back to top

O linfedema é uma condição crônica que ocorre quando há um acúmulo de líquido linfático nos tecidos, resultando em inchaço, geralmente nos braços ou pernas. Este acúmulo resulta de um comprometimento no sistema linfático, frequentemente associado a tratamentos oncológicos como a cirurgia e a radioterapia.

Esse inchaço pode ser causado por uma obstrução do fluxo linfático, causando retenção de fluido nos tecidos, condição decorrente de lesões de vasos e capilares linfáticos e bloqueios nos linfonodos, responsáveis por filtrar a linfa e combater infecções.

Quando esses filtros naturais do corpo não funcionam corretamente, o líquido se acumula, causando desconforto e, em alguns casos, dor. Para lidar com o linfedema, é essencial entender como o sistema linfático funciona. 

Em uma pessoa saudável, cerca de 2 a 4 litros de linfa são drenados diariamente para o sistema circulatório. No entanto, esse volume pode aumentar significativamente em casos de infecção ou inflamação. 

O manejo do linfedema é um componente crítico dos cuidados oncológicos, exigindo uma abordagem integrada e contínua. Avanços recentes nas técnicas de tratamento e nas diretrizes de cuidado oferecem uma melhor qualidade de vida para os pacientes afetados, destacando a importância da prevenção, diagnóstico precoce e intervenções eficazes.

Pontos-chave

  • Compreender o linfedema: É uma condição crônica causada pelo acúmulo de líquido linfático nos tecidos, geralmente nos braços ou pernas, devido a bloqueios nos linfonodos.
  • Sintomas e sinais: Inchaço, sensação de peso, dor, endurecimento da pele e limitação dos movimentos são sintomas comuns. O sinal de Stemmer é um indicador diagnóstico importante.
  • Causas principais: Pode ser primário (genético) ou secundário (causado por cirurgias, infecções e traumas). 
    • Cirurgia: Lesão de capilares e vasos linfáticos, remoção de linfonodos, especialmente em tratamentos oncológicos.
    • Radioterapia: Danos aos linfonodos e vasos linfáticos.
    • Infecções: Linfangite e filariose.
    • Traumas: Lesões físicas que danificam o sistema linfático.
  • Tratamento e manejo: Inclui Terapia Descongestiva Complexa, uso de bandagens compressivas, e especialmente exercício físico e controle e redução de peso, além dos cuidados com a pele para prevenir infecções.
  • Diferença entre linfedema e lipedema: O linfedema envolve acúmulo de linfa por bloqueios linfáticos, enquanto o lipedema é uma distribuição anormal de gordura que geralmente poupa os pés nos estágios iniciais.
  • Importância do diagnóstico: Uma avaliação clínica detalhada e exames complementares, como linfocintigrafia e ecografia, são essenciais para um diagnóstico preciso e um tratamento eficaz.

Linfedema é Câncer?

Embora o linfedema frequentemente ocorra após tratamentos de câncer, como mastectomias, ele não é um câncer. Contudo, o inchaço crônico e a inflamação podem aumentar o risco de infecções e outras complicações. Ficar atento e tratar o linfedema é essencial para prevenir problemas mais sérios.

Tipos de linfedema

Linfedema primário

O linfedema primário resulta de anomalias genéticas no sistema linfático. Pode se manifestar ao nascimento ou na infância, afetando principalmente os membros inferiores. As causas incluem:

  • Aplasia: ausência de vasos linfáticos.
  • Hipoplasia: vasos linfáticos estreitos ou em número reduzido.
  • Hiperplasia: paredes vasculares alargadas.
  • Fibrose: endurecimento dos gânglios linfáticos.
  • Agnesia: ausência de gânglios linfáticos.

Linfedema secundário

O linfedema secundário aparece devido a danos no sistema linfático, como resultado de lesões, cirurgias, infecções ou doenças. Causas comuns:

  • Cirurgias (especialmente em tratamentos oncológicos de câncer de mama, melanoma, câncer de próstata e outros);
  • Infecções repetidas;
  • Lesões traumáticas;
  • Obesidade;
  • Varizes.

Esse tipo pode afetar qualquer parte do corpo, mas é mais comum nos membros superiores após procedimentos oncológicos. Sintomas típicos incluem inchaço e sensação de peso, sendo o linfedema no braço frequente após tratamentos de câncer de mama.

Principais causas do linfedema

O linfedema é causado por diversos fatores que afetam o sistema linfático, levando ao acúmulo de líquido nos tecidos. Você deve entender essas causas para adotar medidas preventivas eficazes.

