre elas o câncer. No entanto, ressalta que essa explicação, embora relevante, não é suficiente para compreender o cenário atual.
Além do envelhecimento, há um avanço consistente de fatores de risco. A obesidade, por exemplo, multiplicou-se nas últimas quatro décadas. “Nós temos hoje dez vezes mais obesos e pessoas com sobrepeso do que no passado”, diz. A obesidade, ao lado do cigarro, é considerada como um dos principais determinantes para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer. O aumento do sedentarismo e a piora da qualidade alimentar fazem parte desse quadro, com maior consumo de dietas pró-inflamatórias e menor acesso a alimentos orgânicos, muitas vezes por custo.
O consumo de álcool continua sendo um problema relevante no país, assim como a persistência do tabagismo e a exposição crescente a poluentes ambientais, que também figuram como fatores associados ao desenvolvimento de câncer. A esses elementos somam-se as infecções virais, especialmente hepatites e HPV, cuja incidência ainda é significativa no Brasil.
No caso do HPV, o impacto é particularmente sensível. O país figura entre os de maior incidência de tumores relacionados ao vírus, como câncer de colo do útero, pênis, vulva, canal anal e tumores de cabeça e pescoço. Maluf alerta que apesar da disponibilidade da vacina, a cobertura vacinal segue baixa. Situação semelhante ocorre com a hepatite B, cuja prevenção também depende da vacinação e está relacionada ao câncer de fígado, tumor ainda importante no cenário nacional.
Para o oncologista, a desigualdade social amplifica esse cenário. Populações mais vulneráveis enfrentam maior exposição a fatores de risco, com dieta inadequada, menor tempo disponível para atividade física, maior consumo de álcool e cigarro, além de ter menor acesso à vacinação e ao rastreamento. Além disso, chegam ao sistema de saúde com doença mais avançada. “A mortalidade em populações menos favorecidas pode ser duas a três vezes maior do que em países desenvolvidos”, observa. O diagnóstico tardio, independentemente do acesso posterior ao tratamento, é um fator prognóstico adverso determinante.
Compreender essa combinação de envelhecimento, fatores ambientais, hábitos de vida e desigualdade é essencial para enfrentar o crescimento do câncer no país. Não se trata apenas de ampliar o tratamento, mas de agir sobre prevenção, vacinação, políticas públicas e redução das desigualdades que moldam o perfil da doença.
Avanço do colorretal e persistência do colo do útero apontam o que precisamos enfrentar
Fernando de Moura faz uma análise detalhada com um olhar aprofundado para os números apresentados na estimativa do Inca. Ele esclarece que apesar do crescimento global, o ranking dos cinco tumores mais incidentes permanece inalterado. Entre os homens, seguem como mais frequentes: próstata, colorretal, pulmão, estômago e cavidade oral. Entre as mulheres: mama, colorretal, colo do útero, pulmão e tireoide. O que muda é o peso absoluto de alguns diagnósticos.
No caso masculino, o câncer de próstata cresce dentro da média geral, passando de cerca de 70–71 mil para 78 mil novos casos por ano. Já o câncer colorretal apresenta avanço acima da média: de aproximadamente 22 mil para 26 mil novos casos anuais, com uma alta próxima de 30%. Segundo o médico, esse aumento é compatível com o que se observa na prática clínica, com maior frequência de tumores gastrointestinais, especialmente colorretais, inclusive em pacientes mais jovens.
Entre as mulheres, o movimento se repete. O câncer colorretal cresce de cerca de 23 mil para 27 mil casos anuais, aumento próximo de 20%, também acima da média geral. Já o câncer de colo do útero mantém-se como o terceiro tumor mais incidente e apresenta elevação aproximada de 10%, passando de 17 mil para 19 mil novos casos por ano, sinal de que a doença continua altamente prevalente no país.
Na comparação com o cenário internacional, avalia Fernando de Moura, alguns tumores apresentam discrepâncias relevantes. O câncer de estômago, quarto mais frequente entre homens no Brasil, ocupa apenas a 13ª posição nos Estados Unidos. O câncer de cavidade oral, quinto mais incidente na população masculina brasileira, aparece na nona posição no cenário americano. Esses tumores estão associados a fatores como tabagismo, consumo de álcool e também condições de higiene bucal e acesso à odontologia, elementos que refletem desigualdades sociais.
