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Sintomas ignorados e diagnósticos tardios ampliam o desafio do câncer de esôfago no Brasil

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Sumário

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Os sinais iniciais do câncer de esôfago costumam passar despercebidos. Alterações para engolir, desconfortos persistentes ou episódios frequentes de refluxo nem sempre são associados a algo mais sério, o que contribui para que o diagnóstico aconteça em estágios mais avançados. 

Quando identificado precocemente, esse tumor tem mais de 80% de chance de cura. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a estimativa é de 11.390 novos casos por ano no país no triênio 2026-2028. A incidência é maior entre homens, com 8.750 casos novos contra 2.640 em mulheres, ocupando a 15ª posição entre os tipos de câncer mais frequentes, sem considerar os tumores de pele não melanoma.

Como o diagnóstico precoce muda as possibilidades de tratamento

A história de Ricardo*, 40 anos, ilustra, na prática, o impacto do diagnóstico precoce nesse tipo de tumor. A decisão de cuidar da saúde veio depois de meses adiando um check-up. “Aquele negócio de ritmo de trabalho, sempre deixando as coisas para depois”, conta. Alguns desconfortos já apareciam, como azia, refluxo e incômodos abdominais, mas nada que, até então, parecesse grave.

No início deste ano, incentivado pela esposa, resolveu começar pelo gastroenterologista. “Durante a endoscopia, a médica identificou uma pequena saliência no finalzinho do esôfago e decidiu fazer a biópsia na hora. Poderia ter deixado passar, não deixou, graças a Deus.”

O resultado saiu poucos dias depois, na Quarta-feira de Cinzas. “Foi um susto. Não esperava.” O diagnóstico: um adenocarcinoma em estágio inicial. Em poucos dias ele passou por novos exames, como tomografia, PET-CT e ecoendoscopia, para avaliar a extensão da lesão. “Eu consegui fazer tudo muito rápido. Em dois dias já estava com os resultados.”

A avaliação dos médicos trouxe um alívio em meio ao impacto: tratava-se de uma lesão precoce, sem sinais de disseminação. “Eles falaram que eu dei muita sorte, peguei bem no comecinho.”

O plano de tratamento reflete o diagnóstico inicial, com indicação de um procedimento minimamente invasivo, feito por endoscopia, para remover a lesão. “É uma ressecção da mucosa. Eles entram por endoscopia, retiram a lesão e mandam para biópsia. Se não houver nenhuma alteração além do que já foi visto, fica só no acompanhamento.” Dependendo do resultado da biópsia após a retirada, pode ser necessária uma cirurgia mais extensa. “Pode ser que a gente precise de mais uma batalha. Mas estou otimista.”

O impacto emocional veio logo nos primeiros dias. Com histórico de câncer na família — a mãe morreu da doença —, o diagnóstico trouxe medo e ansiedade. “Na primeira semana, foi muito difícil. Eu não conseguia dormir, não queria pensar em nada”, lembra. “Os médicos foram essenciais para me acalmar. E minha esposa… ela segurou firme na minha mão o tempo todo. Acho que ela sofreu até mais do que eu.”

Ricardo também decidiu não compartilhar o diagnóstico com muitas pessoas. Preferiu manter a informação restrita à família mais próxima e a alguns colegas de trabalho. Ainda assim, o efeito foi imediato: “Alguns amigos começaram a fazer endoscopia depois que eu contei. Tinham os mesmos sintomas e nunca investigaram.”

Agora, com o procedimento marcado e alguns dias reservados para recuperação, tenta manter a rotina e a cabeça ocupada. “Tem ansiedade, tem medo, mas faz parte. Eu estou confiante.”

Ao olhar para trás, resume o que faria diferente e o que recomenda para outros homens: não adiar exames. “Quanto mais cedo você descobre, mais chance tem de resolver.  Não é o fim. É o começo de uma luta. Tem que ter fé, coragem e não deixar o medo dominar. Hoje existem muitas formas de tratamento, e as chances de cura, dependendo do estágio, são muito altas.”

*Nome fictício para preservar a identidade do paciente.

Doença avançada também pode ter bons resultados com avanços da Medicina

Se o diagnóstico precoce amplia as chances de cura, há também casos que mostram o avanço das opções de tratamento mesmo em cenários mais avançados. Leo Stephen Mahar recebeu o diagnóstico já em estágio 4, com metástases e, ainda assim, hoje está livre da doença.