Radioterapia e cirurgia

Procedimentos oncológicos, como a radioterapia e a cirurgia, podem danificar os vasos linfáticos. Cirurgias de remoção de linfonodos, como a mastectomia, frequentemente resultam em linfedema no braço. Radioterapia na região dos linfonodos também aumenta o risco, pois danifica o tecido linfático.

Obstruções e infecções

Obstruções nos vasos linfáticos, como trombose e estenose, impedem o fluxo de líquido linfático. Infecções, como a filariose, destroem os vasos linfáticos e resultam em sintomas de linfedema. Manter a pele limpa e protegida ajuda a prevenir infecções.

Genética

Algumas pessoas nascem com condições genéticas que afetam o desenvolvimento do sistema linfático. O linfedema primário manifesta-se desde o nascimento ou durante a puberdade devido a essas anomalias congênitas.

Trauma

Lesões e traumas que danificam os vasos linfáticos também causam linfedema. Acidentes, queimaduras e cortes significativos são exemplos de traumas que podem levar ao inchaço linfático.

Outros fatores

Além das causas principais, idade avançada, obesidade e complicações pós-operatórias são fatores adicionais. O linfedema se manifesta de forma aguda ou crônica, dependendo da eficiência do sistema linfático após cirurgia ou radioterapia. Reconhecer essas causas te ajudará a entender o linfedema, seus fatores de risco e como evitá-los.

Sintomas e sinais do linfedema

O linfedema é caracterizado por inchaço localizado devido ao acúmulo de linfa nos tecidos. Reconhecer sinais e sintomas precocemente é crucial para o tratamento eficaz.

Sinal de Stemmer

O sinal de Stemmer é um importante indicador clínico de linfedema. Ele é caracterizado pela dificuldade ou impossibilidade de levantar uma prega de pele no dorso do segundo dedo do pé ou da mão, indicando espessamento da pele.

Alterações na pele

O linfedema causa sérias alterações na pele, como espessamento, endurecimento e perda de elasticidade. Além disso, a pele pode apresentar mudanças de cor e desenvolvê-la fissuras dolorosas. Essas mudanças resultam da contínua retenção de líquido e da inflamação crônica.

Inchaço e sensação de peso

O inchaço é um dos principais sintomas de linfedema, afetando frequentemente os membros superiores e inferiores. Você pode sentir uma sensação de peso, desconforto e dor na região afetada. Este sintoma limita sua mobilidade e atividades diárias.

Perda de mobilidade e flexibilidade

Aumentando o inchaço e endurecimento da pele, ocorre a perda de mobilidade e flexibilidade dos membros afetados. Isso dificulta ainda mais as atividades cotidianas, exigindo, muitas vezes, intervenção terapêutica específica para manter a funcionalidade.

Fadiga e fraqueza

A constante retenção de líquidos e o esforço extra necessário para mover os membros inchados provocam fadiga e fraqueza. Esses sintomas impactam negativamente na sua qualidade de vida, limitando sua energia para atividades do dia a dia.

Diagnóstico do linfedema

O diagnóstico do linfedema é baseado em uma avaliação clínica detalhada e exames complementares para confirmar a condição e excluir outras causas de edema.

Avaliação clínica

A avaliação clínica começa com a coleta de sua história médica. O médico perguntará sobre cirurgias, lesões ou doenças prévias que possam estar relacionadas ao inchaço. Durante o exame físico, o médico observará sinais de inchaço, dor e sensibilidade nos membros afetados. A presença de fibrose ou endurecimento tecidual também será avaliada.

Exames complementares

Os exames complementares são essenciais para uma avaliação detalhada.

A ecografia, por exemplo, ajuda a visualizar a circulação linfática e identificar obstruções.

A linfocintilografia é usada para avaliar a função do sistema linfático e detectar possíveis anormalidades na drenagem linfática.

A linfografia com indocianina verde (ICG) é uma técnica moderna e eficaz utilizada para a avaliação do linfedema. Este exame permite a visualização detalhada do sistema linfático, facilitando o diagnóstico precoce e o planejamento do tratamento.

Outros exames de imagem, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, podem ser indicados para excluir outras causas de edema.

Diagnosticar linfedema corretamente é crucial para o manejo adequado da condição. Combinando avaliação clínica e exames complementares, o médico pode traçar o melhor plano de tratamento para controlar os sintomas de linfedema e prevenir complicações.