No caso do câncer de colo do útero, a diferença é ainda mais marcante. Enquanto no Brasil ele ocupa o terceiro lugar entre os tumores femininos mais incidentes, nos Estados Unidos aparece na 13ª posição. A doença está majoritariamente relacionada ao vírus HPV.
Disponível no SUS há cerca de dez anos, a vacina contra o HPV tem perspectiva de reduzir drasticamente a incidência nas próximas décadas. Para as mulheres adultas, que não foram vacinadas porque a imunização não estava disponível quando eram adolescentes, o principal instrumento de controle continua sendo o rastreamento com exame de Papanicolau.
Por outro lado, o câncer de pulmão entre homens praticamente estacionou no comparativo entre os dois triênios. Para Fernando de Moura, esse é um dado positivo e provavelmente reflete a redução consistente do tabagismo nas últimas duas décadas. Como o pulmão é o principal tumor associado ao cigarro, a diminuição do número de fumantes começa a se traduzir em estabilização da incidência, tendência já observada em diversos países.
“As estimativas do INCA são publicadas desde 1995 e atualmente têm caráter trienal, orientando o planejamento de políticas públicas, a organização da assistência oncológica e o direcionamento de recursos”, explica. Para o oncologista, mais do que o crescimento global já esperado, a nova projeção evidencia um perfil epidemiológico em transformação, marcado por avanços, persistências e sinais claros de onde o sistema de saúde precisará concentrar esforços nos próximos anos.
Trocar o pneu com o trem rodando: o que fazer agora
Gabriela Tannus não considera o aumento de cerca de 10% na previsão de novos casos de câncer uma surpresa isolada. Para ela, é parte do reflexo tardio da pandemia. “Já se falava, durante o lockdown, que ia aparecer um boom de diagnósticos”, lembra. Não necessariamente porque os casos tenham surgido naquele momento, mas porque muitos pacientes deixaram de fazer exames preventivos e outros interromperam o tratamento. “Isso pode levar a uma piora, a um avanço do estadiamento do câncer. E pelo que eu tenho visto, isso está aparecendo agora nos números.”
Ela defende que não podemos esperar sistemas perfeitos de informação antes de agir. “Não dá tempo. Muita gente vai perecer nesse caminho.” Para ela, é preciso tomar decisões emergenciais enquanto os dados seguem sendo consolidados. “A gente vai ter que trocar o pneu com o trem rodando”, resume.
O primeiro passo, opina, é retomar o cuidado preventivo. “A gente precisa estancar esse sangramento. A gente só vai fazer isso se voltar a uma rotina pré-pandemia com o nosso cuidado à saúde.” Isso significa campanhas claras para que a população não adie exames e para que pacientes em tratamento não interrompam a terapia.
O segundo eixo envolve a organização dos serviços oncológicos. Ela defende apoio direto aos CACONs e UNACONs para que façam um diagnóstico rápido da própria realidade. “Não é nada sofisticado nesse momento, é realmente tirar uma fotografia rápida: quantos pacientes eu tenho, em quais tumores, o que aconteceu, tive piora ou não?” A partir desse retrato, as unidades podem reorganizar fluxos e prioridades. “Eles continuam sendo responsáveis pela gestão dessa população que já está em tratamento.”
O terceiro ponto é econômico: melhorar a gestão da compra de medicamentos. Gabriela propõe centralizar a negociação de preços, criando tetos de referência, sem necessariamente centralizar a compra. “Se ajudar o CACON a fazer a tomada de preço, principalmente das drogas de maior custo, você diminui a variabilidade e melhora a negociação.” Ela cita estudo apresentado pelo grupo mostrando que economias nesse modelo poderiam ter financiado milhares de mamógrafos no SUS.
Para a especialista, existe caminho — mas é preciso agir agora. “Não é tudo o que a gente queria, mas é o ótimo inimigo do bom. A gente precisa começar por coisas simples que deem para alcançar e ajudar pontualmente.”