Tudo começou com sinais que pareciam comuns. “Eu sentia dor no meio das costas e achava que era um músculo que eu puxei. Às vezes sentia mal-estar, desconforto estomacal”, conta. A orientação para investigar veio de um amigo médico.

O exame foi feito no início de 2021, em meio à pandemia, e o resultado mostrou um quadro grave, o esôfago estava necrosado.  A recomendação foi procurar imediatamente um especialista porque o diagnóstico já indicava um câncer avançado. “Eu tinha o primário no esôfago e tinha vários tumores no fígado, na glândula renal e na base do pescoço também. Era grau 4.”

O tratamento começou com nove sessões de quimioterapia, com efeitos colaterais intensos. “Eu estava toda hora vomitando. Foi horrível.” A resposta ao tratamento veio em poucos meses. “Antes no PET-CT eu parecia uma árvore de Natal”, conta, referindo-se aos destaques que aparecem no exame apontando pontos do tumor. “Logo no começo de 2022, o PET-CT mostrou que eu estava limpo. Completamente.” 

O tratamento aconteceu trouxe outros desafios, já que com a imunidade baixa enfrentou infecções como herpes zoster e pneumonia. “Mas isso tudo é pouco em comparação com o câncer.”

Ao longo de todo o processo, o apoio da esposa foi constante e fundamental. “Ela ficou os 11 dias comigo no hospital, dormiu lá todo dia. Dividia o prato dela comigo, porque eu não conseguia comer o que me davam. Sem ela, não sei como teria sido.”

Segue até hoje com imunoterapia, sem qualquer efeito. “Eu só tenho que ir uma vez por mês e, a cada quatro meses, faço PET.” Em breve completa cinco anos livre da doença.  Ao relembrar o início, reconhece que os sintomas foram subestimados. “A gente faz isso, né? Acha que não é nada”.  Com a rotina retomada, comemora o resultado. “Foi uma resposta milagrosa.”

Principais sintomas do tumor e quando procurar um médico

Lucas Santos, oncologista clínico na Rede Américas e especialista do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, ressalta que um dos principais sintomas é a disfagia, a dificuldade de deglutição. “É aquele paciente que quando vai engolir parece que alguma coisa entala e eventualmente ele sente necessidade de regurgitar”. Ele cita ainda a perda de peso e falta de apetite, além de pacientes com sintomas mais sérios, que podem envolver tosse, por conta de uma comunicação anormal do esôfago com a árvore brônquica. 

Destaca também que a pirose – dor, sensação de queimação – e o refluxo são frequentemente associados, mas não necessariamente sintomas do próprio tumor. “Eles merecem atenção, porque tem a ver com uma condição que predispõe ao aparecimento de câncer propriamente dito, mas não são necessariamente sintomas de câncer de esôfago.”

  • Uma dúvida frequente é como diferenciar e saber quando é a hora de procurar o médico.

O especialista reforça que o sintoma nunca deve ser negligenciado, mas comenta que uma pessoa saudável que comeu demais ou o que não deveria, às vezes pode ter um pouco de queimação e eventualmente refluxo. “Se dura poucos dias, tudo bem. O problema é esse sintoma de forma recorrente ou persistente, que pode indicar algo mais sério”, diz. “E hoje existem alterações ou condições pré tumorais que possibilitam fazer o diagnóstico de forma mais precoce, até evitar que a pessoa desenvolva um câncer no futuro.”

Por isso, quem sempre tem sensação de queimação, sintomas de refluxo, tosse não explicada, acorda no meio da noite ou de manhã cedo com tosse, com pigarro, pode ser sinal de uma inflamação crônica das vias aéreas por conta do refluxo. É importante consultar um gastroenterologista.

O diagnóstico é feito com endoscopia, com um tubo com câmera na ponta colocado na garganta que vai mostrar o esôfago, o estômago e as primeiras porções do duodeno. No esôfago, aponta se há alterações de cor, texturo e até feridas. Se há uma lesão suspeita é possível já fazer uma biópsia.