Tratamentos disponíveis

Terapia Física Completa (TPC)

  • Drenagem Linfática Manual (DLM): Técnica de massagem suave que estimula o fluxo linfático e reduz o inchaço.
  • Compressão: Aplicação de bandagens compressivas ou uso de roupas de compressão para ajudar a controlar o inchaço e prevenir sua progressão.
  • Exercícios terapêuticos: Exercícios específicos para melhorar a função linfática, aumentar a mobilidade e fortalecer os músculos.

Técnicas adicionais

  • Laserterapia de baixa intensidade: Usada para reduzir a fibrose e melhorar a drenagem linfática.
  • Terapia pneumática de compressão intermitente: Uso de dispositivos que aplicam compressão sequencial para estimular o fluxo linfático.
  • Exercícios aeróbicos: Atividades como caminhada, natação e ciclismo são recomendadas para melhorar a circulação e promover a drenagem linfática.
  • Exercícios de resistência: Exercícios com pesos leves ou bandas elásticas ajudam a fortalecer os músculos e melhorar a função linfática sem causar estresse excessivo nos tecidos.
  • Exercícios de flexibilidade: Alongamentos suaves para manter ou melhorar a amplitude de movimento, prevenir contraturas e melhorar a mobilidade geral.
  • Exercícios respiratórios: Técnicas de respiração diafragmática para ajudar na drenagem linfática, especialmente nos casos de linfedema torácico.

Uso de contenção

  • Vestimentas de compressão: Fisioterapeutas prescrevem e ajustam roupas de compressão usadas durante o dia para manter o inchaço sob controle.
  • Bandagens compressivas: Aplicação de bandagens compressivas multi-camadas, especialmente durante a fase intensiva do tratamento.

Prevenção e manejo do linfedema

Entender o linfedema e suas implicações é fundamental para um manejo eficaz e precoce. Aqui alguns exemplos: 

  • Inchaço sutil em uma parte do corpo, geralmente em um braço ou perna, mas também pode ocorrer em outras áreas. Adotar medidas preventivas como cuidados com a pele e exercícios específicos pode fazer uma grande diferença na sua qualidade de vida. 
  • Sensação de peso, aperto ou plenitude no membro afetado.
  • Mudanças na textura ou aparência da pele, como pele mais dura, espessa (fibrose) ou tensa.
  • Sentir alguma dificuldade em mover as articulações próximas à área inchada.
  • Joias (como anéis ou pulseiras) e roupas podem parecer mais apertadas do que o normal, e você pode notar marcas na pele deixadas por essas peças.

Se você identificar sinais precoces de linfedema, procure orientação médica imediatamente para iniciar o tratamento adequado. Lembre-se de que a combinação de terapias e mudanças no estilo de vida é fundamental para controlar os sintomas e evitar complicações.

Com conhecimento e ações proativas, você pode viver de forma mais confortável e saudável, mesmo com essa condição crônica.

Conclusão

O diagnóstico precoce do linfedema é essencial para prevenir a progressão da doença para estágios mais severos e melhorar os resultados para os pacientes. Intervenções precoces podem reduzir significativamente os sintomas, prevenir complicações graves e melhorar a qualidade de vida.

Além disso, estratégias eficazes de diagnóstico precoce são custo-efetivas e podem aliviar a carga sobre os sistemas de saúde. Portanto, a conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce e a implementação de programas de monitoramento são passos fundamentais na gestão do linfedema.

Artigo publicado em: 04 de julho de 2024
Artigo atualizado em: 12 de julho de 2024

Dr. Antonio Carlos Buzaid
Co-fundador do Instituto Vencer o Câncer, Dr. Antonio Carlos Buzaid é um destacado oncologista clínico, graduado pela Universidade de São Paulo, com experiência internacional nos EUA, onde foi diretor de centros especializados em melanoma e câncer de pulmão, além de professor na Universidade de Yale. No Brasil, dirigiu centros de oncologia nos hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein, e atualmente é diretor médico geral do Centro de Oncologia do hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. CRM 45.405
Dr. Fernando Cotait Maluf
Co-fundador do Instituto Vencer o Câncer, Dr. Fernando Cotait Maluf é um renomado oncologista clínico, graduado pela Santa Casa de São Paulo, com doutorado em Urologia pela FMUSP. Ele foi chefe do Programa de Residência Médica em Oncologia Clínica do Hospital Sírio Libanês e atualmente é diretor associado do Centro de Oncologia do hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, além de membro do Comitê Gestor do Hospital Israelita Albert Einstein e professor livre-docente na Santa Casa de São Paulo. CRM: 81.930