Brasil não tem rastreamento para esse tipo de tumor

O diagnóstico do câncer de esôfago costuma ocorrer a partir de sintomas, já que não há rastreamento populacional no Ocidente. A endoscopia é um exame invasivo e Lucas Santos comenta que só é adotada de forma sistemática em países como Japão e Coreia, para câncer gástrico, onde demonstrou impacto na redução de casos e mortalidade. “Como é feita endoscopia para ver um possível câncer de estômago e é o mesmo exame para diagnosticar câncer de esôfago, acaba automaticamente fazendo o rastreamento”.

Ele esclarece que no Ocidente a investigação é indicada em situações específicas, principalmente para pacientes com condições precursoras, como o esôfago de Barrett. Eles são colocados no programa de rastreamento, o que permite tratar precocemente o esôfago de Barrett e minimizar o risco desse paciente experimentar um câncer no futuro.

“Felizmente a prevalência é pequena, mas há paciente que tem queimação crônica, doença do refluxo crônica e esse refluxo já machucou a mucosa do esôfago em grande extensão. Vemos as lesões precursoras, que tem células já com alterações genéticas suficientes e pode ter risco de se desenvolver para lesões invasivas, lesões tumorais cancerosas num futuro próximo.”  Esses pacientes precisam de acompanhamento regular e, em alguns casos selecionados de maior risco, podem ser discutidas estratégias preventivas, como o uso de medicações. 

Fatores de risco

Para explicar os fatores de risco o oncologista separa o câncer de esôfago em dois tipos principais.

Carcinoma escamoso ou epidermoide Adenocarcinoma
Bastante relacionado ao tabagismo e ao etilismo.Normalmente acomete as porções superiores ou médias do esôfago.Bastante relacionado à obesidade, à doença do refluxo gastroesofagiano. Tem alguma associação também com tabagismo e etilismo, embora bem menor. Normalmente nas porções inferiores do esôfago, mais próximo do estômago.

Avaliação individualizada para o tratamento

A definição do tratamento vai depender principalmente do estágio em que a doença é descoberta. “É um tratamento sob medida para cada paciente”, avisa o especialista. 

  • Doença pré-neoplásica

Quando o diagnóstico é feito antes de se tornar um câncer, o tratamento pode ser com endoscopia. “Existem determinados tipos de cirurgia que você faz pela endoscopia que podem oferecer taxas de cura extremamente altas. Esse é o melhor cenário, são os tratamentos que trazem melhor relação custo-benefício, menores morbidades, menos complicações para os pacientes”, avalia o oncologista. 

Ele lembra que os avanços no tratamento têm ampliado as possibilidades de controle da doença, inclusive em casos que antes eram considerados incuráveis. Hoje, pacientes com câncer avançado podem viver mais tempo e, em algumas situações, alcançar remissão e ficar livres da doença por anos. Ainda que esse cenário não seja a regra para todos, tornou-se mais frequente do que no passado. Mesmo assim, o principal fator para aumentar as chances de cura continua sendo o diagnóstico precoce: reconhecer e investigar sintomas iniciais pode impactar diretamente os resultados do tratamento.

  • Tumores ainda precoce

São tratados majoritariamente com cirurgia. “O paciente é operado e há boas taxas de cura”.

  • Tumor um pouco mais avançado, não metastático

Normalmente oferece um tratamento chamado de trimodalidade, com radioterapia e quimioterapia pré-operatórias. Depois a cirurgia como tratamento definitivo. “Nessas situações o médico pode ou não oferecer um tratamento com imunoterapia depois. Em alguns casos especiais, esses pacientes podem receber ou não radioterapia, em outros somente a quimioterapia e a cirurgia posterior e discutimos também imunoterapia nesse cenário”. 

A imunoterapia é usada para maximizar o controle da doença e minimizar o risco de recidivar.

  • Doença com metástase

Pode oferecer um tratamento apenas com quimioterapia, com quimioterapia mais imunoterapia ou apenas com imunoterapia. “Isso depende um pouquinho do cenário, dos biomarcadores, que são alterações moleculares que encontramos na biópsia”. 

Nesses casos geralmente não há cirurgia, porque não é tecnicamente possível, já que o tumor do esôfago invadiu órgãos adjacente, como brônquios.

Texto de Vivi Griffon

Publicação: 30/04/2026 | Atualização: 30/04/2026

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